Bebé abandonado no lixo “não duraria mais do que 20 a 30 minutos”

O técnico de emergência pré-hospitalar do INEM, Luis Nunes, explicou ao tribunal que o recém-nascido estava em hipotermia, tinha uma hemorragia no cordão umbilical e que tinha dificuldades em respirar porque ainda tinha muco no nariz. A mãe de 24 anos está acusada de homicídio qualificado tentado.

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O técnico de emergência pré-hospitalar do INEM, Luís Nunes, explicou que usou uma luva para fazer de garrote e estancar a hemorragia que o bebé tinha no cordão umbilical. Direitos reservados

O bebé que foi abandonado pela mãe num ecoponto amarelo, em Novembro de 2019, junto à discoteca LUX, em Lisboa “não duraria mais do que 20 a 30 minutos”, disse o técnico de emergência pré-hospitalar do INEM, Luís Nunes, que prestou os primeiros socorros ao recém-nascido no momento em que foi encontrado e que foi ouvido na tarde desta quarta-feira, durante o julgamento.

A mãe de 24 anos está acusada de homicídio qualificado tentado por ter, segundo o Ministério Público, abandonado o bebé num ecoponto, na zona de Santa Apolónia, onde dormia numa tenda com o companheiro, depois de dar à luz no dia 4 de Novembro de 2019.

Durante o depoimento, Luís Nunes explicou em tribunal como foi chamado para aquilo que classificou de uma “situação complicada” e como salvou o bebé que já teria poucos minutos de vida se não fosse socorrido a tempo.

“Ia para uma outra situação de emergência. Estava de mota, mas o meu telemóvel não parava de tocar. Parei para atender e disseram que já não ia para aquela situação, mas que ia para outra, envolvia um bebé, junto à discoteca Lux”, explicou, acrescentando que se dirigiu em alta velocidade para o local e que estava muito trânsito. Já era perto das 18 horas.

O técnico do INEM descreveu então o que viu e emocionou-se várias vezes ao longo do seu depoimento: “Estava tudo muito escuro. Quando cheguei vi uma manta preta e a face de uma criança. A criança não estava estável e eu precisava de luz. Alguém arranjou luz, um projector.”

Luís Nunes explica que destapou o bebé para ver o resto do corpo e percebeu que tinha “o cordão umbilical com hemorragia”.

“Estava em hipotermia. Fiz um garrote no cordão umbilical para parar a hemorragia. Usei uma luva. Comecei a administração de oxigénio. Respirava mal. Ainda tinha muco. Quando tentei fazer reagir o bebé, apertei o nariz e ele começou a reagir”, disse.

Aqui, a mãe que manteve sempre a cabeça baixa durante praticamente toda a sessão de julgamento, chorou.

“Entretanto chegou uma ambulância do INEM e eu ia entrega-lo ao médico e ele disse para ser eu a leva-lo. Entrei na ambulância, estava exausto”, disse, acrescentando que depois foram os colegas da ambulância que fizeram o resto do trabalho.

Luís Nunes contou que mais tarde foi à Maternidade Dona Estefânia saber como estava o bebé.

“As enfermeiras perguntaram porque tinha uma luva no cordão umbilical e eu expliquei que tinha usado o que tinha para estancar a hemorragia”, descreveu, acrescentando que depois lhe disseram que estavam num dilema: “Não sabiam que nome lhe dar e se eu queria ajudar. Disse que se tivesse um filho lhe chamaria Salvador. Acho que foi esse o nome que ficou.”

Sujo, com sangue, com a glicemia baixa e em hipotermia

A segunda sessão do julgamento ficou marcada pelos testemunhos que descreveram como foi encontrado o bebé e como ele estava. As testemunhas todas descreveram um bebé a chorar com frio e sujo de sangue.

Tiago Lopes, técnico de emergência pré-hospitalar do INEM, que chegou numa ambulância à discoteca lux, já depois de Luís Nunes ter prestado o primeiro auxilio ao bebé, explicou como o colega entregou o bebé “embrulhado num casaco grosso de lã”.

“Tivemos de aquecer a célula sanitária [parte de trás da ambulância] e fizemos a avaliação da glicemia. Estava em hipoglicémia e em hipotermia”, explicou, tendo depois sido transportado para o hospital.

Também importante para esta descrição foi o depoimento de Cláudia Fernandes, assistente técnica no Hospital de São José. Foi ela que recebeu o bebé nos braços quando este foi encontrado no ecoponto amarelo por um sem-abrigo.

Esta testemunha conta que tinha acabado de sair do trabalho e que foi até a Estação de Santa Apolónia. “Fui ter com o meu companheiro que trabalha ali perto. E de repente vem um senhor muito aflito com um bebe nos braços a dizer: “‘É um bebé, é um bebé’ e entregou-me”, conta, acrescentando que “estava despido, ainda com um bom pedaço do cordão umbilical e sujo de sangue e outros fluidos”.

Diz que “o bebé chorava”. “Parecia-me com frio. Estava frio e a chover. o meu companheiro tirou a camisola que tinha vestida e embrulhamos o bebé. Depois na discoteca deram-nos uma manta e ficamos à espera de assistência”, conta.

João Paulo Saraiva, o sem-abrigo que encontrou o bebé também prestou depoimento esta quarta-feira. Contou que na noite anterior a ter encontrado o bebé que terá ouvido uma “espécie de grito de aflição”, mas que depois se fez silêncio.

Contou que na manhã seguinte, a 5 de Novembro, depois de tomar a metadona foi, como é costume, passar revista nos caixotes do lixo, junto à discoteca Lux, para ver se encontrava algo que pudesse vender na Feira da Ladra.

Diz que viu um braço de um bebé e que foi aflito chamar o seu amigo Rui. Descreve que foram os dois procurar mas não encontraram nada e que depois resolveram ir à esquadra da PSP em Santa Apolónia, mas que os dois agentes que lá estavam não acreditaram neles. “Disseram que estávamos loucos e que precisávamos de ir ao psiquiatra”, contou, sublinhando que o seu amigo perante o descrédito desistiu mas que ele não.

“Voltei a ir lá e depois ouvi um choro e voltei a chamar o Rui, que depois entrou dentro do caixote comigo a segurar-lhe as pernas e retirou o bebé”, disse, sublinhando que depois acabou por entregar o bebé a uma senhora.

João Paulo Saraiva disse que só soube que o bebé era daquela mulher que vivia numa tenda junto ao sítio onde também dormia quando a Policia Judiciária o foi questionar.

“Vieram ter comigo para saber como é que eu tinha encontrado o bebé e ela disse logo que era dela”, explicou, sublinhando que até ali nunca tinha desconfiado de nada e que a mulher apenas se queixava de cólicas e que dizia que tinha a barriga inchada por isso. A mulher está em prisão preventiva e o bebé está prestes completar os 11 meses de idade.

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