Há um projecto que quer deixar o mar do Porto Santo livre de plásticos

O arranque do trabalho estava previsto para Abril, mas foi adiado para Setembro, por causa da covid-19. Durante 18 meses toda a comunidade vai ser chamada a participar na batalha para reduzir drasticamente o uso de plástico na ilha que quer ser reserva da biosfera

Praias e mar sem vestígios de plástico é o objectivo deste projecto
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Praias e mar sem vestígios de plástico é o objectivo deste projecto Daniel Rocha

Foi como se tudo se conjugasse na perfeição. No ano passado, duas associações encontraram-se na ilha do Porto Santo no âmbito de um evento relacionado com o consumo sustentável de pescado realizado durante o Festival Rota do Atum. Pouco depois, entrava nos serviços da Unesco a candidatura do território à Rede Mundial de Reservas da Biosfera. E, numa ilha grega, a WWF - World Wide Fund for Nature desenvolvia um projecto para que aquele local pudesse tornar-se na primeira ilha do Mediterrâneo livre de plásticos. Foi a conjugação de tudo isto que permitiu que os actores, o timing e a experiência já desenvolvida se encontrassem, fazendo nascer o projecto Porto Santo Sem Lixo Marinho, que já tem financiamento garantido através do programa EEAGrants Ambiente, que em Portugal é gerido pelo Fundo Ambiental.

Não fosse a pandemia da covid-19 e este deveria ser o mês para que o projecto do consórcio que inclui a Associação Natureza Portugal, em associação com a WWF (ANP/WWF), enquanto promotora, a AIDGlobal - Acção e Integração para a Cidadania Global e organismos públicos locais estivesse no terreno. Assim, foi preciso rever o calendário e os 18 meses que a iniciativa deve durar só começam a contar a partir de Setembro.

É nessa altura que deverá arrancar a primeira das três fases do projecto, inspirado no trabalho desenvolvido pela WWF na grega Pharos, mas com algumas diferenças. “Quisemos trazer para Portugal uma metodologia que a WWF tinha experimentado na Grécia, mas adaptada à realidade de Porto Santo, e, por isso, vamos começar por identificar os fluxos e descargas dos resíduos na ilha, porque é algo que achamos que ainda não está feito”, diz Ângela Morgado, directora-executiva da ANP/WWF.

Com este trabalho e a respectiva monitorização será possível perceber as fontes destes resíduos, quem os produz, qual a sua composição e como são geridos. E esta análise permitirá seguir para o segundo ponto na agenda do projecto, que passa pela optimização da gestão desses resíduos. “A ideia é optimizar a recolha e gestão de resíduos plásticos. Com isto, pretendemos reduzir radicalmente o volume de plásticos descartáveis, de uso único, utilizados no Porto Santo, e gerir mais eficientemente aquele que vai continuar a ser utilizado”, diz Sofia Lopes, gestora de projectos da AIDGlobal. 

Para facilitar este trabalho, os responsáveis pelo projecto esperam contar com uma aplicação digital, a ser desenvolvida, que irá permitir identificar “os locais críticos de acumulação de resíduos e também os locais de recolha existentes”, explica Sofia Lopes. “É muito importante que todos, moradores e visitantes, possam aceder e participar, ajudando a identificar os locais da ilha com mais concentração de plástico e estabelecendo assim uma comunicação em rede, entre entidades públicas e privadas, que torne possível uma recolha mais célere e eficaz”, acrescenta.

Um dos passos que está já definido, para facilitar essa recolha, é a instalação no Porto Santo de uma máquina de entrega de garrafas de plástico, que dê a quem as deposite alguma forma de compensação, à semelhança do que já acontece em 23 grandes superfícies do continente, no âmbito de um projecto-piloto, financiado pelo Fundo Ambiental.

Depois, será desenvolvido um plano de gestão comunitário, para cinco anos, que, de novo, aposta o seu sucesso na participação de toda a comunidade. “Temos de envolver todos na criação deste plano de prevenção e sensibilização para a redução do lixo marinho. É preciso estabelecer conjuntamente metas para a redução do plástico. O objectivo é que haja um esforço conjunto”, diz Sofia Lopes. 

Da WWF Noruega virão pessoas que irão participar num workshop de partilha exemplos de sucesso e melhores práticas. Além disso estão previstos seminários e muitas conversas para, no fundo, “dar directrizes e orientações para que a gestão dos resíduos se torne mais eficaz”, explica Ângela Morgado.

A terceira e última fase do projecto é aquela que aposta na redução efectiva e radical do uso de plásticos descartáveis. Está prevista uma forte acção de sensibilização e comunicação que chegue a todos os que vivem ou usufruam da ilha: moradores, empresários, pescadores, alunos e professores, operadores turísticos e visitantes. “Queremos uma campanha de comunicação que chegue a todo o público que visita Porto Santo. Os turistas contribuem para o fluxo de resíduos e por isso também eles têm de ser responsáveis pela redução de plásticos na natureza”, defende Ângela Morgado. 

Se as fases iniciais do projecto estarão, sobretudo, nas mãos dos parceiros institucionais do consórcio — a Águas e Resíduos da Madeira, a Câmara Municipal do Porto Santo e a ARDITI - Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação — a campanha de sensibilização e de educação “Acabar com o plástico no mar de Porto Santo” será da responsabilidade da AIDGlobal, que já desenvolve há três anos no arquipélago o projecto “Educar para Cooperar - Porto Santo e Madeira”, muito voltado para o desenvolvimento sustentável, a cooperação e os direitos humanos. A campanha de comunicação terá como principal promotora a ANP/WWF.

A preparar a chegada do projecto ao terreno, Sofia Lopes já tem na cabeça algumas das formas de como a comunidade poderá ser cativada para a necessidade de ter um uso mais responsável de plásticos, numa ilha que quer ser reserva da biosfera. “Queremos criar um selo de qualidade Porto Santo Sem Plástico no Mar para hotéis e restaurantes, que tenham condições para o receber. E vamos aumentar as brigadas de voluntários de recolha de lixo marinho, que já existe no âmbito da iniciativa Amigos do Mar. A praia é enorme e há muitos quilómetros a percorrer para a limpeza”, refere. 

No final de tudo isto, o nome do projecto será mesmo uma realidade? “Num território com esta dimensão como é a ilha do Porto Santo acredito que vamos conseguir reduzir muito a utilização de plástico de uso único”, diz Ângela Morgado. A monitorização que se seguirá avaliará o sucesso da iniciativa. 

O projecto na ilha madeirense foi um dos seis seleccionados para receber parte de um apoio de um milhão de euros disponibilizado através do concurso “Small Grants Scheme -Projectos para a prevenção e sensibilização para a redução do lixo marinho”.