Desinfecção de praia em Espanha condenada por ambientalistas

Zona afectada é habitat de ave incluída no Livro Vermelho das Aves de Espanha. Greenpeace comparou a decisão à ideia de utilizar injecções de lixívia para deter a covid-19.

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Segundo o autarca local, o objectivo da desinfecção era ter um ambiente seguro para as crianças, que no dia seguinte podiam sair de casa pela primeira vez desde que o estado de emergência NurPhoto via Getty Images

Uma praia espanhola foi alvo de uma desinfecção: as autoridades locais usaram um desinfectante com 2% de lixívia para limpar o areal de 1,2 quilómetros de Zahara de los Atunes (na província de Andaluzia). Uma ideia que motivou a indignação de associações ambientalistas como a Greenpeace, que considerou a acção um atentado ambiental. 

A Junta da Andaluzia está a estudar uma possível multa, informou a imprensa espanhola.

Segundo as autoridades locais, o objectivo era limpar a praia no sábado para que fosse segura para as crianças na sua primeira saída durante a quarentena devido à pandemia de covid-19. “Reconheço que foi um erro, foi feito com a melhor das intenções”, explica Agustín Conejo, presidente local.

Foi no sábado passado que a localidade e a associação local de comerciantes decidiram desinfectar o areal. O presidente reconheceu ainda que tomou esta decisão sem a autorização do município de Barbate. O município já se distanciou da acção e alertou para o “ataque ao desenvolvimento sustentável e aos meios naturais”, avançou o El País.

Apesar de não ser permitida a circulação de veículos automóveis no areal, a desinfecção foi realizada com três tractores equipados com extensões para cobrir uma área de quase oito metros de largura com água com lixívia.

“É uma aberração ambiental”, disse Daniel Sánchez Román, delegado do Conselho para o Desenvolvimento Sustentável em Cádis. Ao saber o que acontecia na costa de Zahara, através de vídeos e avisos de residentes, Sánchez Román destacou um agente ambiental para a zona.

As dunas dessa parte da costa são caracterizadas como zonas de nidificação do borrelho-de-coleira-interrompida, uma ave incluída no Livro Vermelho das Aves de Espanha e na Lista de Espécies Selvagens, com a categoria de Protecção Especial (em Portugal pode ser observada um pouco por todo o território, nomeadamente no Estuário do Sado e do Tejo).

A administração andaluza tem de analisar se o uso de tractores ou a desinfecção tiveram algum efeito sobre a ave. Será com base nessa avaliação que se apresentará uma proposta de sanção com uma possível multa. Agustín Conejo está consciente desta possibilidade: “Se eles tiverem de tomar alguma medida, eu cumpri-la-ei”.

Zahara de los Atunes, com 1300 habitantes, não teve casos positivos de covid-19, até ao momento, segundo o seu presidente.

No radar das associações ambientalistas

O grupo “Voluntarios Trafalgar”, de Barbate, denunciou às autoridades andaluzas o sucedido. A sua porta-voz, María Dolores Iglesias, salientou que, para além de danificar a zona de nidificação da ave protegida, nenhum insecto foi deixado vivo.

Também a Greenpeace comentou a situação na rede social Twitter, comparando este comportamento à ideia de Donald Trump de utilizar injecções de lixívia para deter o coronavírus nos seres humanos.

Entre os vestígios dos tractores, os voluntários locais localizaram, pelo menos, um ninho com ovos do borrelho-de-coleira-interrompida, que se encontra em época de reprodução. A porta-voz ambientalista estima que poderão existir até 20 ninhos na zona afectada. “Parece mentira que estas coisas ainda aconteçam, uma loucura contra a própria praia” disse Maria Dolores Iglesias.  

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