Torne-se perito Opinião

Teletrabalho, redes e a covid-19

Como subproduto desta crise pandémica resultará uma outra consequência: o recrudescimento das vantagens assimétricas da posse indevida da informação, quer por organizações, quer por Estados.

Já não restarão muitas dúvidas que a pandemia covid-19 irá provocar alterações profundas na vida das sociedades, com reflexos na globalização, na organização dos Estados, na geoeconomia e certamente na geoestratégia.

É sobejamente reconhecida a importância que as redes de informação e os sistemas de comunicações representam para as sociedades modernas, em particular para a economia, a ciência, a política, a agenda mundial, a informação, enfim, o seu papel verdadeiramente central na globalização a par do transporte aéreo, terrestre e marítimo. A rapidez da informação, a conetividade, a transformação dos utentes passivos em ativos, que pesquisam e selecionam o que querem ver e a facilidade com que criam conteúdos e comunicam uns com os outros, e estabelecem grupos e subgrupos de interesse, é verdadeiramente extraordinária. A rede, que passamos a denominar de ciberespaço, tem contudo um senão. É insegura, facilmente manipulável, caótica e dificilmente governável.

No momento em que se tornaram vitais para a organização na resposta e na resiliência à pandemia em curso, as redes e sistemas de comunicação devem merecer uma preocupação acrescida.

Tem-se verificado um aumento dos ataques no ciberespaço, assim como de campanhas organizadas e dirigidas de desinformação e manipulação de opinião pública a um nível sem precedentes. Ou seja, a pandemia, como se não fosse já por si um problema bastante, trouxe com ela um recrudescimento da guerra híbrida e da disseminação de rumores e desinformação através das redes sociais.

Todo o tipo de atores, desde os aspirantes a hacker, até aos estatais, mais capazes, passando pelo crime organizado, estão mais ativos e a operar ofensivamente no ciberespaço, testando conceitos, operacionalizando estratégias, ou simplesmente aproveitando a confusão e as vulnerabilidades acrescidas.

Os Estados, as empresas e todo o tipo de organizações que passaram, de um momento para o outro, a depender de serviços webizados e das redes do ciberespaço para teletrabalho, sem tempo para implementar soluções estruturadas, seguras e fiáveis, encontram-se provavelmente vulneráveis. Estar-se-á, porventura, a disponibilizar informação relevante que poderá vir a ser utilizada contra os Estados, empresas, organizações e indivíduos.

Imagine-se as conversas, os dados trocados, os simples metadados de quem comunicou com quem, quantas vezes e em que períodos, e todo o tipo de informações de comportamento dos próprios cidadãos, das suas necessidades logísticas e sociais. Enfim, um conjunto gigantesco de dados de elevada sensibilidade e utilidade para quem os puder coligir, organizar e explorar. Essa capacidade já não constitui ficção científica, existe e está certamente presente nos serviços e sistemas a que tivemos que aderir, precipitadamente, em resultado das medidas de contenção e isolamento social da pandemia covid-19.

Já estão reportados casos em que a adesão a estes sistemas abriram portas e acessos de ataque às infraestruturas de redes e comunicações internas, existentes em diversas entidades.

Pode pensar-se, numa visão macro, mesmo em soberania digital fragilizada, se tivermos em consideração a escassez de recursos humanos de administração de redes e segurança, para este surto imenso e repentino de necessidades, conjugado com eventuais baixas dos existentes.

Resultará, como subproduto desta crise pandémica, para além dos contornos económicos, sociais e políticos que se perspetivam, uma outra consequência: o recrudescimento das vantagens assimétricas da posse indevida da informação, quer por organizações, quer por Estados.

Neste contexto, afigura-se importante que o país reaja, também, neste campo, com a mesma energia que coloca no combate à pandemia. Serão muito prejudiciais para a economia, a política e para a própria segurança do Estado as potenciais fugas de informação, assim como o comprometimento da pouca soberania digital que nos resta.

O contributo das Forças Armadas, pelas suas capacidades no campo da ciberdefesa, pode vir a ser especialmente útil. O mesmo acontece com os outros atores essenciais, nomeadamente o Centro Nacional de Cibersegurança, a Polícia Judiciária no cibercrime e os próprios Serviços de Informações, pois estarão todos tanto ou mais empenhados que a Instituição Militar. Importa pois que esta preocupação encontre eco numa articulação mais alargada e robusta, num verdadeiro ritmo de batalha, envolvendo as funções críticas do Estado, as grandes empresas nacionais, em especial aquelas da área das tecnologias de informação, das comunicações e do meio académico.

Todos juntos encontraremos, certamente, formas de garantir o acesso às redes e sistemas de informação em condições aceitáveis de disponibilidade, integridade e segurança, nesta crise onde as redes e sistemas de comunicações passaram, mais que nunca, a ser cruciais ao funcionamento do Estado e à resiliência das sociedades.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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