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Reportagem

Estes silos conservam artistas e estão há dez anos a fixar jovens nas Caldas da Rainha

Começou como um projecto académico, mas hoje o Silos Contentor Criativo é um efervescente hub que já albergou quase 300 artistas. E ajudou a mudar as Caldas da Rainha. “Somos uma plataforma de fixação de capital intelectual criativo”, diz o mentor Nicola Henriques.

Há dez anos que uns antigos silos de cereais das Caldas da Rainha foram transformados num espaço criativo onde jovens artistas – ou aprendizes de artistas – desenvolvem actividades em pequenas áreas e ateliers pelos quais pagam uma renda relativamente baixa. As instalações industriais – que incluíam uma fábrica de moagem e cinco depósitos de 30 metros de altura que armazenavam cereais – foram construídas em 1964 ao lado da linha de caminho-de-ferro e relativamente perto do centro da cidade. Desactivadas nos anos 80, viriam a encontrar um novo uso com a sua ocupação por alunos da Escola Superior de Arte e Design (ESAD) das Caldas da Rainha, que ali dão azo à sua veia artística, quer em simples trabalhos académicos, quer em projectos que procuram interagir com a comunidade e de que são exemplo máximo as produções para o Caldas Late Night

Ao longo de uma década, o Silos Contentor Criativo — como se designa este hub criativo — já albergou mais de 270 artistas (na sua maioria estudantes da ESAD) e foi palco de 300 eventos, entre concertos, seminários, conferências, performances, exposições. O seu impacto na vida cultural da cidade foi de tal maneira reconhecido que a câmara municipal subsidia o pagamento da renda dos silos para tornar mais acessíveis os espaços arrendados pelos criativos.

Mas é melhor começar pelo princípio e apresentar o mentor deste projecto, o caldense Nicola Henriques, de 46 anos, que em 2001 dava aulas de Educação Física em Santarém, mas cujo espírito inquieto buscava outros interesses. “Em 2003, fiz uma pós-graduação em Marketing, mas não me conformava, andava às voltas... Pensava tirar uma segunda licenciatura em Matemática, depois achava que era melhor Direito. Entretanto comecei a pensar em algo relacionado com a estética dos edifícios e lembrei-me que Arquitectura seria uma boa solução, mas teria de ser em Lisboa ou em Coimbra.”

O jovem professor de Educação Física, que entretanto se mudara de Santarém para as Caldas da Rainha, resolve o problema quando vê um dia na Gazeta das Caldas que a ESAD iria abrir a licenciatura de Design de Ambientes. Foi amor à primeira vista. Mergulha assim na efervescente escola de artes, onde é um dos alunos mais velho do curso.

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Nicola Henriques tem 46 anos e é natural das Caldas da Rainha Daniel Rocha

O seu primeiro contacto com os velhos silos de cereais advém de um trabalho académico. Um professor pede à turma que apresente propostas de utilização para aquele espaço. Entre jardins infantis, centros para a terceira idade ou outros usos apresentados pelos estudantes, o grupo de Nicola propõe um projecto para fixar capital intelectual criativo no território. Os silos seriam um vértice de um triângulo que tinha como players a ESAD e a própria cidade.

Já com o curso terminado, a ideia manteve-se e fez o seu caminho. “Em 2010, no mesmo ano em que abriu a Lx Factory, em Lisboa, eu arrisquei perguntar quanto é que custava ocupar dois pisos e calculei que, com 20 alunos a trabalhar aqui, eu pagaria a renda disto. O meu pai emprestou-me o dinheiro para a caução e o primeiro mês de renda. E no dia 1 de Agosto eu estava a entrar aqui com 20 estudantes da ESAD para começarem a trabalhar”, recorda.

Espaços amplos, flexíveis e baratos

Nicola gosta de enfatizar que o seu Silos Contentor Criativo nasceu no mesmo ano da Lx Factory, ambos projectos nascidos de uma onda de aproveitamento artístico de espaços devolutos que viria a ser replicada em mais lugares no país, cujo primeiro passo terá sido dado pelo Laboratório de Actividades Criativas de Lagos (LAC), que funciona numa antiga prisão desde 2000. Outros exemplos são a Oliva Creative Factory, na antiga fábrica da Oliva em São João da Madeira, a Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, o GNRation, no ex-quartel da GNR de Braga, e o VIC – Aveiro Arts House.

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“Todos são posteriores aos Silos”, sublinha o “director de operações” deste projecto, que destaca as características físicas dos armazéns de cereais caldenses. “Os espaços são amplos e têm uma grande flexibilidade e a localização em relação à malha urbana é excelente. Podemos ir a pé para todo o lado”, diz. O local nobre do edifício, porém, é a sala onde convergem os seis silos de 30 metros em forma cilíndrica. A sala tem a forma de seis células circulares, uma arquitectura muito peculiar que se presta a intervenções de natureza muito diversificada.

Sete anos depois, o projecto ocupava cinco dos oito pisos do edifício. Em termos de mercado, dir-se-á que a procura cresceu de forma sustentada. A maioria dos “inquilinos” são alunos da ESAD, mas o responsável do projecto diz que a covid-19 provocou um fenómeno novo: jovens das Caldas da Rainha que estavam a estudar nas Belas-Artes de Lisboa acabaram por se instalar no Silos com os seus ateliers para prosseguirem os trabalhos que ficaram impedidos de desenvolver. “Pagam muito menos por um atelier aqui do que por um quarto em Lisboa”, diz Nicola. Mas há que dizer que nenhum dos cinco elevadores do edifício funciona. Cada andar tem um pé direito razoavelmente elevado. Subir e descer escadas é coisa para gente nova. E em boa forma.

A progressiva ocupação dos velhos silos por jovens artistas começou a dar nas vistas na cidade. E mais ainda quando, em 2013, o artista caldense Daniel Eime desenhou um graffiti de dez metros — a que chamou Lost Queen – a partir de um registo fotográfico de Igor Kliminov e que passaria a ser a imagem identitária do Silos.

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Os eventos sucedem-se e Caldas da Rainha convive bem com eles. O expoente deste “casamento” entre a cidade e as artes é o Caldas Late Night, um evento anual organizado por alunos da ESAD que abrem as portas das suas casas e de inúmeros espaços – muitos deles improváveis – para mostrar exposições, performances e outras manifestações artísticas. Nesses dias, ou melhor, nessas noites, o Silos Contentar Criativo chega a ter 30 actividades em simultâneo.

Nicola Henriques diz que procura sempre um “cruzamento de públicos” nas propostas que os criativos lhes fazem chegar. “Se me falam numa exposição, eu sugiro complementar com um concerto; quando há uma performance, também pode haver um workshop sobre um determinado tema; na realização de uma conferência pode haver um momento de teatro. E um simples concerto pode espoletar um desafio para um concurso de ilustração ou de fotografia.”

Uma “referência internacional” 

Mas tanto sucesso criativo tem correspondência no sucesso comercial do projecto? Não. Bastaram dois anos para perceber que as receitas eram inferiores às despesas, isto é, as rendas pagas pelos jovens criativos não eram suficientes para pagar a renda dos silos. Nicola falou com a câmara e demonstrou que este projecto era de interesse municipal. O município decidiu apoiar e, actualmente, paga 70% da renda do Silos Contentor Criativo.

A autarquia percebeu a importância de ter aqui dezenas de jovens criativos e o impacto positivo que isto tem na cidade. Todos os anos apresentamos um relatório de actividades e um plano para o ano seguinte, que são aprovados pelos órgãos municipais. Isto tornou-se uma marca e uma estrutura imprescindível de apoio aos alunos da ESAD”, explica o responsável do projecto.

A Câmara das Caldas da Rainha não divulgou ao P3 quanto paga pela posse do edifício, limitando-se a referir que “o orçamento para projectos na área da cultura, no ano de 2019, foi de 900 mil euros”. O seu presidente, Tinta Ferreira, diz que “o Silos Contentor Criativo tem contribuído progressivamente para o enriquecimento da cultura dos jovens da cidade, numa alternativa positiva, culta e esclarecida”. E que o mesmo tem contribuído para a fixação dos jovens nas Caldas, que, desde Outubro de 2019, integra a Rede de Cidades Criativas da Unesco. “É um lugar de criação que apoiamos e queremos ver crescer, por já ser, hoje em dia, uma referência internacional por si só e contribuir para o posicionamento da criatividade das Caldas da Rainha no panorama global”, diz o autarca.

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A duração média da estadia de cada criativo que arrenda um espaço nos silos é de nove meses. Um número que sugere incubação, mas que Nicola Henriques se apressa a desdizer: “Não somos uma incubadora de projectos artísticos, somos uma plataforma de fixação de capital intelectual criativo”. De resto, os nove meses (o correspondente a um ano lectivo) é uma média. Há alunos da ESAD que se estabelecem ali durante três anos. “Em média, uma área de 25 metros quadrados custa 150 euros por mês e pode albergar até três alunos”, diz Nicola. “Se fosse em Lisboa era impossível ter estes preços.”

Nos pisos predomina o open space. “Os criativos vivem muito do estímulo visual e o [facto de] poderem ver o que se passa ao lado constitui um incentivo para a troca de ideias e para potenciar a imaginação. Mas, infelizmente, com a covid-19, tivemos de fechar alguns desses espaços abertos, criando ateliers fechados.”

Agora são necessárias estratégias para que os criativos se encontrem sem ser só nos corredores ou no Central Café, o bar com esplanada que está instalado no rés de chão do Silos, ou na rulote do Eusébio, famosa pelos hambúrgueres e que fica no pátio de entrada. “Se olharmos para os escritórios da Google e do Facebook há um elemento que é incontornável naqueles espaços – é uma mesa de matraquilhos!” Nicola Henriques quer pôr mais do que uma no espaço multiúsos que fica na base de um dos depósitos de cereais e que só pontualmente tem servido de bar. O snooker e os jogos de setas serão também obrigatórios.

Actualização: No texto era referido que o LAC era posterior ao Silos Contentor Criativo, o que não é verdade. Pelo erro, as nossas desculpas.

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