Portugueses estão preocupados com a crise e rejeitam regresso ao “velho normal”

Estudo sobre o impacto social da pandemia, com base em 752 inquéritos, desvenda receio de que esta crise sanitária não seja aproveitada para corrigir o que nos trouxe até aqui: desigualdades, atropelos ambientais e predomínio dos interesses económicos.

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Daniel Rocha

E se a pandemia fosse mesmo transformada numa oportunidade para mudar a forma como nos organizamos socialmente? Esse parece ser o desejo de muitos portugueses, a julgar pelas preocupações evidenciadas no estudo “O Impacto Social da Pandemia”, feito pelo Instituto de Ciências Sociais e pelo ISCTE- Instituto Universitário de Lisboa, a partir dos inquéritos feitos a 752 portugueses (numa amostra não representativa da população), entre os dias 25 e 29 de Março, numa primeira fase, e novamente entre os dias 24 de Abril e 4 de Maio.

Além de preocupados com a crise social e económica que está à espreita, mais até do que com a situação de saúde pública provocada pela pandemia, os inquiridos denotam ainda uma apreensão generalizada face ao risco de agravamento das desigualdades sociais, mercê da degradação do mercado laboral, do aumento do desemprego e da desprotecção social. Mas o receio de que o país perca esta oportunidade única para repensar o modo como nos organizamos socialmente parece igualmente ameaçar o sono a uma parte substancial dos inquiridos. Na resposta a uma pergunta aberta sobre as principais preocupações, muitos partilharam o medo de, ultrapassada a crise sanitária, “voltar tudo ao normal”, isto é, “ao mesmo normal que nos fez chegar aqui: uma sociedade especista, centrada numa economia neoliberal promotora de desigualdades brutais, onde a solidariedade e a empatia não têm lugar ou são residuais”, como se lê numa das respostas.

“Será que queremos continuar a viver numa sociedade alienada, onde o trabalho é cada vez menos valorizado, o ambiente vai sendo destruído, e os valores éticos, como a justiça social, são considerados luxos utópicos?”, questiona outro inquirido. O perigo de novas formas de estigmatização (dos idosos, por exemplo, mas também dos “contagiados”) é igualmente apontado por muitos inquiridos, a par da preocupação quanto ao que aos efeitos do confinamento nas crianças, nomeadamente nas que não voltarão à escola neste ano lectivo. E aqui o fantasma é que, numa idade em que “ainda estão a desenvolver o pensamento e as relações sociais”, as crianças “cresçam acreditando que a sua realidade é o distanciamento social e que isso se reflicta numa sociedade mais individualista no longo prazo”.

A fragilização das democracias e o reforço das derivas populistas são outras das preocupações recorrentes, a par do risco de desintegração do projecto europeu. No dia-a-dia de todos, estas ameaças poderão ter tradução prática num “excessivo controlo da vida dos cidadãos por parte das autoridades”, com a consequente perda do direito à privacidade. “Não deveríamos tomar a democracia por garantida tão levianamente”, avisa um dos inquiridos, entre outras respostas que apontam a ausência de líderes políticos capazes. Entre os mais novos, sobressai ainda a preocupação de deixar de ser possível emigrar para fugir a uma qualquer crise.

A nível familiar, as preocupações dos portugueses assentavam na incerteza que se vivia à data dos inquéritos quanto ao retomar dos contactos físicos, nomeadamente com os familiares que vivem no estrangeiro. Entre os que ficaram confinados entre quatro paredes, houve quem antecipasse um aumento do número de divórcios e a degradação das relações familiares.

De resto, o mesmo estudo mostrou que um em cada cinco inquiridos reportou que vivenciou mais momentos de tensão familiar durante o confinamento. “Quanto menos instruídos, maior a probabilidade de responderem que vivenciaram mais tensões na família”, concluíram os autores do estudo, coordenado por Pedro Magalhães, Rui Costa Lopes e Pedro Adão e Silva, quando se puseram a analisar as características dos inquiridos. Sem surpresas, o aumento das tensões familiares foi mais frequente nos agregados monoparentais e nas famílias alargadas.