Trump sugere injectar desinfectante para tratar a covid-19

Depois de ter promovido o uso de um medicamento contra a malária, o Presidente norte-americano pede agora aos cientistas que investiguem os possíveis benefícios da ingestão ou injecção de desinfectantes no corpo dos pacientes.

O Presidente dos EUA salientou os benefícios da exposição solar numa altura em que as autoridades recomendam o isolamento em casa
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O Presidente dos EUA salientou os benefícios da exposição solar numa altura em que as autoridades recomendam o isolamento em casa Reuters/JONATHAN ERNST

Um mês depois de ter começado a promover um medicamento contra a malária como possível cura para a doença provocada pelo novo coronavírus, com base num estudo criticado pela generalidade da comunidade científica e difundido por utilizadores das redes sociais, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu nas últimas horas que os doentes com covid-19 sejam irradiados com luz ultravioleta “por dentro do corpo” e injectados com lixívia e outros desinfectantes. Vários médicos e cientistas rejeitaram imediatamente as propostas, lembrando que os raios ultravioleta em excesso podem provocar cancro da pele e que a lixívia mata o vírus, mas também os seres humanos.

As mais recentes sugestões do Presidente norte-americano foram feitas na conferência de imprensa diária sobre o combate à pandemia, na Casa Branca, na noite de quinta-feira.

O responsável científico do Departamento de Segurança Interna norte-americano, William Bryan, tinha apresentado algumas descobertas preliminares de estudos feitos em laboratório, que apontam para duas fragilidades no novo coronavírus: pode ser morto com desinfectantes comuns como a lixívia e o álcool isopropílico; e a sua capacidade de transmissão é travada pela exposição à luz solar e à humidade.

A questão sobre se o calor do Verão pode ajudar a conter a pandemia ainda não tem resposta. Sabe-se que isso parece acontecer com outros coronavírus, mas no caso particular do vírus SARS-Cov-2 é uma incógnita – há casos de covid-19 em todas as zonas do globo, incluindo em regiões quentes e húmidas nesta altura do ano; e, mesmo que o calor tenha influência, ninguém sabe se será suficiente para suspender as medidas de distanciamento social e isolamento.

Ainda assim, o Presidente norte-americano pegou na nova informação do Departamento de Segurança Interna e lançou algumas ideias de tratamento e cura, perante a estupefacção e o silêncio da principal responsável pela equipa da Casa Branca no combate à pandemia, Deborah Birx.

“Suponhamos que irradiamos o corpo com luz ultravioleta, ou com uma luz muito forte, e acho que você disse que não testaram isso, mas que vão testar”, disse Donald Trump, olhando na direcção onde estavam Deborah Birx e William Bryan.

“Suponhamos que põem a luz dentro do corpo, o que pode ser feito através da pele ou de outra forma qualquer. E acho que você disse que também vão testar isso. Parece ser interessante”, continuou Trump, perante o silêncio e a face sem expressão de Birx.

“E depois vejo que o desinfectante acaba com o vírus num minuto. Um minuto. Há alguma forma de fazermos algo com isso, como injectar para dentro ou fazer uma limpeza?”, sugeriu Trump. “Seria interessante verificar isso.”

"Como tratamento, não"

A intervenção do Presidente norte-americano prosseguiu com uma referência ao seu cérebro, enquanto apontava para a cabeça: “Eu não sou médico, mas tenho um bom vocês-sabem-o-quê.”

Sem ouvir respostas às suas perguntas, Donald Trump dirigiu-se então à coordenadora científica da equipa da Casa Branca, perguntando-lhe se já tinha ouvido falar do uso de “calor e luz” no tratamento do coronavírus.

“Como tratamento, não”, disse Deborah Birx. “Quer dizer, a febre é uma coisa boa, porque ajuda o nosso corpo a responder. Mas não sei de nada relacionado com calor ou luz.”

Numa reacção aos comentários do Presidente norte-americano, que acabara de discutir, perante milhões de telespectadores em todo o país, a possibilidade de injectar ou ingerir lixívia para combater o coronavírus, o antigo secretário do Trabalho e professor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, Robert Reich, apelou a um boicote às conferências de imprensa na Casa Branca.

“Os briefings de Trump estão a pôr em risco a saúde da população. Boicotem a propaganda e ouçam os especialistas. E, por favor, não bebam desinfectante”, disse Reich no Twitter.

Walter Shaub, director do Gabinete de Ética no Governo no segundo mandato do Presidente Barack Obama e durante cinco meses no início do mandato do Presidente Donald Trump, foi mais violento: “Não compreendo como é que um idiota destes exerce o cargo mais alto da nação e que existam pessoas suficientemente estúpidas para acharem que isso não é um problema. Não acredito que, em 2020, tenha de dizer às pessoas que estão a ouvir o Presidente que injectar desinfectante pode matá-las.”

Citado pela NBC News, o pneumologista Vin Gupta disse que “a ideia de injectar ou ingerir qualquer tipo de produto de limpeza é irresponsável e perigosa”.

“É um método usado por pessoas que se querem suicidar”, disse o médico.

Kashif Mahmood, um médico de Charleston, no estado da Virgínia Ocidental, pediu aos seus seguidores no Twitter que “não sigam conselhos médicos de Trump”.

“Como médico, não posso recomendar a injecção de desinfectante nos pulmões nem o uso de radiação ultravioleta dentro do corpo para tratar a covid-19”, disse Mahmood.

Um aviso feito também por John Balmes, pneumologista no Hospital de São Francisco, citado pela Bloomberg News: “Inalar lixívia é a pior coisa que se pode fazer aos pulmões. O sistema respiratório e os pulmões não foram feitos para estarem expostos nem sequer a um aerossol de desinfectante.”

Lixívia vendida para curar

Na semana passada, um tribunal federal dos Estados Unidos suspendeu a venda de um produto de uma organização chamada Genesis II Church of Health and Healing (igreja do génesis da saúde e da cura) que contém dióxido de cloro e que estava a ser promovido como tratamento para a covid-19 – e também para a doença de Alzheimer, o autismo, o cancro do cérebro, a esclerose múltipla e o VIH/SIDA, entre outras.

Um aviso publicado no site da autoridade do medicamento norte-americana, a Food and Drug Administration, alerta a população contra a ingestão de produtos à base de cloreto de sódio ou dióxido de cloro, que tem levado pessoas a procurar ajuda nos hospitais principalmente na última década. Um dos mais conhecidos é vendido com o nome MMS – Miracle Mineral Solution (solução mineral milagrosa) e é feito à base dos ingredientes presentes nos desinfectantes. “Não foram feitos para serem ingeridos por pessoas”, avisa a FDA.

Quanto ao medicamento contra a malária que foi promovido pelo Presidente dos Estados Unidos no último mês como possível cura para a covid-19, o estudo mais abrangente feito até agora, e cujos resultados foram divulgados esta semana, indica que morreram mais pessoas tratadas com a hidroxicloroquina do que com o tratamento padrão adoptado desde o início da pandemia. Tal como qualquer outro estudo sobre a relação entre a hidroxicloroquina e a covid-19 (com resultados encorajadores ou desencorajadores), este estudo não foi revisto por pares.

Também esta semana, soube-se que o cientista norte-americano Rick Bright, director da agência do Governo dos Estados Unidos que desenvolve vacinas e outras respostas a pandemias e ameaças de bioterrorismo, foi afastado do cargo e transferido para uma posição mais discreta nos Institutos Nacionais de Saúde.

Bright disse que foi punido por se opor ao uso generalizado da hidroxicloroquina no combate à covid-19 e acusou a Administração Trump de “clientelismo” na procura por um tratamento para a doença provocada pelo coronavírus.

Notícia alterada às 15h40: acrescentado um parágrafo sobre o facto de que o mais recente estudo da relação entre a hidroxicloroquina e a covid-19 ainda não foi revisto por pares.

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