Akshar Dave/Unsplash
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Megafone

A saúde mental para lá da pandemia

Espera-se que a luta pela saúde mental não seja efémera e que se prolongue para lá desta pandemia. Mas esta luta tem de envolver obrigatoriamente o combate ao estigma e ser transversal a toda a sociedade, desde a nível estrutural, na educação e alteração de políticas de saúde, até ao nível individual.

A pandemia da covid-19 trouxe consigo a necessidade de olhar para a tantas vezes ignorada e maltratada saúde mental. A angústia da incerteza e da solidão está a invadir a casa de cada um e percebemos, finalmente, que o sofrimento psicológico toca a todos. 

Temos assistido ao surgimento, nas últimas semanas, de iniciativas louváveis de alerta e apoio para a doença do foro psicológico. No entanto, nem só destes movimentos poderá alimentar-se a luta pela saúde mental. Explico-me: nestes tempos de quarentena, decidi dedicar algum tempo à produção artística portuguesa. A arte é um ansiolítico poderoso e estamos numa altura, mais do que nunca, de valorizar o que se produz no nosso país. Comecei a ver a série portuguesa Solteira e Boa Rapariga, disponível online na plataforma RTP Play. No episódio 10, Caetano, a protagonista vê-se enredada nos affairs da mãe, que lhe atribui a missão de terminar o seu relacionamento amoroso com um elegante cavalheiro, amante da festa brava. A filha, nesta embaraçosa situação, mune-se de uma falsa história para justificar a necessidade do galã se separar da sua mãe — é uma pessoa que sofre de uma “desordem emocional”, com “actos de loucura, tentativas de suicídio, desaparecimentos (…), internada com camisas de força”. A mensagem é simples: nem este valente homem, que enfrenta corajosamente os touros, poderá dominar a doente psiquiátrica.

Compreendo a potencialidade cómica da cena. É leve, inocente e inofensiva, dirão. Contudo, trata-se de um comportamento estigmatizante relativo à doença mental, que de engraçado pouco terá. Seria cómico se a personagem em questão tivesse sofrido um acidente vascular cerebral (AVC), um enfarte agudo do miocárdio, tivesse epilepsia? Não. E este é dos factores mais importantes do estigma: as pessoas com doença mental ainda são rotuladas como “eles”, que são diferentes de “nós.” “Eles” e “nós” não se misturam. Há um fosso profundo e é este distanciamento abismal que permite brincar levianamente com manicómios e loucos. É esta alienação que permite que nos distraiamos comodamente com os “esquizofrénicos, depressivos e bipolares”, mas não com pessoas que tiveram um cancro ou um AVC. A semântica é fulcral: no primeiro caso usamos o verbo ser (“eles” são a doença), no segundo aplicamos a conjugação ter (pessoas que têm uma doença).

Esta cena televisiva não é situação única. Pelo contrário, retrata o quão imiscuído está o estigma relativo à doença mental na nossa sociedade. E este fenómeno está enraizado a vários níveis, desde o estigma internalizado (os tais “loucos”, que não pedem auxílio por vergonha e culpa), até ao nosso Governo, que usa o termo “esquizofrénico”, em plena pandemia da covid-19, como adjectivo depreciativo. 

Espera-se que a luta pela saúde mental não seja efémera e que se prolongue para lá desta pandemia. Mas esta luta tem de envolver obrigatoriamente o combate ao estigma e ser transversal a toda a sociedade, desde a nível estrutural, na educação e alteração de políticas de saúde, até ao nível individual. Cada um de nós tem ao seu alcance, diariamente, ferramentas para enfrentar o estigma: evitar usar termos como louco ou maluco, não alhear a pessoa com patologia psiquiátrica, informar-se e transmitir os conhecimentos aos outros, desconstruindo crenças erróneas, entre outras formas, mais ou menos criativas.

Porque, afinal, toca a todos. E, por muitos esforços que façamos, não há saúde mental se houver estigma.

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