Do SNS engripado, a Portugal sem influenza: o farmacêutico

Servimos na terra mais remota de Portugal onde não chega o SNS e onde fazemos chegar os cuidados de saúde. Servimos nos grandes centros urbanos onde combatemos a solidão e onde o nosso sorriso a espanta. Servimos no medicamento que, com dificuldade, nos desdobramos para arranjar.

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Nuno Ferreira Santos

À pandemia que atormenta o mundo, os farmacêuticos portugueses responderam como melhor sabem: com firmeza, com perseverança, dando o corpo às balas e mostrando que o medo, que naturalmente sentimos, nunca vencerá o nosso dever: servir. 

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À pandemia que atormenta o mundo, os farmacêuticos portugueses responderam como melhor sabem: com firmeza, com perseverança, dando o corpo às balas e mostrando que o medo, que naturalmente sentimos, nunca vencerá o nosso dever: servir. 

Servimos na terra mais remota de Portugal onde não chega o SNS e onde fazemos chegar os cuidados de saúde. Servimos nos grandes centros urbanos onde combatemos a solidão e onde o nosso sorriso a espanta. Servimos no medicamento que, com dificuldade, nos desdobramos para arranjar. Servimos no medicamento que manipulamos, porque não há alternativa para o recém-nascido. Servimos no conselho, que sendo tantas e tantas vezes primário, é seguro e alivia o SNS. 

Nos últimos tempos, temos todos assistido à dificuldade de resposta do SNS a diversas questões, agravadas, claro está, pela pandemia vigente. Porém, no país que constantemente faz das tripas coração no que ao desempenho do SNS diz respeito, assistimos, uma vez mais, a notícias que de tão vergonhosas só podem exigir de todos nós a máxima energia para o apuramento de todas as responsabilidades. Aproximando-se uma das épocas mais hercúleas no que à vacinação da gripe diz respeito, omitir auxílio por não-atendimento de chamadas é verdadeiramente intolerável. Isto numa época em que nos pedem confinamento e comedimento na frequência de espaços populosos.

Ao passo que o SNS se fecha para as pessoas, as farmácias continuam sempre, mas sempre, de porta aberta. Estão a esclarecer as pessoas, por chamada ou presencialmente, estão a fazer reservas de vacinas para a gripe e a passar toda a informação e todos os esclarecimentos possíveis para os utentes que as procuram. Como sempre, da mais remota terra de Portugal, até à mais urbana, nunca dizemos não! E este ano não será diferente.

Se é verdade que o SNS não dá resposta aos utentes em tempo útil, por impossibilidade ou por omissão, e se também é verdade que as farmácias estão e estarão sempre abertas e prontas a ajudar todos os utentes, penso chegarmos a um ponto de não retorno em uma questão essencial. Renovação de prescrição crónica e ou prescrição farmacêutica.

Não será difícil imaginar que, pela ausência de resposta do SNS, muitos utentes se deslocarão às farmácias sem uma prescrição médica para a vacina da gripe. O que fará o farmacêutico? Recusará vacinar a pessoa porque a vacina é de receita médica obrigatória, mesmo que o utente esteja enquadrado num grupo de risco ou vacinará, sendo atirado para a ilegalidade e saindo também o utente prejudicado por não ter acesso à comparticipação de 37%?

Podemos também falar de inúmeros utentes com medicação crónica que entopem sem qualquer necessidade o SNS ou que vêem a sua prescrição ser validada via secretaria, entregando o nome dos medicamentos que querem ver renovados e recebendo, passado umas horas ou uns dias, uma SMS mágica com a sua nova prescrição sem terem tido contacto com o médico e ou outro profissional de saúde. Não seria mais eficaz e seguro que esse trabalho fosse feito pelo farmacêutico? Validar a prescrição, verificar possíveis interacções, avaliar parâmetros e até, se os profissionais estivessem todos ligados em rede como deveria acontecer em pleno século XXI, deixar toda essa informação registada através da sua carteira profissional?

Sairiam beneficiados os utentes que continuariam a ter acesso à comparticipação dos seus medicamentos, sem terem de perder horas do seu dia para obter ou pedir uma receita. As farmácias que deixariam de ser atiradas para a ilegalidade. Os médicos que teriam mais tempo e agenda para novos atendimentos, não perdendo de vista o evoluir clínico do seu utente. E o SNS que, através do uso racional do medicamento e do seguimento mais estreito dos doentes crónicos através das farmácias e dos farmacêuticos  que são profissionais consensualmente vistos como tendo um elevadíssimo grau de conhecimento técnico-científico —, pouparia milhares de euros em futuros tratamentos e internamentos.

Pela parte dos farmacêuticos, os portugueses podem estar descansados. Nós nunca vos falharemos. Porque ser farmacêutico é bem mais do que o ser. É uma profissão que não se finda em si mesma, mas que começa em si, servindo cada um de nós e, através de nós, toda a sociedade em que nos inserimos.