Torne-se perito Reportagem

“Isto vai agarrar mais as pessoas a Fátima”

Perante um recinto “vazio, mas não deserto”, a procissão das velas fez-se em versão minimalista, no meio de um vazio quase palpável. Fátima parecia esta terça-feira uma versão fantasmagórica de si mesma.

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Santuário de Fátima Daniel Rocha
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Santuário de Fátima Daniel Rocha

Numa noite escurecida “pela pandemia global”, o bispo de Leiria-Fátima, António Marto, invocou esta terça-feira “os autênticos mares de luz” que, nos anos anteriores, iluminaram o Santuário de Fátima, antes de se dirigir aos peregrinos que, por todo o mundo, viram travado pelo coronavírus o ímpeto de se deslocarem a Fátima. “Permaneçamos unidos. Façamos sentir a nossa proximidade às pessoas mais provadas e necessitadas”, exortou, num recinto parcamente iluminado por 21 velas que representam as dioceses portuguesas.

Num recinto “vazio, mas não deserto”, a cerimónia arrancou sobressaltada por um homem e uma mulher que, saltando a vedação, invadiram o recinto, aos gritos de “Deus ajuda-nos. Olha por nós”. Ele levava nas mãos um quadro com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, ela uma cruz, tendo ficado ambos “à guarda da GNR”. Incidente ultrapassado, a procissão das velas arrancou por volta das 22h20, em versão “minimalista”, no meio de um vazio capaz de ferir os mais empedernidos. Alcatrão, em vez de gente. Na sua “celebração da palavra”, o cardeal António Marto dirigiu-se aos “defuntos e seus familiares”, aos doentes, idosos e pobres. E, agradecendo aos diversos profissionais, de saúde e limpeza incluídos, o facto de não se terem “poupado a sacrifícios” no combate à pandemia”, invocou quem “vive uma noite escura da fé, perante o silêncio e ausência de Deus”.

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Daniel Rocha
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Ao longo do dia, a cidade que se aninha em torno do santuário parecia uma versão fantasmagórica de si mesma. Hotéis sem sinal de vida, ruas vazias e lojas fechadas porta sim, porta sim, numa paralisação cuja estranheza se acentua pelos nomes que vão passando pelos olhos de quem percorre estes caminhos: “Retiro do Anjo”, “Luz da Azinheira”, lê-se em toldos e placards luminosos que, sem gente, também dispensam iluminação, apesar do céu de chumbo. São ruas inteiras dedicadas ao comércio da fé, agora sem ninguém que regateie o preço da estatuária, dos terços, das velas, das bases e dos guardanapos de cozinha, com o nome de Fátima bordado em versão arco-íris. Numa dessas ruas, a poucas passadas do recinto, Clara Cristina, que detém um hotel, um restaurante e, ao lado, a sua loja de souvenirs religiosos, arriscou de tarde abrir as portas, pela primeira vez desde meados de Março. “Não sei o que me parecia ter um 12 e 13 de Maio com as portas fechadas”, explica.

A verdade é que são quase cinco da tarde e nem um terço vendeu. “Já estava a fazer as entrevistas para contratar pessoal para a época alta quando o país se fechou todo. Costumava sempre contratar cinco ou seis funcionários, mas este ano… Não sei quantos de nós vamos ver morrer o nosso negócio”, lamenta, preparando-se para voltar a fechar as portas da loja. O optimismo com que iniciou o dia já se lhe esvaiu todo. “Compreendo a decisão do santuário, mas a quem como eu nasceu e cresceu aqui dá uma tristeza…”

Seguindo pela rua adiante, um homem ajoelha-se junto às grades metálicas que circundam o recinto do santuário. Sem olhar para lado nenhum, tira do bolso um lenço de pano fino, para fingir que protege os joelhos do chão molhado. Depois, desfia um terço entre as pontas dos dedos. Escusado incomodá-lo. De perto, percebe-se que de vez em quando afasta a máscara do rosto para limpar as lágrimas às mangas da camiseta.

"Acho bem que eles guardem o recinto"

A poucos metros dali, um agente da GNR, mãos atrás das costas, finge que o ignora também. É que, aparentemente, a GNR foi instruída para afugentar as pessoas da vedação. Ainda há pouco, um agente impediu uma família inteira de permanecer encostada às grades. “O nosso inimigo vírus se tiver de entrar entra na mesma”, conta que se exasperou a mulher alvo da admoestação policial quando relata o episódio ao PÚBLICO. Veio da Trofa, com marido, filho, nora e os três netos – uma pequena multidão, portanto -, na esperança de pagar uma promessa e “ver a procissão”. Desfeitas as esperanças, a família senta-se num banco público e é a imagem viva da desolação. “Acho bem que eles guardem o recinto, mas só das grades para dentro! Do lado de fora, incomodávamos alguém?!”, remói, por sua vez, o filho, Vítor Azevedo, visivelmente desiludido depois de uma viagem “deitada fora”.

Não é que não tenham ouvido os apelos para não se deslocarem a Fátima. Mas a mãe, Maria Campos, foi operada dez vezes “por causa de uma doença que, segundo diz, “não tem explicação”. E a crença numa intervenção divina no seu caso parece não se compadecer com impedimentos sanitários. “Tenho 64 anos e, durante quarenta e tal anos, vim a pé. Este ano sabia que ia ser diferente, mas não contava que se atrevessem a mexer assim com a fé das pessoas”, repete, inconsolável, debaixo do seu chapéu branco de crochet.

Não muito longe desta família passeia-se um casal. Guarda-chuva agora fechado, que o sol começou finalmente a espreitar por entre as nuvens já mais translúcidas, marido e mulher contam que vivem a poucas centenas de metros do santuário. “Este chão que está a pisar era da minha avó”, garante a mulher Maria Amélia. Aos 68 anos de idade, já viveu inúmeros 13 de Maio. “Em miúda, antes de haver este comércio todo, vinha com a minha mãe vender café aos peregrinos. Montávamos umas mesas de improviso e fazia-se o negócio”, recorda. Mas a sua ligação ao “fenómeno” Fátima recua mais ainda: “A minha avó era comadre da mãe de Lúcia. E, muito antes de ler as memórias da irmã Lúcia, já eu sabia da porradinha que a coitada apanhava. Era a minha avó que nos contava. Costumava dizer ‘Maria Rosa, não batas tanto da cachopa!’”, conta ao fim de poucos minutos de conversa.

Por mais que puxem pela memória, nem ela nem, o marido, António Oliveira, se lembram de Fátima assim em pleno Maio. “Não critico a decisão do santuário, com a trapalhada que está criada no mundo inteiro, sabia-se lá o que podia vir por aí…”, apoia António Oliveira. De resto, habituado a ver as manifestações de fé dos peregrinos, longe dos holofotes que aqui se ligam durante as grandes peregrinações, este reformado diz acreditar que, para o ano, “as pessoas hão-de voltar”. E, com uma fé que nenhum vírus parece capaz de abalar, conclui: “Isto vai agarrar mais as pessoas a Fátima.”

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