Lincoln Project: os republicanos que ridicularizam Trump para eleger Biden

O grupo formado por republicanos desiludidos com Donald Trump angariou mais de 20 milhões de dólares em seis meses e tem quase tantos seguidores no Twitter como o Partido Republicano. Os vídeos a ridicularizar o Presidente norte-americano são a sua imagem de marca.

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Donald Trump chamou “perdedores” e “falhados” aos membros do Lincoln Project Reuters/CARLOS BARRIA

“Não chorem por mim funcionários da Casa Branca, a verdade é que vos vou infectar”, ouve-se como música de fundo, numa versão de Don't Cry For me Argentina – composta por Andrew Lloyd Weber para o seu musical Evita e cantada por Madonna na adaptação cinematográfica –, num vídeo com as imagens dos dias seguintes a Donald Trump ter sido infectado com o coronavírus. “Usar máscara e agir de forma sensata, isso é coisa que nunca farei (…) não cumpri a minha promessa e não vou manter a distância”, continua, terminando com o Presidente norte-americano a virar as costas enquanto se ouve alguém a tossir.

O vídeo, que se tornou viral nas redes sociais, foi lançado pelo Lincoln Project, um Comité de Acção Política (PAC, na sigla em inglês) criado por um grupo de dissidentes republicanos, no final do ano passado, que pretende impedir a reeleição de Trump a 3 de Novembro. Para tal, o grupo, que conta com mais de 2,4 milhões de seguidores no Twitter, tem apostado sobretudo em anúncios e vídeos que ridicularizam o Presidente norte-americano.

Num artigo publicado no The New York Times em Dezembro de 2019, os quatro co-fundadores do Lincoln Project afirmavam que “Trump e os seus facilitadores abandonaram o conservadorismo e os antigos princípios republicanos, substituindo-os pelo trumpismo, uma fé vazia liderada por um falso profeta”, e comprometeram-se a lutar para que o Presidente norte-americano não fosse reeleito, “mesmo que isso implique um controlo democrata do Senado e expanda a maioria democrata na Câmara dos Representantes”.

Entre os seus fundadores, estão figuras com vários anos de serviço ao Partido Republicano, como Steve Schmidt, que trabalhou com o ex-presidente George W. Bush na Casa Branca e assumiu um papel importante na nomeação dos juízes Samuel Alito e John Roberts para o Supremo Tribunal; John Weaver, um antigo colaborador de John McCain e George H.W. Bush; Rick Wilson, veterano das campanhas republicanas que trabalhou com Rudolph Giuliani e Dick Cheney; e o advogado George Conway, casado com a ex-conselheira de Trump Kellyanne Conway, que abandonou o projecto em Agosto, devido a questões familiares.

Irritar Trump

Até final de Abril, o grupo foi construindo a sua marca, sobretudo nas redes sociais, mas no dia 5 de Maio, ganhou projecção ao conseguir atingir um dos seus principais objectivos: irritar o Presidente Trump, que lhes chamou “perdedores” e “falhados”, numa série de tweets.

Em causa, um vídeo divulgado pelo grupo que fez um trocadilho com o famoso anúncio Morning in America (manhã na América), utilizado durante a campanha de Ronald Reagan em 1984, baptizando-o de Mourning in America (luto na América). O vídeo critica a resposta da Administração Trump à pandemia de covid-19, com imagens de ruas desertas e prédios em ruínas.

O vídeo não só se tornou viral nas redes sociais, entusiasmando os opositores do Presidente, como fez disparar as receitas do Lincoln Project, que recebeu rapidamente mais de um milhão de dólares em donativos. Até final de Junho, segundo a The New Yorker, o grupo já tinha angariado perto de 20 milhões de dólares. Os dados dos últimos três meses ainda não foram divulgados.

A revista norte-americana, que publicou uma longa reportagem sobre o grupo, refere que, actualmente, o Lincoln Project, fundado por oito pessoas, tem 35 funcionários pagos a tempo inteiro, e até criou uma “sala de guerra” em Washington, onde prepara a estratégia para as eleições de Novembro.

Em Maio, o mês em que conseguiu captar a ira de Trump, o grupo contratou Keith Edwards como responsável de comunicação, com a função de dar uma “resposta rápida” e explorar conteúdos na Internet, de forma crítica e criativa.

“Entrei na política para derrotar este Presidente”, disse Edwards ao programa 60 Minutes, da CBS News. “Fazer um tweet é relativamente fácil. Penso, escrevo e envio o tweet. A maioria das campanhas políticas têm cerca de 20 fases antes da aprovação, mas eles [Lincoln Project] confiaram em mim para gerir a marca online”, acrescentou.

Actualmente, o Lincoln Project está a apenas 100 mil seguidores de ultrapassar a conta oficial do Partido Republicano no Twittter (2,5 milhões de seguidores) e o grupo espera atingir a marca de um milhão de subscritores por email até ao dia das eleições.

Entre outras estratégias, além dos artigos de opinião publicados na imprensa ou conteúdos partilhados nas redes sociais, o Lincoln Project tem apostado também na compra de publicidade, em espaços bem definidos: entre os programas televisivos a que Trump assiste regularmente.

“Temos anúncios permanentes na Fox News, nos programas Foxs and Friends, Tucker Carlson e Sean Hannity, todas as noites, e sabemos que ele [Trump] está em casa a vê-los”, disse à CBS News Reed Galen, estratego político e co-fundador do Lincoln Project, que trabalhou com George W. Bush, John McCain e Arnold Schwarzenegger.

Dúvidas e incertezas

Com o crescimento exponencial, vêm também críticas, sobretudo na forma como o dinheiro dos donativos é gasto. Classificado como um super PAC, o Lincoln Project não é obrigado, por lei, a revelar todas as transacções que faz ou as empresas que subcontrata e, escreve a New Yorker, têm surgido críticas em relação aos gastos do grupo terem sido canalizados através de duas empresas de consultoria dos seus fundadores, incluindo a de Reed Galen, que se justifica com a ideia de que muitos financiadores são republicanos que não querem ser identificados.

Além disso, surgem também incertezas quanto às intenções do grupo numa conjuntura pós-Trump. “Os progressistas e liberais devem ver o Lincoln Project como republicanos convertidos, como aliados temporários de conveniência, ou como um Cavalo de Tróia ideológico que cooptará o Partido Democrata a partir de dentro?” questiona, num artigo de opinião publicado no Washington Post, o colunista Greg Sargent.

Sargent realça também que a condenação do actual mandato do Presidente feita pelo Lincoln Project “não reconhece a culpa do Partido Republicano, que criou as condições para a ascensão” de Trump. Acrescenta o site Vox: “Através dos seus laços profundos com o Partido Republicano pré-Trump, os responsáveis do Lincoln Project são indirectamente responsáveis pela sua ascensão.”

O analista Lincoln Mitchell, na CNN, alerta ainda que “caso Biden vença, organizações como o Lincoln Project vão ter maior influência e opções”, podendo reivindicar o seu papel na eleição do candidato democrata, o que os deixa “bem posicionados para um ataque conservador aos progressistas que gostariam de ver um Presidente Biden a virar à esquerda quando fosse eleito”.