Em tempos de quarentena, animais podem invadir as cidades – mas isso não é um problema

Além-fronteiras, os animais saltaram dos parques das cidades para as suas ruas desertas em busca de comida ou simples exploração do espaço. Por cá, o fenómeno ainda é pontual e não deve inspirar cuidados — que as autarquias dizem manter. “Não temos de nos preocupar com eles.”

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A pandemia global obrigou cidadãos de todo o mundo ao isolamento e deixou as cidades quase sem gente. Mas o cenário deserto nem sempre significa ausência de vida. Em vários municípios além-fronteiras, animais habitualmente confinados a parques urbanos têm sido avistados a passear nas ruas, em busca de comida ou simples exploração do espaço. Javalis nos passeios de Barcelona, pavões no centro de Madrid ou patos nas fontes de Roma. Por cá, os relatos de situações semelhantes são ainda pontuais, mas “é expectável que também cresçam”, antecipa Nuno Oliveira, presidente do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens (FAPAS). O fenómeno não deve, no entanto, suscitar qualquer preocupação: “Não há qualquer risco nem para os animais nem para as pessoas.”

Esta espécie de “migração” de animais selvagens para as cidades “não é nova”. Ainda há pouco tempo Nuno Oliveira lia relatos de javalis avistados em zonas urbanas de Gaia e da Maia. Há meses, porcos e cabras passeavam também pela zona oriental do Porto. Os motivos são outros agora, mas parecem igualmente inofensivos: com menos alimento dado por humanos, alguns animais vêem-se obrigados a passear pela sua sobrevivência. “Este silêncio geral que reina nas nossas cidades põe os animais mais à vontade. E eles andam em busca de alimento.”

É um efeito secundário do confinamento que o coronavírus impôs e, “pontualmente, pode até ser bom”. Porquê? “Porque não alimentar animais da cidade seria uma vantagem”, aponta o presidente da FAPAS, falando numa espécie de “férias” para os bichos: “Os animais selvagens encontram alimento. Não temos de nos preocupar com eles.”

Autarquias mantêm rotinas

Há dias chegou ao PÚBLICO um relato, revestido de preocupação: pavões, galos e patos estavam a voar para fora da Quinta da Alagoa, em Carcavelos, talvez por falta de alimento. A Câmara de Cascais diz não ter conhecimento deste caso, nem de outros animais a saírem fora do seu espaço nos parques do concelho, e assegura que a alimentação continua a ser providenciada por profissionais da Divisão de Gestão de Estruturas Verdes do município “como habitualmente”. 

Também em Lisboa, os animais que habitam nos parques e jardins da capital são normalmente alimentados pelos profissionais do município, diz a autarquia em resposta ao PÚBLICO. 

A Norte, no Parque da Cidade, Oriental ou Palácio de Cristal, na cidade do Porto, os colaboradores do município não costumam dar alimento aos animais. E assim continua a acontecer por estes dias. Os patos, gansos, pavões, peixes ou outros animais “sobrevivem pelos próprios meios, encontrando alimento nos recursos naturais existentes”, aponta a autarquia, informando que no Porto há 69 espécies de aves, sete espécies de anfíbios, sete espécies de répteis e seis espécies de pequenos mamíferos, sobretudo pequenos roedores. 

No Parque Biológico de Gaia as alterações na rotina de trabalho já têm semanas. As equipas que garantem a alimentação, limpeza, higiene e saúde dos animais foram divididas em dois turnos com rotatividade de cinco dias. O objectivo é garantir o bem-estar dos profissionais, porque deles depende o bem-estar da bicharada. Relatos de animais a saírem dos seus espaços, a autarquia não tem para já. 

Observar e descobrir mais

Lisboa e Cascais notam ainda que a alimentação sem critério e desordenada (sobras e restos de alimentos) nos espaços verdes “não é de todo aconselhável”, porque pode ter “um efeito perverso”: desadequada para os animais e factor de aparecimento de pragas. 

Nuno Oliveira aponta, a propósito, o que aconteceu há mais de duas décadas: “Temos excesso de gaivotas e pombas nas nossas cidades e isso deve-se a alimentação que lhes damos.” Para esse “problema grave”, os dias de urbes desertas podem também ser medicamento.

Um outro fenómeno poderá também contribuir para os relatos crescentes de gente a avistar animais que antes não via. Nomeadamente no que a aves diz respeito: “As pessoas estão mais disponíveis para observar. Eu tenho visto muitas aves na minha varanda. É natural que se observe mais do que antes.”

A ideia tem paralelo com um outro momento: quando em Portugal aumentou consideravelmente o número de observadores de aves, muitos diagnosticavam um crescimento das espécies no país. Mas Nuno Oliveira tem outra interpretação: “O que aconteceu foi simplesmente haver mais gente a observar e a descobrir. Acontece o mesmo agora.”