Erdogan abre os portões e Grécia responde com gás lacrimogéneo contra refugiados

Decisão turca para pressionar a União Europeia deixa milhares de pessoas num limbo.

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Polícia de fronteira grega usou gás lacrimogéneo para impedir a passagem dos refugiados e migrantes TOLGA BOZOGLU/EPA

Milhares de refugiados e migrantes juntaram-se num ponto da fronteira entre a Turquia e a Grécia depois de receberem a informação que lhes seria permitido passar – algo dito pelo Presidente Recep Tayyip Erdogan, que declarou este sábado que os “portões estão abertos”. Mas do lado grego a determinação em não deixar ninguém passar levou ao uso de gás lacrimogéneo pela polícia de fronteira.

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Milhares de refugiados e migrantes juntaram-se num ponto da fronteira entre a Turquia e a Grécia depois de receberem a informação que lhes seria permitido passar – algo dito pelo Presidente Recep Tayyip Erdogan, que declarou este sábado que os “portões estão abertos”. Mas do lado grego a determinação em não deixar ninguém passar levou ao uso de gás lacrimogéneo pela polícia de fronteira.

Alguns dos refugiados foram para cidades costeiras da Turquia para tentar sair para ilhas gregas como Lesbos, Quios ou Samos, mas a maioria juntou-se num ponto, aliás pouco antes usados, na fronteira em terra – jornalistas no local dizem que há relatos de terem sido levados por veículos turcos e o correspondente da revista alemã Der Spiegel na Grécia, Giorgos Christides, disse que havia pessoas no grupo que tinham granadas de gás lacrimogéneo e que estas eram de fabrico turco, dando azo à especulação de que as tinham recebido da Turquia para semear confusão na fronteira.

Erdogan disse que passaram 18 mil refugiados da Turquia para a Europa. Na fronteira em terra com a Grécia ou a Bulgária não havia registo de passagens e às ilhas chegaram três barcos, com o mau tempo no Mediterrâneo a não facilitar as viagens. “Isso não é simplesmente verdade”, disse fonte do Governo grego reagindo à declaração turca. O Executivo do conservador Kyriakos Mitsotakis acaba de sair de uma semana marcada por violência nas ilhas com protestos contra a construção de campos de refugiados fechados que as autoridades locais e os habitantes rejeitam.

Que se trata de uma utilização dos refugiados como arma da parte da Turquia não parece haver dúvidas, dizem tanto Giorgos Christides como o jornalista do New York Times Patrick Kinglsey. Enquanto isso, os refugiados continuam na fronteira à espera de passar. Alguns deixaram empregos mal pagos em Istambul para tentarem a sua sorte na passagem para a Grécia, partiram sem preparação nenhuma e concentram-se numa terra de ninguém. “Durante quanto tempo irá Erdogan manter este jogo?” questiona Patrick Kingsley.

É um jogo que poderá ter já algum resultado. Da Áustria, o chanceler austríaco Sebastian Kurz já veio dizer que não afasta a hipótese de encerramento da fronteira do país como durante a crise dos refugiados de 2015-16, e da Alemanha Norbert Röttgen, um dos candidatos à liderança da CDU (União Democrata-Cristã), o partido da chanceler Angela Merkel, disse que as declarações de Erdogan devem ser vistas como um “pedido de ajuda”. “A chantagem de Erdogan é na verdade um pedido de ajuda – a Turquia precisa da União Europeia e do Ocidente”, declarou à edição de domingo do jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung. Para Röttgen o gesto do líder turco não deve ser entendido como uma provocação mas sim como uma admissão de que a sua política de entendimento com a Rússia falhou e que precisa da ajuda dos europeus.

Turquia quer mísseis Patriot 

O envolvimento turco na guerra na Síria tem vindo a aumentar e os confrontos directos com as tropas do regime de Bashar al-Assad, apoiado por Moscovo, fizeram já dezenas de baixas entre os turcos – no último incidente, nesta semana, morreram 34 soldados turcos num bombardeamento aéreo, num total de 55 baixas no mês de Fevereiro.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Mevlut Cavusoglu, disse que Ancara quer que os Estados Unidos enviem mísseis Patriot para serem usados em Idlib, onde as forças turcas estão no último reduto dos rebeldes apoiados por si, e onde as forças de Assad levam a cabo uma ofensiva para recapturar o território, provocando uma enorme crise humanitária com a fuga de mais de 900 mil pessoas, das quais metade crianças. A Rússia acusa a Turquia de não ter cumprido o prometido e afastado os combatentes islamistas da antiga Frente Al-Nusra que estão entre os rebeldes. 

O objectivo turco, disse Cavusoglu, é travar os ataques contra civis. A Turquia tem mantido a fronteira fechada e quer evitar a entrada de mais refugiados no país, que já acolhe 3,6 milhões de sírios.

Nos Estados Unidos, o pedido turco levou a fricções entre o Departamento de Estado, que quer enviar os Patriot, e o Pentágono, que é contra por temer, segundo disse ao site Politico um responsável sob anonimato, que esta seja uma “acção estúpida com ramificações globais”.