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Um incêndio na freguesia de Agrela, em Santo Tirso, destruiu o canil “Cantinho das Quatro Patas” e matou 54 animais (52 cães e dois gatos). Paulo Pimenta

No meio de um “cenário desesperante”, houve reencontros e adopções. Como ajudar agora os animais de Santo Tirso?

Os animais resgatados nos canis ilegais em Santo Tirso têm necessidades específicas, pelo que as associações pedem a quem quiser fazer uma doação que esteja atento aos pedidos divulgados nas redes sociais oficiais. Esta segunda-feira ainda há voluntários a resgatar cães que fugiram ou se esconderam.

Joana Ribeiro esteve entre o primeiro grupo que entrou num dos canis ilegais em Santo Tirso, onde as chamas não chegaram, mas o cenário não deixou de chocar. “Não sabíamos onde era, mas fomos pelo monte atrás dos latidos dos animais. Quando chegámos a porta do abrigo estava aberta e estava lá a proprietária, que disse que ia chamar a polícia se entrássemos. Aí foi muito triste. Começámos a ver imensos cães e a ficar aflitos, porque éramos poucos. O resgate não foi fácil. Houve imensas pessoas mordidas. Os animais não tinham quase abrigo nem água e estavam presos com trelas com muito menos do que um metro e meio. Existia um corredor de jaulas e algumas tinham dez animais”, relata.

No meio do monte na freguesia de Agrela estava uma caravana e, fechada lá dentro, uma cadela bebé, com menos de dois quilogramas. “Peguei logo nela e não consegui mais largá-la”, conta a moradora de Santo Tirso.

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Koby já em casa DR

A história de Koby não é a única a envolver cidadãos “revoltados e preocupados” que se dirigiram à serra e acolheram 77 dos 190 animais sobreviventes, segundo contas da autarquia de Santo Tirso. Ao mesmo tempo que a câmara avança que 113 animais foram realojados em canis municipais e associações, há associações que dizem ao P3 não terem ainda conseguido contabilizar quantos animais recolheram. 

No meio de um “cenário desesperante”, Inês Alexandre parou para testemunhar outra destas histórias. “Quando estávamos a subir o monte, vimos um senhor a descer com um cão. O cão estava extremamente feliz, mas o senhor estava extremamente exausto.” Prestar apoio a quem se deslocou à serra na Agrela, no distrito do Porto, durante o fim-de-semana, foi uma das razões que levou a empreendedora social a “sair do sofá” em Valongo, onde o fogo começou. “Perguntámos-lhe se precisava de alguma coisa, porque estava muito emocionado. Ele disse que estava tudo bem, que só queria levar o cão dele para casa, desaparecido há dois anos.”

A associação Animais de Rua esteve a ajudar a coordenar o encaminhamento dos animais após a triagem no terreno. “É impossível saber onde estão os animais todos”, diz Cláudia Neves, coordenadora do núcleo do Porto. “Aquilo era incontrolável a esse nível. Qualquer pessoa que quis levar um animal levou. Não estava nenhuma autoridade competente a controlar.”

54 animais morreram por culpa do incêndio, segundo números oficiais da autarquia que têm sido contestados por cidadãos e associações no local. “Eu não me acredito mesmo nesses números. Acredito que sejam muitos mais. Vi inúmeros cadáveres carbonizados. Foi dantesco”, corrobora Cláudia, que destaca o “espírito de cooperação entre associações, já no seu limite”. 

“A Animais de Rua quis juntar-se a esta situação porque mandámos uma voluntária para o local no sábado, que nos informou que havia uma total falta de colaboração das entidades, quer do médico veterinário municipal, quer da GNR, e que não havia hipótese de entrar no abrigo para ajudar a socorrer animais. Só conseguimos começar a ajudar no início da tarde de domingo, creio que pela pressão dos meios de comunicação sociais”, conta. 

Voluntários, habitantes e associações deram boleias em viaturas pessoais aos animais, até clínicas veterinárias e instalações de associações. “Obviamente que estas responsabilidades deveriam ser das câmaras municipais e dos médicos veterinários municipais que, em primeiro lugar, deveriam fiscalizar e acabar com estes abrigos ilegais, que são campos de concentração para animais, onde eles não têm o mínimo de condições.”

Associações ainda sem noção do que vão precisar

Os cães encontrados por causa do fogo já precisavam de ajuda antes de as chamas invadirem o “espaço sujo, com lixo, dejectos e mau cheiro”, como descreveu o Ministério Público em 2018, antes de arquivar o processo por não considerar haver crueldade no Cantinho das Quatro Patas e no Abrigo de Paredes. 

Dois anos depois, “todos os cães estavam a precisar urgentemente de cuidados veterinários”, relata Cláudia Neves. “Estavam extremamente magros, todos sujos, com dezenas de carraças, não estavam esterilizados, tinham doenças de pele, sardas agravadas, a precisarem urgentemente de médicos veterinários. Tudo isto já era antes do fogo, porque o que o fogo apanhou, matou.” 

A Animais de Rua está a preparar uma lista com as associações que se prestaram a recolher animais, com Cláudia Neves a dizer que devem estar distribuídos por cerca de 12 associações. Quatro dos cães que passaram pelo Centro de Recolha Oficial de Matosinhos, parceiro da associação, foram “imediatamente adoptados”, conta. 

A MIDAS também está a receber “mais de 30 animais”, entre os que estão internados, em famílias de acolhimento temporários ou no abrigo da organização sem fins lucrativos. Dizer o que precisam ainda “é difícil”, lamenta Lígia Pereira, ainda a braços com o levantamento de necessidades como “desparasitantes internos e externos, antibióticos e outros medicamentos”. "Temos animais com pouca probabilidade de sobrevivência porque estão muito magros”, diz. “Comida, por agora, não precisamos. Na verdade, o que nos dá mais jeito são donativos em dinheiro”, diz, ao P3. 

A Patinhas Sem Lar, em Espinho, responsabilizou-se por quatro cães. Ainda estão “todos internados, a recuperar” e a clínica de Matosinhos disse que não iria cobrar o internamento. Quando saírem, vão precisar de “ração de qualidade, porque estão desnutridos” e depois vão ser esterilizados e vacinados. 

A Câmara Municipal de Santo Tirso já disse que vai disponibilizar “a todas as associações e aos particulares que acolheram os animais daqueles abrigos a vacinação e esterilização dos animais”, lê-se no comunicado da autarquia. O IRA, uma associação de intervenção e resgate animal, disse que iria “assumir” as “despesas com tratamentos médico-veterinários para os 190 animais resgatados (queimaduras, inalação de fumos, etc)”, bem como fornecer uma tonelada de ração para cão, já esta terça-feira, 21 de Julho, e 200 quilogramas para gato junto da Igreja de São Pedro da Agrela.

A solidariedade com estes animais leva Ana Paula Castro, da Patinhas Sem Lar, a lembrar que, embora não seja precisa a “ajuda extraordinária”, “todas as associações estão com as dificuldades habituais para cuidar dos muitos animais recolhidos em condições também péssimas”. 

Um grupo de activistas pelos direitos dos animais convocou, nas redes sociais, uma vigília em frente à Câmara Municipal de Santo Tirso para esta segunda-feira, 20 de Julho, pelas 21h30. Também online, uma petição a pedir “justiça pela falta de prestação de auxílio aos animais do canil Cantinho das Quatro Patas em Santo Tirso” reuniu mais de 145 mil assinaturas.

No local onde no fim-de-semana se reuniram dezenas de pessoas, ainda estão voluntários a recolher animais deixados para trás, ou porque fugiram, ou porque se esconderam. O município adianta ainda que durante esta segunda-feira, 20 de Julho, “será feita uma vigilância em toda a área envolvente dos dois abrigos de animais, no sentido de encontrar outros animais que não tenham sido realojados”.

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