Directora Regional de Cultura do Alentejo quer classificação urgente do património megalítico

A recente destruição de duas antas em Évora e Mora alertou os responsáveis da cultura para a necessidade de salvaguardar um património com “relevância científica nacional e internacional”.

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O cromeleque dos Almendres, em Évora DANIEL ROCHA

A instalação de culturas intensivas no Alentejo continua a sacrificar o património arqueológico quando já se tomava por adquirido que os promotores de novos projectos agrícolas já admitiam a necessidade de salvaguardar os vestígios que a mobilização dos solos trazia à luz do dia. Para o impedir, pede-se a sua classificação urgente.

Desta vez os atentados estão a atingir o rico e vasto património megalítico existente no centro e norte alentejano. No espaço de poucas semanas, duas antas desapareceram na freguesia de Torre de Coelheiros, em Évora, e em Mora no decorrer da realização de trabalhos agrícolas para a plantação de amendoal intensivo, apesar de se tratar de testemunhos que se destacam por serem construídos com lajes de grande tonelagem.

Estes são os casos mais recentes que relatam a destruição de vestígios megalíticos que estavam devidamente identificados. Outros poderão seguir o mesmo caminho se nada for feito para a sua protecção.

Alertada para a dimensão do problema, a directora Regional de Cultura do Alentejo (DRCA), Ana Paula Amendoeira, já apresentou uma proposta para a classificação “urgente e excepcional de todo o conjunto do património megalítico da região” para travar uma potencial onda destruidora quando a instalação massiva de culturas intensivas já se alastra a extensas áreas agrícolas no centro e norte alentejanos.

A proposta apresentada, e que foi elaborada por um grupo de especialistas, vai acompanhada de um dossier de classificação “com cerca de 2000 páginas e contempla mais de 1600 monumentos”, alguns deles já classificados.

A iniciativa foi tomada dada a “ausência de regulação que impeça que se actue preventivamente” quando se assiste a uma “crescente e sistemática destruição da paisagem histórica e do património arqueológico e vernáculo, sobretudo no Baixo Alentejo e no Alentejo Central, mas também já com várias ocorrências no Alto Alentejo”, realça Paula Amendoeira na proposta de classificação que enviou à Direcção - Geral do Património Cultural e ao Conselho Nacional de Cultura - Secção do Património Arquitectónico e Arqueológico, na passada quarta-feira, 21 de Outubro.

A aprovação desta proposta, com o consequente despacho de abertura de procedimento de classificação, “contribuirá para dissuadir futuras destruições e para que o Estado assuma o seu papel na defesa do interesse público no que ao património megalítico diz respeito”, vinca a directora Regional de Cultura.

Paula Amendoeira descreve o conceito do património megalitismo, definindo-o como um “complexo conjunto de práticas mágico-religiosas pré-históricas relacionadas com a morte e o sagrado”, que se revela através da arquitectura monumental que o caracteriza. E é sobretudo no centro e norte alentejano que se está a área de “maior concentração de monumentos megalíticos da Península Ibérica e uma das mais relevantes à escala europeia”, destaca a directora regional. O megalitismo alentejano, prossegue Paula Amendoeira, é um “fenómeno estreitamente relacionado com a paisagem física e também com a paisagem humana do 4.º e 3.º milénios antes da nossa era”.

Entre as tipologias megalíticas alentejanas encontram-se antas (ou dolmens) que surgem na região de forma mais abundante, e menires, isolados ou associados em grandes recintos. Além dos monólitos, o megalitismo apresenta-se igualmente através de outros suportes: gravuras em menires, pinturas em abrigos, e no espólio votivo (placas de xisto gravadas por exemplo), são alguns exemplos da arte megalítica, que se encontram na região.

O facto de o megalitismo alentejano ser “um valor cultural excepcional e único, de relevância científica nacional e internacional, um património de grande potencialidade turística e, acima de tudo, constituir uma marca identitária da paisagem cultural do Alentejo” exige a sua preservação.

Neste sentido surge esta proposta de classificação “urgente e excepcional” para que o megalitismo do Alentejo seja, finalmente, considerado um conjunto de Interesse Nacional.

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