Covid-19

Se o novo coronavírus falasse, diria “sou um cidadão do mundo”: a obra solidária de Pedro Pires

Pedro Pires criou um projecto que coloca o novo coronavírus como o autor de mensagens irónicas e humanas. As vendas da série Virus Letters revertem a favor dos Médicos Sem Fronteiras. 

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E se o novo coronavírus falasse? E se o novo coronavírus fosse afinal uma entidade que usa frases irónicas com um tom divertido? Esta hipótese existe e é trazida pelo artista Pedro Pires no seu projecto mais recente: Virus Letters

Tudo começou no início da quarentena, quando Pedro leu um texto que o deixou curioso, como conta ao P3. "Li um artigo do PÚBLICO que se chamava 'O coronavírus não está vivo. É por isso que é tão difícil de encontrar', que fala sobre o vírus como uma entidade. Diziam que o vírus não nos quer matar, quer é estar vivo e quer que as pessoas andem com ele saudáveis. Achei muito interessante."

Começou por pensar numa frase: at least, I'm not racist ("pelo menos, não sou racista", em tradução livre). "A ideia era olhar para o vírus comparando-o ao nosso mundo e às coisas más que nele existem." As cartas, escritas em tons vivos e assinadas por "covid-19", a doença que o vírus SARS-CoV-2 provoca, trazem um tom irónico que confere um "duplo sentido" à obra: "As frases são boas e felizes, mas depois vê-se que são assinadas pelo vírus. Existe um duplo sentido e algum sarcasmo, mas a ideia era também levar isto com um lado mais positivo e transmitir que é apenas mais um problema no nosso mundo e que vamos continuar a adaptar-nos e a reagir."

De forma a "integrar o apoio na resistência ao vírus" e ajudar a causa, Pedro Pires decidiu que não iria ganhar dinheiro com a venda das cartas e antes reverter o valor angariado para os Médicos Sem Fronteiras — 5000 euros no total. Cada trabalho custa 25 euros. As encomendas podem ser feitas por e-mail ou através do Instagram. Até agora, Pedro já enviou obras por correio para toda a Europa e ainda para os Estados Unidos da América e a América do Sul.

Este trabalho surgiu numa fase de bloqueio para o artista, que se via com dificuldades em trabalhar: "Eu olhava para as coisas que estava a desenvolver e pensava que elas eram todas menos importantes do que o que estava a acontecer no mundo." As Virus Letters permitiram trazer de novo a tranquilidade ao atelier. "Foi superinteressante também o modo como isto desbloqueou alguma coisa em mim para continuar a trabalhar." Pedro também acredita que a pandemia tem trazido efeitos positivos na valorização das coisas simples, "que são tomadas como garantidas e normais", e que o vírus veio provar que "toda a arte é um reflexo da sociedade".

Texto editado por Amanda Ribeiro

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