Tolentino de Mendonça: “Precisamos de uma visão mais inclusiva de todas as gerações”

Cerimónia simbólica do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas realizou-se no Mosteiro dos Jerónimos com seis convidados e dois oradores.

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Rui Gaudêncio
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Maior compaixão, fraternidade, inclusão e justiça social - é do que Portugal precisa para continuar a sua caminhada como país, defendeu o cardeal e poeta madeirense José Tolentino de Mendonça, escolhido por Marcelo Rebelo de Sousa para presidir às comemorações neste Dia de Portugal. No seu discurso de 22 minutos perante o Presidente e seis convidados, numa cerimónia minimalista, Tolentino de Mendonça falou das “raízes” de Portugal como comunidade para defender que são elas que o robustecem como país. E nelas se incluem todas as gerações, mas o cardeal centrou a sua preocupação nos mais jovens e especialmente nos mais velhos e mais pobres, reservando também uma palavra para aqueles que Portugal recebe.

“O pior que nos poderia acontecer seria arrumarmos a sociedade em faixas etárias, resignando-nos a uma visão desagregada e desigual, como se não fossemos a todo o momento uma coisa coesa, inseparável. Precisamos, por isso, de uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações. É um erro pensar uma geração como dispensável ou como um peso, pois não podemos viver uns sem os outros. É essa a lição das raízes”, afirmou o teólogo. 

“A tempestade provocada pela covid-19 obriga-nos, como comunidade a reflectir sobre a situação dos idosos em Portugal e na Europa. Eles têm sido as principais vítimas da pandemia e não só porque o seu quadro clínico os coloca como população em risco. Também socialmente os idosos estão transformados em população de risco que não queremos ver: estão mais sós, mais pobres, remetidos muitas vezes para precários contextos de institucionalização, vendo a sua função humana e social e esquecidas, quando não desvalorizadas.” E vincou: “A vida é um valor sem variações” - e por isso, mesmo uma vida mais curta não tem menos valor intrínseco que uma vida mais longa.

“Uma raiz do futuro de Portugal passa por aprofundar a contribuição dos mais velhos, levando-os assumir-se como moderadores de vida para os mais novos”, afirmou, lembrando a avó materna, que era analfabeta e contava histórias e canções que eram, afinal, do romanceiro oral da tradição portuguesa, funcionando como um elo com o passado e afirmando-se como uma raiz que projecta a tradição para o futuro.

Nesta necessidade de robustecer a aliança intergeracional é preciso também olhar para a outra das gerações mais vulneráveis, nas palavras do cardeal: os jovens adultos abaixo dos 35 anos que enfrentam, numa década, a segunda crise económica grave.

Tolentino de Mendonça apelou ao sentido de comunidade do país - e esse é constituído pelos que vivem no continente, mas também nas ilhas e na rede da diáspora, e que todos os dias o “constroem, suscitam e sonham”. “Cuidando das múltiplas partes, estamos juntos a edificar o todo. Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a arquitectar-se por ele.” Nesta tarefa de reforçar o sentido comunitário do país, o teólogo junta outra peça: a integração dos imigrantes. E elogia o sinal humanitário importante” da legalização automática de quem estava irregular. “Sem compaixão e sentido de fraternidade não há comunidade presente ou futura digna desse nome e fortalecem-se os muros alienando a possibilidade de gerar raízes.” Somou depois também a necessidade de um novo pacto ambiental.

Camões desconfinou Portugal no séc. XVI através da poesia

Entre as várias citações de escritores e poetas que foi fazendo ao longo da sua intervenção, o cardeal dedicou mais tempo a Camões que, disse, não deixou apenas os seus textos mas também o “mais extraordinário mapa mental do seu tempo” e iniciou os portugueses na “arte da navegação interior” que é a poesia - uma “cosmografia da alma”.

“Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser para a nossa época um preclaro mestre da arte do desconfinamento”, disse Tolentino de Mendonça. Porque “desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço; é poder, sim, habitá-lo plenamente, modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, é sentir-se protagonista e participante de um projecto mais amplo (...) Desconfinar é não se conformar com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do tempo.”

O poeta de hoje citou o poeta de há 500 anos na descrição da tempestade enfrentada pelos marinheiros no canto VI d'Os Lusíadas para falar sobre as árvores arrancadas pelo vento e usar essa imagem para salientar que as raízes, que julgamos inabaláveis, são afinal também frágeis e sofrem os efeitos da turbulência do mundo. E recordar as “vulnerabilidades com as quais temos sempre que fazer contas”. Porque, lembrou, não há viagens sem tempestades nem demandas que não enfrentem a complexificação, e não há itinerário histórico sem crises. Vincou depois que “não há superpaíses, como não há super-homens. Somos todos chamados a tratar das forças e das feridas.” Ironicamente, nos seus discursos do 10 de Junho, Marcelo Rebelo de Sousa tem insistido na ideia contrária, fazendo sempre a exaltação de Portugal e dos portugueses, vincando que são os “melhores”.

“Portugal é e será uma viagem que fazemos juntos. E uma grande viagem é como um grande amor”, rematou.

Sem desfile nem parada

O discurso de Tolentino de Mendonça começou depois de se ouvir no claustro a declamação do soneto O teu olhar, de Florbela Espanca (de A Mensageira das Violetas), que Marcelo, Ferro Rodrigues e António Costa escutaram sentados na primeira fila, e o cardeal e os quatro presidentes dos tribunais superiores na fila de trás - todos sentados em cadeiras douradas e verdes primorosamente alinhadas. A escolha do poema foi do Presidente da República.

Antes de chegar ao claustro para os discursos, Marcelo Rebelo de Sousa fez a homenagem a Luís de Camões e aos que perderam a vida em defesa da Pátria com a deposição simbólica de uma coroa de flores no túmulo do poeta, na Igreja de Santa Maria, dentro do mosteiro.

O Presidente fora o último a chegar aos Jerónimos, pelas 10h58, como estava previsto. À porta já o esperavam o presidente da Assembleia da República, o primeiro-ministro e os presidentes dos quatro tribunais superiores – o Tribunal Constitucional, o Supremo Tribunal de Justiça, o Tribunal de Contas e o Supremo Tribunal Administrativo.

Ao mesmo tempo que três elementos de cada um dos ramos das Forças Armadas içavam a bandeira sob o olhar dos convidados e a guarda de honra por três elementos de cada ramo, a banda da Força Aérea tocou o hino nacional, fragata Álvares Cabral disparava 21 salvas e uma esquadrilha de F16 sobrevoava Belém.