O mapa da pandemia = o mapa da pobreza

Os mais pobres estão mais expostos ao vírus, não apenas pelas múltiplas determinantes da sua condição, mas porque as próprias medidas de contenção da pandemia perpetuam as suas vulnerabilidades. São invisíveis no plano comunicacional.

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DIOGO VENTURA

A crise provocada pela covid-19 depressa demonstrou que os efeitos serão profundos e duradouros. Colocou em evidência as fragilidades que caracterizam as sociedades contemporâneas, a debilidade dos sistemas de saúde e a fraca capacidade de resposta e de protecção social aos públicos mais afectados, antecipando o agravamento dos níveis de pobreza em todos os países, bem como das assimetrias sociais pré-existentes. Se, num momento inicial, repetimos incessantemente que todos estamos no mesmo barco, é hoje claro que, afinal, o vírus faz distinções de classe.

Os estudos e notícias que chegam de quase todos os pontos do globo evidenciam que as taxas de disseminação são mais elevadas em contextos socioeconómicos desfavorecidos e que as consequências mais gravosas se registam em grupos minoritários e/ou socialmente estigmatizados. Mulheres, idosos, pessoas com deficiência ou doença mental, populações indígenas, refugiados, migrantes, sem-abrigo e minorias étnicas estão entre os grupos que experienciam maior marginalização social e económica. Estão mais dependentes da economia informal, ocupam territórios desprotegidos, têm acesso inadequado ou insuficiente a serviços sociais e de saúde, acesso limitado ou inexistente à tecnologia e capacidades e capacidades limitadas para lidar com as consequências da crise.

Mas as diferenças entre países são abissais e denunciam a insuficiência (em alguns casos, a imprudência) das medidas de contenção globalmente recomendadas. A solução universal do teletrabalho apenas foi possível para determinados sectores, sendo claro que a propagação do vírus acompanha o mapa das desigualdades. Aqueles com menos recursos têm de continuar a trabalhar, utilizar transportes colectivos e contactar com outros em locais de trabalho onde o distanciamento físico é impraticável. Por outro lado, têm maior probabilidade de possuir vínculos laborais precários e são mais vulneráveis ao desemprego.

O Banco Mundial estima que entre 40 e 60 milhões de pessoas possam regressar à pobreza extrema. O fecho das escolas não apenas privou crianças do acesso à educação, mas de programas de alimentação cruciais para milhares de famílias. Quanto maior o nível de pobreza, maior a probabilidade de residir em aglomerados populacionais sobrecarregados ou casas onde coabitam diversas gerações, muitas vezes sem redes de abastecimento de água ou esgotos, diminuindo a possibilidade de aplicar medidas de higiene e aumentando o risco de contágio. Problemas de saúde como a asma, diabetes e doenças cardíacas, considerados factores de risco para a covid-19, têm também maior prevalência nestas populações.

Os mais pobres estão mais expostos ao vírus, não apenas pelas múltiplas determinantes da sua condição, mas porque as próprias medidas de contenção da pandemia perpetuam as suas vulnerabilidades. São invisíveis no plano comunicacional e imponderados nas prioridades de acção, nomeadamente no que concerne aos apoios sociais, ao reforço dos transportes colectivos e à implementação de medidas de saúde pública a eles dirigidas. Assiste-se ainda a um discurso que apenas reforça a estigmatização, denunciando-os como promotores de comportamentos irresponsáveis. Outras clivagens foram igualmente agravadas. Apesar do número de homens infectados ser superior, as mulheres representam quase 60% da economia informal, recebem piores salários e estão mais expostas ao risco de desemprego e pobreza. Representarem três quartos dos profissionais de saúde e dos profissionais de apoio social, mas são em maior número na população sénior, mais propensas a viver sozinhas e menos propensas a ter acesso à tecnologia.

A pandemia trouxe ainda um aumento significativo das situações de violência contra mulheres e um aumento considerável de trabalho não pago decorrente da assistência aos filhos e das tarefas domésticas em confinamento. Neste cenário, a contenção da covid-19 é apenas mais um desafio que concorre com a necessidade de resolução, cada vez mais urgente, das clivagens sociais que impulsionaram a própria crise e agora a mantêm. A investigação psicológica sobre as determinantes e impactos da pobreza evidencia que a pobreza é um dos principais motores das desigualdades que tornam os indivíduos vulneráveis ao desenvolvimento de problemas de saúde psicológica e demais consequências da crise pandémica.

A pandemia evidenciou que a saúde não é redutível a um conceito biomédico, pelo que é essencial que reconheçamos os determinantes sociais da saúde física e psicológica. Nesse sentido, a crise provocada pela covid-19 pode ser uma oportunidade para reconhecer a multidimensionalidade do fenómeno da pobreza, reconhecendo a absoluta contradição entre as nossas extraordinárias capacidades de desenvolvimento e soluções de saúde e a aparente impossibilidade de as disponibilizar à maioria. É, por isso, necessário desenvolver políticas que permitam redefinir a forma como lidamos com a desigualdade e a pobreza, dando lugar a respostas que, mobilizando contributos de diversas especialidades – nomeadamente, da Psicologia –permitam responder aos efeitos da pandemia a longo prazo, revertendo o subinvestimento em saúde e protecção social, prevenindo a catástrofe climática e protegendo direitos que são de todos.