Fotografia

Uma homenagem às “mulheres de bata”, as “invisíveis” matriarcas do patriarcado

A série Tribute to La Bata, da espanhola Lucia Herrero, é uma homenagem às mães, tias e avós que aindam vestem a tão típica bata de trabalho. Mulheres cuja missão sempre foi "cuidar da família", mesmo "em detrimento de si próprias ou dos seus sonhos”.

©Lucia Herrero
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©Lucia Herrero

Em homenagem a um conjunto de mulheres “fortes, resistentes e em vias de extinção” que habitam o Sul da Europa, a fotógrafa espanhola Lucia Herrero criou uma série de imagens que tem como elemento central a bata. Essa mesmo: a tradicional bata de trabalho que as mães, tias e avós ainda usam sobre a roupa que vestem diariamente; aquela que as protege da poeira da azáfama dos dias, a mesma que cairá, dentro de poucos anos, em total desuso e, quiçá, esquecimento.

“Estas mulheres de bata fizeram parte da minha infância”, recorda Lucia em videoconferência, a partir de Barcelona. “Pertencem a uma espécie de última geração. São matriarcas no seio de sociedades fortemente patriarcais. A sua missão sempre foi cuidar da família e raramente tiveram oportunidade de pensar em si próprias ou nos seus sonhos.” Lucia quer dar voz a estas mulheres, que ainda são “pouco e mal representadas em sociedade”, por isso criou Tribute to La Bata, um projecto que representa essa “mulher-símbolo” e que recorda “o quanto ela significa”. 

As imagens que realizou são, nas palavras de Herrero, “um objecto nostálgico que nos força a olhar para o passado, presente e futuro da mulher”. Esta é uma obra feminista, di-lo sem hesitação. “A bata é um ponto de partida, um elemento a partir do qual analiso questões de género e as mudanças sociopolíticas que têm, sobre elas, influência directa. Os tempos estão em permanente mudança e, a partir deste elemento, isso torna-se mais visível.” 

A bata parece ser apenas um traje, um hábito enraizado, mas o seu significado pode ser bem mais profundo. “As mulheres de bata foram invisíveis ao longo de muitas gerações; não participaram na vida política, social, económica, a não ser através dos maridos. Muito raramente eram solteiras. Lésbicas, nunca. Não podiam viajar. São, talvez, no Sul da Europa, as últimas grandes vítimas de um machismo castrador que está em decadência.” Por sorte, as suas filhas já “têm vantagem face às suas mães, já provaram a mudança”. Nestas regiões, as mulheres "vivem um período sem precedentes". “Estamos a aprender a existir dentro destas novas balizas, numa condição de liberdade que nunca existiu”, explica. “Também os homens estão a ser forçados a recalibrar a sua postura, face a estas mudanças. Todos vivemos uma fase de aprendizagem.”

Não é por tratar um tema tão sério que a fotografia de Lucia Herrero deixa de ser colorida, bem-humorada. “Acredito que o humor abre portas à compreensão”, justifica. E é, no mínimo, agridoce observar o pitoresco das imagens de Tribute to La Bata; se, por um lado, são capazes de roubar um sorriso terno a quem as observa, por outro forçam à apreensão de uma realidade dolorosa, a da vida menos luminosa de mulheres reais que permanecem praticamente invisíveis. 

Por se afastar da realidade tal como ela é, mas sem perder de vista a sua essência, Lucia Herrero descreve esta série como “antropologia fantástica”. “Se fosse um projecto de cariz puramente documental, teríamos fotografias destas mulheres nas suas casas ou nos seus afazeres diários”, explica Lucia. Outros trabalhos do seu portfólio seguem esta corrente diferenciadora – projectos que obtiveram, ao longo dos anos, reconhecimento através de prémios e publicações em jornais e revistas como Der Spiegel, GEO, Wired, TIME Magazine e Le Monde e que podem ser vistos, também, no site da autora.

As fotografias que compõem a série que Lucia partilha agora com o P3 integram a sua tese de mestrado em Fotografia de Moda, que está a concluir em Barcelona, cidade onde reside desde 2004. Embora as protagonistas sejam, de facto, “mulheres de bata” na casa dos 70 que Lucia conheceu na minúscula, remota e quase deserta aldeia de Villarmienzo, em Palencia, Castela, as imagens são encenadas e a luz do flash é cuidadosamente posicionada de forma a criar cenários saturados e artificiais – estética que Martin Parr nos ensinou a associar, instintivamente, à ironia e ao humor.

Em pleno cenário de pandemia, a escassez de financiamento para dar seguimento a Tribute to La Bata representa um entrave ao seu desenvolvimento. Lucia gostaria de estender o seu raio de acção a outros países onde o típico traje ainda tem expressão – países como Portugal, Itália, Grécia, Roménia – e, para tal, criou uma campanha que permite que qualquer pessoa contribua. "Estão disponíveis, no meu site, fotografias seriadas a preços acessíveis", refere. Em Portugal, a convite da associação Terra Esplêndidairá expor, ainda sem data definida, todos os trabalhos de “antropologia fantástica” que realizou ao longo dos seus dez anos de carreira.

©Lucia Herrero
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