Cerca de 15% dos mortos por covid-19 eram idosos que viviam em lares

Ministra da Solidariedade e Segurança Social diz que o programa de testagem que lançaram com as universidades e politécnicos já conta com 17 instituições. “Vamos ter muito mais capacidade de realização de testes no terreno”, diz Ana Mendes Godinho.

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Cerca de 15% das vítimas mortais por covid-19 em Portugal eram idosos que viviam em lares. Até esta terça-feira tinham já morrido com a doença pelo menos 61 pessoas residentes em estruturas residenciais para a terceira idade e há cerca de 800 trabalhadores em isolamento profiláctico, revelou o Ministério do Trabalho, da Solidariedade e da Segurança Social (MTSSS). O número de óbitos por covid-19 em geral em Portugal aumentou para 409 até quarta-feira, de acordo com o último balanço da situação epidemiológica.

“Qualquer número de mortes é preocupante, mas estamos a falar de uma população mais vulnerável. Dos dados que temos recolhido, cerca de 50% das pessoas que estão nos lares têm mais de 80 anos. A situação dos lares é sempre complexa atendendo à sua população”, contextualizou ao PÚBLICO a ministra Ana Mendes Godinho. “Uma medida de apoio que estamos a desenvolver é a do reforço recursos humanos para os lares, onde há muitos trabalhadores em isolamento”, sublinhou. 

​Autarcas, dirigentes de lares de idosos e de associações do sector não se têm cansado de avisar que estas estruturas são uma “bomba relógio” na epidemia de covid-19 pela falta de condições de muitas e também pela carência de material para a realização de testes de rastreio laboratorial ou pelo grande atraso na marcação, o que tem potenciado o contágio.

Mas o total de mortes em lares de idosos onde foram confirmados casos positivos de infecção pelo novo coronavírus pode ainda superior ao número agora divulgado. “Estas são populações fragilizadas que, quando morrem em ambiente que não seja hospitalar, é difícil de determinar a causa da morte”, admite o MTSSS, que explica que os dados são de “auto-preenchimento por parte dos lares” em resposta enviada ao PÚBLICO. A recolha de informação neste tipo de estruturas não é fácil. “Ao contrário do que se passa, por exemplo, no SNS, as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) – vulgo lares de idosos, não são públicas, logo não há uma forma automática e única de fazer recolha sistemática e uniforme de informação”, justifica o ministério.

Adiantando que, dos 2520 lares no país, estão a ser acompanhados diariamente 100, “ou por casos suspeitos ou por testes positivos”, Ana Mendes Godinho lembra que estas estruturas são geridas por IPSS e empresas. “Mas desde o início procurámos fazer orientações e regras para prevenção. Demos orientações com exemplos concretos e demos formação e orientações técnicas para implementar medidas de segurança. Há mais de um mês que se aplicou a interdição de visitas para limitar o risco de entradas e saídas”, elenca. Foi ainda criada uma equipa de acompanhamento permanente que integra a Caritas, a Cruz Vermelha e a CNIS para encontrar respostas quando isso não é possível a nível municipal. 

Foi igualmente criada uma bolsa especial do IEFP, através da qual colocaram 200 pessoas em 40 instituições e lançaram uma campanha de voluntariado que já tem cerca de 3 mil pessoas inscritas. “Já há pessoas colocadas e 20% mostrou disponibilidade para trabalhar com pessoas que tiveram teste positivo”, frisa a governante.

Sobre a crónica falta de testes nos lares, Ana Mendes Godinho recorda que foi desenvolvido um programa de testagem complementar aos testes que já são feitos por outras entidades, nomeadamente Serviço Nacional de Saúde quando existem casos suspeitos. O objectivo deste programa é preventivo e focado nos profissionais dos lares. “Este programa foi lançado há 15 dias, inicialmente com três universidades e agora temos 17 universidades e politécnicos. A universidade do Porto começa na segunda-feira, Viana do Castelo também e Évora. O politécnico de Bragança também vai produzir testes e Vila Real também já se está a preparar”. A prioridade é testar profissionais e casos suspeitos.

“Vamos ter muito mais capacidade de realização de testes no terreno. Este programa é como um puzzle, queremos juntar os vários recursos que existem disponíveis no país. Houve outras entidades que já começaram a fazer, como por exemplo a Câmara do Porto com o Hospital de São João, por isso digo que este é um programa complementar”. O custo que o Estado vai suportar é de 35 euros por teste através dos protocolos que fez com os politécnicos e universidades, acrescentou.

Ana Mendes Godinho nota, porém, que cada instituição tem de fazer o seu papel e há uma quantidade de câmaras com grande capacidade de resposta quando é preciso colocar pessoas em locais diferente dos que existiam na fase inicial.

Falta de material

Um caso que que chocou o país foi o de um lar da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro onde 15 idosos morreram vítimas de covid-19 e onde havia 77 utentes infectados no início desta semana. Neste lar que se situa no Complexo Social da Moita, em Oliveirinha, os óbitos foram ocorrendo “ao longo dos dias” e apenas alguns dos doentes morreram no hospital, segundo o presidente da câmara, Ribau Esteves. Os casos foram detectados quando os 105 idosos e os funcionários foram sujeitos a testes que já tinham sido pedidos “pelo menos duas semanas” antes, lamentou Ribau Esteves, que acredita que a situação podia ter sido evitada. “Quanto mais cedo tivéssemos despistado os casos, maior era a probabilidade de baixar o contágio”, acentua.

O presidente da câmara garantia então que, ao contrário do que a Direcção-Geral da Saúde tem afirmado, há lares à espera da execução de testes de despiste à Covid-19 que estavam planificados e que não foi possível realizar, por não haver zaragatoas para recolher amostras para irem para o laboratório.

O material necessário para a realização de testes tem vindo a chegar aos soluços a Portugal. No início desta semana, chegaram 90 mil zaragatoas (uma espécie de cotonete usada para tirar amostras para análise), anunciou esta quinta-feira o secretário de Estado da Saúde, António Sales. A distribuição está a ser feita pelo Infarmed em colaboração com o laboratório militar. O governante revelou igualmente que vão chegar a Portugal “mais de um milhão de testes para a reserva estratégica nacional, tal como kits de extracção, que serão disponibilizados até ao próximo dia 17.

Protestos no Norte

Os protestos dos autarcas de alguns concelhos do Norte do país, que exigem equidade na distribuição de testes para despiste de covid-19 na região que é a mais fustigada pela epidemia de Covid-19, encontraram entretanto eco junto do Governo, que deu luz verde à realização de testes já a partir desta sexta-feira. 

O boletim divulgado esta quinta-feira pela Direcção-Geral da Saúde mostra que o Norte continua a ser o grande foco de novas infecções de covid-19: dos 815 novos casos, 716 ocorreram na região, ou seja, 87,8% do total nacional. É também o Norte que regista mais óbitos: 16 em 29 mortes, o que representa 55,2% do total nacional.​

Gondomar, que ocupa a quarta posição no ranking dos concelhos com mais casos confirmados pelo novo coronavírus, tem a garantia de que os testes arrancam esta sexta-feira, uma decisão que acontece depois do ultimato feito pelo presidente da autarquia, Marco Martins, na sua conta do Facebook: “Basta! Assim não pode ser! Senhores de Lisboa, olhem cá para cima também”.

Há mais de uma semana que o também presidente da Comissão Distrital de Protecção Civil do Porto vinha reportando ao Governo e à Administração Regional e Saúde do Norte a situação em que se encontra Gondomar, que na terça-feira tinha “mais de 1200 pessoas com prescrição para fazer o teste”.

Marco Martins disse que “a partir de sexta-feira a situação vai melhorar”, mas nada mais adiantou em relação aos testes a realizar pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS). Confirmou apenas que a câmara está a trabalhar em duas frentes: “Uma para fazer testes em todos os lares (500 utentes) e outra para fazer testes à população em geral, em parceria com o Agrupamento de Centros de Saúde” local. “Até agora, apenas um lar de idosos foi rastreado por haver várias pessoas infectadas”, lamentou.

Em Vizela, o panorama é muito idêntico e o presidente da câmara não esconde a preocupação pela falta de testes. Não houve ainda testes feitos pelo SNS e os únicos rastreios que estão a ser efectuados são a idosos residentes em lares e por iniciativa da câmara municipal.

“Há muitas pessoas a quem o SNS prescreveu teste de covid-19 e que não conseguem fazê-los”, critica Vítor Hugo Salgado. A trabalhar já a pensar no futuro, o autarca tem uma resposta para acolher as pessoas cujos testes dêem negativo, mas também para aqueles que sejam positivos e não possam estar nas suas casas. Para o efeito, já disponibilizou duas escolas secundárias que vão funcionar durante a pandemia como lar e residência de rectaguarda e que abrem na próxima semana.

Em Santa Maria da Feira, no distrito de Aveiro, os primeiros testes para idosos que vivem em lares do concelho arrancaram esta quinta-feira, mas Emídio Sousa, presidente da autarquia, lamenta a “falta de resposta” do SNS até agora para o resto da população em geral. “A nossa estratégia passa por criar condições nos próprios lares para uma separação entre eventuais positivos e não positivos e isso só funciona se nós conseguirmos perceber quem está infectado e quem não está”, afirmou.

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