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A pintura de autoria de Daniel Eime tem 10 metros de altura.
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Silos: um contentor com 55 anos e sete andares criativos

O projecto Silos - Contentor Criativo instalou-se na antiga fábrica de moagem Ceres, nas Caldas da Rainha, há seis anos. Objectivo: fixar cada vez mais jovens criativos no concelho

Os seus 55 anos e sete andares tornam-no imponente. Numa das fachadas uma pintura de Daniel Eime de dez metros revela o rosto de uma mulher com traços fortes e bem delineados a contrastar com a cor cinza do cimento e com as pichações ao longo da construção. O edifício da antiga moagem de trigo Ceres, localizado nas Caldas da Rainha, mantém na sua estrutura características industriais que em nada se assemelham ao que ocorre lá dentro. A farinha desapareceu e há seis anos o projecto Silos – Contentor Criativo ocupa parte do edifício com seus ateliers “low-cost” utilizados por jovens. Missão: mantê-los por perto.

Durante o curso de Design de Ambientes, na Escola de Arte e Design (ESAD), Nicola Henriques e dois amigos tiveram a ideia de transformar o espaço da antiga fábrica em ateliers para artistas. A proposta apresentava “uma boa oportunidade para resolver problemas que se notavam na não concretização da presença da escola na cidade”, explica ao P3 Nicola.

O trabalho académico foi apenas o despertar do projecto que acabou por consagrar-se em 2010 com o arrendamento, por Nicola, do rés-do-chão e do primeiro piso do edifício. Morador das Caldas da Rainha desde os dois anos de idade, o designer, hoje com 43, acompanhou o historial cultural e os avanços da cidade e, com isso, percebeu a necessidade de fixar jovens que querem ajudar a preservar esta identidade.

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O projecto ocupa cerca de cinco mil metros quadrados e sete pisos.

O desafio começou logo ao chegar ao edifício. Depois de passar cerca de sete anos abandonado, restos de farinha, ratos e muito lixo estavam acumulados. Nicola recebeu a ajuda dos alunos da ESAD e juntos fizeram a limpeza, pinturas, pequenas reparações e instalações.

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Edifício tem 12 intervenções artísticas no interior e exterior.

Em 2014, o espaço Silos já tinha novas demandas, pois “alunos que terminaram a formação estavam a fixar-se na cidade e a produzir para o mercado local, nacional e internacional”. Dessa forma, foi possível subir mais um andar. Actualmente, o contentor criativo ocupa quatro pisos (rés-do-chão, primeiro, segundo e sétimo). Os outros andares da antiga moagem estão ocupados por projectos independentes, mas também ligados à área criativa.

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14 ateliers open space e 5 estúdios para criativos funcionam no Silos.

Os espaços do rés-do-chão são voltados para a comunidade, com galerias e sala para concertos abertos ao público. No primeiro piso estão os ateliers em espaço aberto. “Digamos que é a porta de entrada dos alunos”, sublinha Nicola. É onde os preços são mais acessíveis e atendem as necessidades dos estudantes. No segundo estão os estúdios fechados com microempresas e no sétimo há um novo projecto chamado Roof, “que tende vir a ser um clube de criativos” — onde entre os dias 1 e 15 de Dezembro irá ocorrer a primeira residência artística internacional do contentor.

Nos primeiros três anos do Silos o valor cobrado dos alunos era suficiente para manter as condições de trabalho e pagar as despesas, sem qualquer ajuda. Com a chegada da crise, relata Nicola, “os estudantes deixaram de poder pagar as mensalidades e foi preciso pensar em alternativas”. Foi assim que em 2013 o Município das Caldas passou a contribuir com 70% do valor da renda e, desta forma, tornou viável “baixar o preço da ocupação para os alunos e a reinvestir num espaço para proporcionar melhores condições aos ocupantes, sejam eles alunos ou microempresas em início de actividades”.

Além disso, com a contribuição, o contentor criativo promove workshops, sessões de conversas abertas, convites à comunidade, o contacto dos alunos com artesãos do município para desenvolverem produtos e visitas guiadas a unidades industriais do concelho. “Tudo que está directamente ou indirectamente ligado ao melhor aproveitamento dos ocupantes no mercado de trabalho”.

Posterior ao apoio da Câmara, a Associação Destino Caldas passou a ser a entidade a gerir o projecto. Esta actualização ampliou a missão inicial do Silos de “criar uma ponte entre cidade, escola, criativos e áreas de negócio” para preocupar-se com a “fixação de capital intelectual criativo nas Caldas da Rainha, na zona Oeste, e promovê-lo no país a nível global”, esclarece Nicola. “A zona Oeste está a crescer e é uma excelente alternativa para aquilo que se faz em Lisboa. Aqui temos muita qualidade de vida”.

A presença do Silos no concelho não é mais um facto despercebido e várias intervenções já partem dos jovens que habitam o espaço, num trabalho directo com as entidades locais. A identidade gráfica (comunicação, logotipo e estrutura) da Junta de Freguesia da Nossa Senhora do Pópulo, um exemplo deste envolvimento, foi produzida pela equipa que estava no contentor. “É isso de facto que se pretende, dar qualidade para começar a reviver a cidade numa outra perspectiva”.

Para integrar os espaços do Silos é realizada uma entrevista onde o interessado apresenta um projecto “que expresse um valor acrescentado não só para o aluno mas para a cidade”. Em alguns casos, quando não existe uma ideia concreta são concedidos “períodos de cerca de um ou dois meses gratuitos para o aluno testar a experiência", sendo acompanhado durante a criação. Os valores para alunos são de 40 euros mensais e para microempresas variam de 80 a 200 euros consoante os metros quadrados ocupados.

Os criativos que ocupam o Silos

João Varela, aluno do terceiro ano do curso de Design Gráfico na ESAD, utiliza o espaço desde o primeiro ano da faculdade. Envolvido com um projecto de tipografias, já organizou exposições no espaço e agora ocupa um pequeno estúdio no primeiro piso. “Na zona de ateliers abertos temos quase um ambiente de comunidade e podemos pedir opiniões aos colegas. Temos sempre um ambiente de partilha que não existiria caso estivéssemos todos fechados num estúdio separado”.

João saiu de Lisboa para estudar nas Caldas e acredita que o Silos é "um núcleo", que cria "um pequeno movimento de produção que não existe nomeadamente na capital”.

O designer Paulo Sellmayer foi residente do contentor criativo durante os 18 meses da sua formação académica e descreve a sua experiência como “libertadora e muito criativa”. Alemão, cresceu em Leiria e optou por estudar nas Caldas da Rainha. Enquanto esteve no espaço criou uma marca portuguesa de produtos de casa e iluminação – Vícara, na qual desempenha actualmente as funções de CEO e Director Criativo.

O Silos – Contentor Criativo acaba por interagir com os andares do edifício ocupados por outros projectos. Este é o caso da socióloga Carla Branco, fundadora da incubadora Partnia, que instalou sua empresa na antiga moagem há seis meses. “É um edifício que é o protagonista do projecto. Eles circulam escada abaixo escada a cima; as pessoas encontram-se. É diferente de ter um escritório completamente à parte do ecossistema criativo. Aqui há interligação directa e indirecta entre os espaços e faz com que as coisas tenham uma dinâmica diferente”. E acrescenta, “o Silos fomenta óptimas relações, estabelece parcerias, reúne as pessoas e desenvolve actividades criativas entre todos que estão dentro do edifício”.