Dois resistentes, o Escritaria e Mário Zambujal, encontram-se em Penafiel

Apesar da Covid-19, o festival literário foi por diante e assinala este fim-de-semana, também, os 50 anos de carreira do jornalista Fernando Alves.

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Mário Zambujal celebra os 40 anos de Crónica dos Bons Malandros JH JOAO HENRIQUES

Há vários dias que se respira livros em Penafiel. É coisa que se pode fazer com máscara, ler, e por isso o município de Penafiel não cedeu à tentação de mandar parar a máquina do Escritaria e avançou com o festival literário, ainda que com todos os cuidados necessários. Esta sexta-feira à noite, o homenageado da edição deste ano, o escritor e jornalista Mário Zambujal, participa numa conversa – transmitida online, para chegar a mais gente. A seu lado, com a devida distância, uma vénia, e um percurso de 50 anos no jornalismo radiofónico estará Fernando Alves, cuja carreira se celebra também neste fim-de-semana.

O Escritaria deste ano segue com lotação limitada e distanciamento social. No entanto, quem passar por Penafiel vai poder assistir a exposições e animações de rua, como a peça de teatro baseado na obra Crónica dos Bons Malandros, que, sinal dos dias que correm, terá menos actores. Espera-se, ainda, o lançamento da reedição da obra Uma Noite Não São Dias, no sábado. À semelhança de todos os nomes que já passaram por Penafiel, também Mário Zambujal terá uma frase – “Os tempos mudam mas não há máquina que substitua a natureza de um abraço” – e a sua silhueta esculpida. Ambas serão perpetuadas no Jardim do Calvário, no centro da cidade.

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O escritor de 84 anos admite ao PÚBLICO que ser homenageado “é muito agradável”, especialmente por não terem adiado o evento devido à covid-19: “Persistiram e é uma coisa que eu admiro bastante neste festival”. O jornalista não estava a contar ser seleccionado, “de maneira nenhuma”, e assume, brincando, que “a malta velha é muito sensível a um carinho como este”. Anseia mais por “estar com amigos e ver lá pessoas”, para “viver aquele ambiente do festival muito sedutor”. “É de admirar numa pequena cidade manter-se este espírito”. “Não é só livros e letras”, prossegue, “aquilo abrange muito das artes e dos costumes”.

Quatro décadas com bons malandros

O sucesso da obra Crónica dos Bons Malandros, homenageada no festival, ainda hoje surpreende Zambujal. “O livro foi publicado em 1980, portanto já lá vão 40 anos, e tem tido sucessivas e constantes reedições.” E afirma que lhe “agrada especialmente” a intemporalidade que ganhou: “Há a geração que tinha 30 anos em 1980 e depois há a geração de gente nova que tem vindo a aderir àquela historinha mais ou menos louca.”

O Presidente da Câmara de Penafiel, Antonino de Sousa, destaca a importância do evento para a localidade. “Toda esta região vive a Escritaria com grande entusiasmo”, conta, e considerando que o evento “ganhou dimensão e prestígios nacionais”. O autarca garante que a decisão de quem homenagear este ano foi “consensual”. “O Mário Zambujal, pela obra que tem e pelo trabalho que desenvolveu na escrita, mas também no jornalismo, tem um perfil que se enquadra perfeitamente naquele que tem sido o espírito do Escritaria”, assinala.

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Este ano, o festival será “bastante diferente”, assegura, “mais minimalista no contacto e na proximidade” que o caracterizavam. Já não será possível “ter os leitores tão próximos do autor” das edições anteriores, mas a homenagem mantém-se, confirma o autarca. O ponto alto é a “grande conferência” de Mário Zambujal com Fernando Alves, esta sexta-feira, transmitida nas plataformas digitais. Também os 50 anos de carreira de Fernando Alves serão celebrados no festival, no domingo. “Desde a primeira edição que está presente na Escritaria, é uma figura muito emblemática para nós”, sublinha Antonino de Sousa.

A Alhotra chega ao cinema

Os espectadores contaram com duas novidades este ano, reveladas na quinta-feira. Foi apresentado um documentário, realizado com base numa investigação, sobre uma especificidade do concelho de penafiel, a Alhotra. Consiste num “código linguístico” que “os pedreiros e trolhas usavam para comunicarem entre si sem serem compreendidos quer pelo dono da obra, quer pelo patrão, quer por outros cidadãos”, explica o autarca. A tradição, “bastante antiga”, é evidenciada nesta edição, como estratégia de preservação: “estava praticamente esquecida, hoje já são muito poucos os falantes deste código que nunca foi escrito”.

Além disso, foi também editado o “mapa dos livros”, um “guia literário que consiste essencialmente em mostrar o concelho através das vivências dos escritores que foram passando pela cidade e concelho, ou que nas suas obras fizeram referências” a Penafiel. Trata-se de uma recolha de “histórias e lugares penafidelenses que inspiraram escritores nacionais”.

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Cancelar não foi opção

Como o Escritaria “é também uma homenagem à cultura, e a cultura tem sido tão fustigada com estes tempos da pandemia”, cancelar o evento não era uma opção. Apoiado “mais nos suportes digitais”, o festival “vai mostrar que a cultura continua viva e que em Penafiel não desistimos” dela, defende. “É um investimento significativo, não tanto do ponto de vista financeiro, mas do empenho e envolvimento quer da estrutura municipal, quer da própria comunidade”, sublinha. Planeada desde o final da edição anterior, o Escritaria deixa “a cidade toda recheada de arte de rua e de decoração, e até as montras das lojas, cafés, e restaurantes têm referências ao escritor homenageado”.

Mário Zambujal é conhecido pela sua contribuição para a literatura, mas também para a televisão, o teatro, e o jornalismo. Crónica dos Bons Malandros continua a triunfar, e está a ser alvo de uma adaptação para televisão com a realização de Jorge Paixão da Costa. Entre muitas, obras como Histórias do Fim da Rua, À Noite Logo se Vê, Já Não se Escrevem Cartas de Amor, e Uma Noite Não São Dias, emprestam esta semana personagens às ruas de Penafiel.

O Escritaria é um festival literário singular no país, que se destina a celebrar autores lusófonos vivos, e oferece às pessoas “a oportunidade de estarem mais próximas do escritor”, explica o presidente da câmara. No passado, já passaram pelo Escritaria autores como Urbano Tavares Rodrigues, José Saramago, Agustina Bessa-Luís, Mia Couto, António Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Mário Cláudio, Alice Vieira, Miguel Sousa Tavares, Pepetela e Manuel Alegre.

Texto editado por Abel Coentrão