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Há novos visitantes nos zoos mas não pagam bilhete. E esse é um problema

Fechar as portas dos zoos significa receitas nulas para despesas fixas. Estes meses são duros e todas as medidas de prevenção estão a ser tomadas. Os animais estão indiferentes a estas mudanças, continuando com uma rotina normal, assegurada pelos funcionários que não param.

Tigre
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Jardim Zoológico de Santo Inácio Teresa Pacheco Miranda

Com a falta de público, a gestão dos zoos enfrenta dificuldades dada a quebra de receitas. Mas as rotinas mantêm-se e improvisam-se visitas virtuais. Para os animais, pouco mudou e parecem nem dar por uma inusitada substituição daqueles que os visitam: em vez de pequenos e graúdos seres humanos, vêm dos ares e rastejam até si outras espécies do mundo animal, que assim aproveitam o sossego destes caminhos e eventualmente picam um pouco do repasto dos habitantes destes jardins.

O problema é que os novos visitantes não pagam bilhete e mesmo de portas fechadas, os custos permanecem fixos e as contas precisam de ser pagas no final do mês. “Nós não somos como os outros negócios, não podemos pura e simplesmente fechar a porta e abrir quando nos disserem. Temos de cumprir o que é o nosso principal requisito: o bem-estar dos nossos animais”, afirma Salomé Tavares, directora do Parque Ornitológico de Lourosa.

Olga Freire, presidente da Junta de Freguesia da Cidade da Maia e responsável pelo Parque Zoológico desta cidade, admite que nos primeiros dias foi ligeiramente complicado obter frutas ou legumes. Como medida de prevenção, antes de entrar no estado de emergência, criaram “um stock de alimentação em ração” caso fosse necessário recorrer a essa opção em vez de produtos frescos. Quanto à equipa de colaboradores, foi dividida em dois grupos, que trabalham alternadamente, e a limpeza das instalações foi redobrada.

O Zoo de Santo Inácio, em Avintes, adoptou medidas semelhantes. Ficou apenas com 50% do total de 40 trabalhadores. Menos pessoas mas o mesmo trabalho. Diariamente, “os animais são observados e alimentados com alimentos frescos preparados nesse dia ou no dia anterior e os habitats são limpos, como sempre foram”, explica Teresa Guedes, a directora do Zoo. 

Uma ajuda fundamental no que toca à alimentação tem sido a relação que preservam há 20 anos com 3 supermercados regionais, de onde receberem vários frescos, sejam as sobras ou os produtos que já não tem bom aspecto para vender.

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Sr. José, um dos funcionários mais antigos do Jardim Zoológico de Santo Inácio, com uma máscara de Protecção. Teresa Pacheco Miranda

Também o Jardim Zoológico de Lisboa se protegeu com “medidas mais apertadas de desinfecção e limpeza assim como zonas específicas de circulação”. Estas medidas fazem parte de um plano de contingência elaborado de acordo com as regras da DGS, assegura Fernando Salema Garção, vice-presidente deste zoo. Armazenaram alimentos, fizeram acordos com os fornecedores para garantir que nada faltava e recebem também apoio de hipermercados.

A vida no Zoo continua, online e offline

No que toca aos animais, estes prosseguem a sua vida normal, indiferentes à falta dos admiradores e curiosos habituais. “Ao contrário das pessoas, o dia-a-dia dos animais não mudou”, confirma a directora do Zoo da Maia. O contacto humano acontece apenas através dos seus tratadores e, até agora, os animais, não demonstraram comportamentos que indiciassem saudades dos visitantes.

Mas surgem outros. Em Lisboa, Fernando Salema Garção conta que são agora casa de outros animais, como aves migratórias e anfíbios, que “se tornaram mais desinibidos e aparecem com maior frequência nos caminhos onde outrora passeavam os visitantes.”

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Os animais continuam a sua rotina normal, no Jardim Zoológico de Santo Inácio. Teresa Pacheco Miranda

Com a chegada da Primavera, os ciclos da vida animal fluem naturalmente. O jardim Ornitológico de Lourosa é membro participante de vários programas de conservação de espécies a nível europeu e mundial, incluindo o Programa Europeu para Espécies Ameaçadas. Nesse sentido, 40 das suas aves pertencem a programas de reprodução que continuam a funcionar de igual forma.

No mundo virtual, o zoo da capital reinventou-se “para continuar a levar a missão de educação para a conservação a famílias, alunos e professores”. Desde Encontros com biólogos, onde abordam temas como o comércio ilegal e a destruição do habitat até ATL virtuais durante as férias da Páscoa com actividades lúdicas para as crianças, as iniciativas sucedem-se. Para além disso, estruturaram o programa Zoo em Casa, com sessões online para escolas e recursos educativos no site. Com estas actividades, diferentes de semana para semana, pretendem “entrar nas casas dos portugueses e oferecer aquela que é a nossa natureza”.

Mas apesar das iniciativas, o problema maior mantém-se: as receitas das bilheteiras desapareceram. Existem zoos, como o Parque Ornitológico de Lourosa, que sempre dependeram de subsídios municipais, as suas receitas nunca sustentaram a sua actividade, e por isso não foram tão afectados com o encerramento. Contudo, a maioria, incluindo o Zoo de Santo Inácio e o Jardim Zoológico de Lisboa, dependem do fluxo de visitantes.

As portas estão fechadas mas as despesas fixas não desaparecem. “Nós temos bastantes custos mensais a suportar – o salário dos colaboradores, a alimentação dos animais, que é a parcela maior, e a água e a luz e tudo o que é preciso para manter o zoo a funcionar”, diz Teresa Guedes.

Para piorar a situação, estes são meses em que as receitas começavam a subir. Com a melhoria do tempo, os caminhos dos zoos enchiam-se. Mas agora é um deserto.

Para o Jardim Zoológico da Maia, que tem cerca de 60 mil euros de despesa fixa por mês, o cancelamento das visitas escolares representa uma perda enorme. “Tudo o que seja actividades escolares já não vão existir, as visitas escolares habituais que começam em Março e terminam em Julho não vão acontecer e só por si essa receita das escolas é bastante significativa no zoo”, explica Teresa Guedes. Esta quebra na receita afecta bastante o orçamento da freguesia. Apenas se consegue manter o funcionamento normal do parque graças à “cautela” que aprenderam a ter com anos de invernos duros que afastavam os visitantes.

Visão optimista para o futuro

Apesar das receitas serem nulas nestes meses, existe uma perspectiva muito optimista para a reabertura. Como são espaços amplos e abertos, acreditam que podem ser dos primeiros lugares a abrir. ”Sendo o jardim zoológico um local ao ar livre em que as pessoas não precisam de estar aglomeradas, quero acreditar que quando abrirmos vamos ter visitantes que procuram sair com os seus filhos e ver os animais, passear, brincar e aproveitar a natureza”, espera Olga Freire.

Teresa Guedes também partilha do mesmo optimismo, até porque tem recebido várias chamadas de visitantes que procuram ajudar como podem, seja com pequenas quantias monetárias ou só com um encorajamento a nível moral. Não coloca no entanto de parte a opção de deixar as áreas fechadas, como a reptilária e a casa dos animais nocturnos, encerradas por mais tempo, como medida de prevenção.

Texto editado por Ana Fernandes

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