Opinião

Promover a Saúde através dos “Global Goals”

Apesar de a pandemia nos afetar a todos de forma diferente, a sua resolução só é possível com uma intervenção ao nível global. Precisamos em tempos de Covid-19, mais do que nunca, de catalisar a solidariedade e políticas globais para um desenvolvimento sustentável.

Sob o lema “Não deixar ninguém para trás”, em 2015 as Nações Unidas definiram os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, em áreas que afetam a qualidade de vida de todos os cidadãos do mundo e das gerações futuras.

O 3.º ODS — Saúde e Bem-estar — Garantir uma vida saudável para todos em todas as idades — é o único que aparentemente se refere diretamente à saúde. No entanto, tendo a saúde inúmeras determinantes, é inevitável que esteja presente em muitos, se não em todos, os ODS, e com um duplo papel: de causa — pior saúde pode causar mais desemprego, por exemplo — e consequência — o desemprego pode causar uma pior saúde. A pandemia de covid-19 vem, mais uma vez, reforçar a importância da saúde pública para o desenvolvimento sustentável.

Os 17 ODS organizam-se em cinco dimensões — os chamados cinco PP: pessoas, prosperidade, planeta, paz e parcerias.

Os objetivos centrados nas pessoas que, para além da garantia de uma vida saudável, incluem também a luta contra a pobreza e a desigualdade, o acesso ao conhecimento e a inclusão e o “empoderamento” de mulheres e crianças são, a par dos objetivos da prosperidade — onde se incluem as novas estratégias para empresas, finanças e desenvolvimento socioeconómico sustentáveis — os principais desafios em tempos de covid-19. São os mais diretamente afetados pela pandemia, a interligação entre eles é forte o suficiente para promover uma discussão conjunta entre a Saúde e a Economia, onde as desigualdades são uma prioridade.

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Como se pode diminuir a pobreza quando os mais desfavorecidos são, precisamente, os que têm maiores perdas de rendimento? Como garantir o acesso à educação com escolas fechadas e, em alguns casos, com ensino à distância dependente de existência de computadores pessoais, de Internet, literacia digital e apoio dos pais? Como promover o crescimento económico sustentado e inclusivo, quando grande parte da economia foi posta em causa em consequência do confinamento?

O P do planeta inclui objetivos em áreas como água e saneamento, consumo sustentável, combate às alterações climáticas e proteção dos ecossistemas marinhos e terrestres. Numa primeira análise, o planeta pareceria ser o grande vencedor da pandemia. Menor mobilidade significa menor consumo de recursos energéticos e menos poluição. No entanto, o foco na covid-19 parece ter feito com que assuntos como a reciclagem, por exemplo, perdessem importância relativa, com um menor compromisso e com menos investimento.

A história já nos ensinou como a paz pode rapidamente ser posta em causa em momentos de crise económica e social, onde se assiste a uma diminuição da solidariedade e a uma necessidade de encontrar “culpados” entre grupos específicos, geralmente mais vulneráveis.

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A Escola Nacional de Saúde Pública e o PÚBLICO juntam-se para comemorar a Semana Europeia de Saúde Pública que, em 2020, é dedicada ao tema Covid-19: Colaboração, Coordenação e Comunicação

O P das parcerias ficou para o fim por considerarmos que é neste P que encontraremos as respostas de que precisamos. Precisamos de parcerias, no sentido verdadeiro da palavra — “colaboração entre duas ou mais pessoas com vista à realização de um objetivo comum” — para combater os impactos das desigualdades socioeconómicas. As respostas dependem da colaboração entre pessoas, empresas, sociedade civil, academia, organismos públicos e privados, a nível local, nacional, internacional e global.

Apesar de a pandemia nos afetar a todos de forma diferente, a sua resolução só é possível com uma intervenção ao nível global. Precisamos, em tempos de covid-19, mais do que nunca, de catalisar a solidariedade e políticas globais para um desenvolvimento sustentável.

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