Crónica

As 10 últimas crónicas de Vasco Pulido Valente

Vasco Pulido Valente, o historiador, escritor, ensaísta e comentador político português morreu esta sexta-feira no hospital em Lisboa onde estava internado. O escritor morreu aos 78 anos.

Diário 1

Gostava de ver a lista dos hóspedes portugueses que Isabel dos Santos recebeu no seu apartamento de Monte Carlo. Seria com certeza muito consolador. Claro que ela era o casamento perfeito: uma noiva rica sem país, um país velho sem dinheiro.

18 de Janeiro

A sra. Joacine Katar Moreira e o sr. Rui Tavares tiveram a oportunidade de discutir longamente as suas divergências e as suas concordâncias sobre a política de um partido inexistente chamado Livre. Claro que a discussão durou muito tempo mas talvez as duas personagens se consolem com a ideia de que, teoricamente, podiam ter levado uma eternidade. A origem e as condições em que foi criado não prometiam nada de bom para o Livre. De qualquer maneira, aquele pequeno bando de lumpen proletariat conseguiu fazer-se notado e (Deus sabe como) eleger a sra. Joacine. A estúpida classe média portuguesa acha graça a estas fitas e para não votar vulgarmente no PS vota no Livre. Tudo aquilo é um equívoco. O Livre não sabe o que é; e a média burguesia que vota nele também não. Não vale a pena comentar mais o caso.

Gostava de ver a lista dos hóspedes portugueses que Isabel dos Santos recebeu no seu apartamento de Monte Carlo. Seria com certeza muito consolador.

Claro que ela era o casamento perfeito: uma noiva rica sem país, um país velho sem dinheiro.

22 de Janeiro

Dizem agora muito mal de Isabel dos Santos, mas para mim ela é um génio: conseguiu entender-se no meio das baralhadas de dinheiro em que viveu toda a vida. O mal dela foi, como todos os parvenues, o de querer a respeitabilidade e a segurança. Investiu muito dinheiro nessa obra. Só não percebeu que a cada passo se tornava mais vulnerável e, portanto, mais fácil de apanhar.

Foi apanhada. Não lhe serviu de nada o apartamento em Monte Carlo, nem as colecções de arte, nem uma pose tardia de conspícua accionista do EuroBic e da Sonae. O centro da luta, como a origem da fortuna dela, sempre fora Luanda. Perdida em Luanda estava perdida em toda a parte.

23 de Janeiro

A judicialização da política americana é completa. Começou com Nixon, continuou com Clinton e agora chegou a Trump. A Câmara dos Representantes percebeu que pode derrubar um presidente quando ele não é a seu gosto. Claro que o presidente tem de dar uma ajudinha. Nixon deu uma grande ajuda com os seus grupos de assaltantes e de ladrões (ainda por cima incompetentes). Monica Lewinsky ia derrubando Clinton com a sua atenção à roupa que vestia para o encontrar. E agora Trump, com uns telefonemas indiscretos para a Ucrânia dos quais se tem tirado um espantoso partido. Não é que os presidentes americanos tenham tendência para degenerar; é que o sucesso das tentativas anteriores de impugnação entusiasma os senhores congressistas, mas, sobretudo, que os senhores congressistas têm um infalível aliado nos jornalistas da imprensa e da televisão. Não é por acaso que um dos convidados preferidos da CNN é o sr. Carl Bernstein, quando não é John Dean, o grande herói do Watergate por ter delatado o que se passava na Casa Branca.

A mim estas coisas fazem-me bem, lembram-me os bons anos e o imbecil que eu era nessa altura.


Diário 2

As duas facções do PSD odeiam-se de morte e lutam até à morte. O trágico é que nenhuma delas tem razão. E que as duas são encarnadas por personagens particularmente desagradáveis e, pior do que isso, banais.

11 de Janeiro

Eleições no PSD: os votos legais virão de uma lista de 30 mil pessoas; e segundo a interpretação que Rio faz do militante bem-comportado. É triste ver ao que chegou um grande partido nacional, que outrora governou o país.

A veia autoritária e salazarista do dr. Cavaco matou a militância. Quando ele saiu, o PSD de Sá Carneiro já era um cadáver.

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12 de Janeiro

Quando, no seu discurso, António Costa chegou ao delicado assunto dos rendimentos da classe média-alta, sentiu-se um arrepio de frio pela espinha da audiência. É muito bem feito. Andaram anos e anos a maçar o pessoal que queriam o dinheiro dos outros. Agora, nem o dos outros nem o deles. A promoção é livre, mesmo para lá do Presidente e dos juízes do Supremo. Vai ser um vê-se-te-avias.

Mas o Estado não tem dinheiro para essa tropa fandanga. De qualquer maneira, ninguém parece muito impressionado. Os portugueses só se impressionam com os factos consumados. Lá para Fevereiro, teremos greves do funcionalismo para uma vida. Não lhes servirá de nada, suponho eu.

13 de Janeiro

Marcelo disse em Moçambique que Portugal precisava de estar mais na moda do que está. Se ele insistir, não sei exactamente que espectáculos vai o Governo inventar para o satisfazer, mas parece que vamos ter uma nova época de louvaminhas ao antigo império colonial. Já estamos suficientemente longe de Salazar para nos podermos permitir estas brincadeiras. Vai haver exposições, colóquios, muitas viagens e muita “projecção nacional”. E o presidente Marcelo vai ter muito com que se entreter. É só isso que ele quer e esta é a única maneira como consegue pensar.

14 de Janeiro

As duas facções do PSD odeiam-se de morte e lutam até à morte. O trágico é que nenhuma delas tem razão. E que as duas são encarnadas por personagens particularmente desagradáveis e, pior do que isso, banais.

16 de Janeiro

Deus Nosso Senhor nos livre do partido Livre.

De resto, a situação é engraçada: a direcção política do partido não confia na deputada Joacine, a deputada Joacine não confia no partido. Só Rui Tavares podia ter inventado uma intriga destas.

17 de Janeiro

A quem possa interessar: a monarquia inglesa começou por ser uma acumulação de coroas que durante séculos incluía as coroas da Irlanda e da França, mas assentava na união da Inglaterra e da Escócia. Sendo esta a sua natureza, o rei não podia fazer senão casamentos dinásticos e obrigar a sua família a fazê-los também, nos pequenos reinos da Alemanha contemporânea ou na casa real da Dinamarca.

Quando o Reino Unido foi decretado as regras não mudaram: o Reino Unido precisava de um chefe de Estado e só podia ser um – o rei de Inglaterra.

E mais: o príncipe Harry é utilíssimo à propaganda da casa Windsor no Commonwealth. A rainha não faz favor nenhum em o deixar ir para o Canadá, ainda por cima com Meghan atrás.

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Diário 3

Ficámos a saber que em boa doutrina democrática se pode encomendar a morte do inimigo. Basta ter um míssil ou dois.

4 de Janeiro

Encontrei-o, aos 20 anos, n’O Tempo e o Modo e nunca mais deixámos de nos ver. São cinquenta anos. Durante grande parte desse tempo ele foi meu advogado e tirou-me de vários sarilhos, com autoridade mas com brandura. Se sobrevivi até agora devo-lhe em grande parte. Morreu hoje à tarde, com 76 anos, o meu amigo Júlio Castro Caldas, e eu soube pela televisão, que se limitou a passar um anúncio breve.

Júlio Castro Caldas, 19 de Novembro de 1943 – 4 de Janeiro de 2020.

Ministro da Defesa

Bastonário da Ordem dos Advogados

Esta é uma sóbria e solene descrição de uma vida. Mas para o Júlio terá sido o menos importante. Vi-o há pouco tempo: estava com uma barriga esplendorosa pelo que foi geralmente criticado. Tínhamos razão.

5 de Janeiro

O espectáculo do Presidente de uma república liberal gabando-se de ter mandado matar um general inimigo a milhares de quilómetros de distância é um pouco inquietante. Há muito tempo que o assassinato deixou de ser um método político corrente. Talvez que o último verdadeiramente importante fosse o de Júlio César.

Mas aparentemente não chocou por aí além a sensibilidade da elite americana. As objecções que se levantaram a este inaudito crime de Trump foram de oportunidade e de carácter constitucional. Não me lembro – e estive três dias à frente da televisão – de ouvir ninguém manifestar qualquer espécie de repugnância pelo acto em si. Ficámos assim a saber que em boa doutrina democrática se pode encomendar a morte do inimigo. Basta ter um míssil ou dois.

7 de Janeiro

Foi no ano distante de 2003, no princípio da Primavera eu fui almoçar ao Gambrinus – o doutor Mário Soares estava lá e deu-me os parabéns pelo meu artigo do dia. Como “parabéns” vindos daquela fonte eram raros, eu perguntei porquê. Era, obviamente, pelo artigo sobre a invasão do Iraque que eu condenava de raiz com o máximo de brutalidade. A coisa funcionava tanto melhor quanto era muito pequena. Soares deu-me logo dois argumentos mais decisivos. Primeiro, que o Iraque iria ficar envolvido em todas as querelas no Médio Oriente. Segundo, que os americanos e Israel dali em diante também se iriam inevitavelmente envolver atrás do que sucedesse no Iraque durante um bom par de anos.

De facto, pode-se dizer que a invasão do Iraque foi o maior erro político do Ocidente desde a II Guerra Mundial. Ligou dezenas de países e, sobretudo, ligou a Europa a uma política que não era a dela e, ainda por cima, cujas justificações eram falsas: não havia armas de destruição maciça no Iraque, nem atómicas nem outras. E, na prática, Saddam vivia nos seus palácios sob protecção americana.

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10 de Janeiro

O Orçamento foi hoje aprovado pelos votos a favor do PS e a abstenção do PEV, do PAN, do Livre, do PC, do Bloco e de três deputados do PSD Madeira. Mas, no meio do seu alívio, o governo devia pensar no efeito destas baixas combinações. Aceitar o regime de Centeno talvez não faça mal ao PS, mas pouco a pouco irá desacreditando o Bloco e o PC. Não se diz uma coisa e se vota outra impunemente. Mais tarde talvez sejam precisos o Bloco e o PC na sua integralidade e não teremos mais que dois grupos de mentirosos coxeando atrás de António Costa.


Diário 4

29 de Dezembro

As eleições para presidente do PSD provocaram algumas tentativas de análise entre os candidatos sobre o que era ou não era o partido. Todas erradas, porque por oposição ou imitação todas tomam por modelo o PSD de 1980 ou, pior ainda, a AD.

O PSD de 1980 tinha duas partes fundamentais. Uma delas vinha do marcelismo: os técnicos do planeamento e alguns intelectuais que a Igreja havia pacientemente educado. Isto deu ao partido os seus dirigentes e o seu chefe. Mas, no fundo, como dizia alegremente Carlos Macedo, o que fez a AD de 1980 foi a outra parte, o partido dos três Rs: a Reinstituição da PIDE, a Reconquista de Angola e a Ressurreição de Salazar. O povo português não estava muito entusiasmado com a revolução dos capitães. E o eleitorado que trouxe as vitórias de 1979 e de 1980 não se recomendava aos democratas. Mesmo dentro do partido havia uma campanha feroz contra o “adúltero” Sá Carneiro.

Agora, com a morte de Sá Carneiro, o bom tom obriga a esquecer estas origens. Escreve-se a história desse período como se não existisse Igreja Católica. Ora existia e tinha uma força a que nenhuma espécie de esquerda podia resistir. Assisti a muitas missas na primeira fila, sabendo o padre que eu era ateu, em que se tratava piedosamente de esclarecer os fiéis de que marxista equivalia a comunista. O slogan da campanha completava este cuidado com o caminho que seguiam os crentes: “partido socialista = partido marxista”.

Ainda hoje convinha comparar o mapa da prática activa do catolicismo com o mapa eleitoral do PSD. Seria talvez um bom método de evitar a torrente de asneiras que por aí se dizem.

31 de Dezembro

O Presidente da República foi no fim do ano à ilha do Corvo e aproveitou para discursar à pátria. E nesse discurso disse a António Costa que queria um executivo com estabilidade e, de preferência, orientado à esquerda. Tudo isto é muito compreensível.

Marcelo acabou o seu mandato com uma enorme popularidade que não se deve só aos beijinhos e às selfies. Deve-se principalmente ao sucesso do PS. O PS conseguiu fabricar a “geringonça”, isto é, uma maioria absoluta, fingindo que estava a recuperar da crise com uma política de esquerda. O espectro de Passos Coelho chegou para sustentar esta mentira durante quatro anos, o que evitou que o Presidente tivesse de intervir na vida política e, sobretudo, de coibir qualquer excesso da esquerda: o PS estava lá para isso e com a direita sabia ele como se arranjar. Pôde assim assistir tranquilamente em Belém à passagem do tempo e fazer o seu número cómico sem que ninguém lhe caísse em cima.

Mas hoje para manter esse suave arranjo precisa que o PS o ajude. Pior: precisa do concurso do Bloco de Esquerda. Só não percebeu que o PS nunca se aliará formalmente ao Bloco. António Costa tem de pensar na sua retaguarda e, como não há diferença entre Pedro Nuno Santos e Catarina Martins, ele tem de tomar cuidado com as misturas entre a esquerda do seu partido e a esquerda bloquista. Se ele não soubesse isto, Pedro Sánchez já lhe tinha explicado.

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Diário 5

14 de Dezembro

Entro suspeitoso nesta terrível quadra do Natal. Dantes, o Natal era uma festa que se celebrava entre portas, com a família. Hoje, é um espectáculo. Iluminações em que as autarquias gastam o que têm e o que não têm, carrosséis, coretos, pavilhões e até pistas de gelo. Será isto o que nós esperávamos da democracia?

15 de Dezembro

Como falta o dinheiro, há sempre o mesmo problema: ou se aumenta o défice, ou se aumenta a carga fiscal. Não há saída. Por isso, os políticos acabam por nos parecer todos iguais. Porque eles próprios não têm escolha e a vida pública tende para a imobilidade e para a encenação. O PS está a governar Portugal da única maneira como Portugal pode ser governado. E só pode ser substituído por um partido que governe como ele.

No constitucionalismo monárquico os “rotativos” inspiravam um ódio universal; não pelo seu radicalismo, mas pela sua parecença. Desta vez, o “Bloco Central” não pegou, porque a elipse do PC produziu o “arco da governação”. Mas hoje, que o CDS morreu, e ninguém se apresenta para o ressuscitar, e que o PC reentrou firmemente nos costumes constitucionais, só nos esperam governos do PS e da sua franja ou governos do PSD e da sua franja. Ambos democráticos, ambos defensores do Estado Social, e ambos promotores do mercado livre muito bem controlado; liberté, egalité, fraternité. Apesar das dificuldades e alguns soluços pelo caminho, os europeus parecem ter chegado ao fim da Grande Revolução.

18 de Dezembro

Ainda bem que o encontro entre Mário Centeno e Miguel Albuquerque foi desmarcado e que eles só se encontraram uns minutos em público, num “evento” inócuo. Afinal nem toda a gente endoideceu no PS. As negociações com o PSD foram grotescas. Se o PS tivesse arrebanhado aqueles três deputados, teria ficado a governar a Madeira, sem maioria na Assembleia Regional mas com maioria na representação nacional. Felizmente, Costa, que se julga um grande estadista, deu com a coisa a tempo.

19 de Dezembro

Trump foi destituído pela Câmara dos Representantes: todo o partido democrático votou a favor e todo o partido republicano votou contra. De qualquer maneira, a telenovela não acabou: os pais da Pátria não consideraram a hipótese de haver um presidente destituído contra a vontade unânime do senado. E, por isso, deixaram um vazio para Nancy Pelosi negociar o tipo de julgamento a que os democratas querem que Trump seja submetido. Não sei quanto tempo isto pode durar, mas pode durar séculos e adiar a resolução da peça até a impopularidade de Trump ser arrasadora.

Durante a discussão no Congresso, os republicanos compararam Trump a Jesus Cristo e os juízes dele a Pôncio Pilatos. Pior ainda, houve um congressista que comparou os democratas aos japoneses de Pearl Harbour. O ódio escorre. Basta ver a maneira como os locutores da CNN vão contando o caso – com um prazer pela queda presuntiva do homem e não só pela queda do político. Um desses senhores rebentava de gozo ao lembrar que Trump ficaria para sempre na história como um vilão. Se alguém julga que vai resolver alguma coisa com estes exercícios judiciais está muito enganado. O partido democrático ainda não percebeu que Trump existe por uma razão. Como Boris Johnson existe por uma razão. E como não serviu de nada tentar parar o “Brexit” com uma armadilha parlamentar, não servirá de nada tentar apanhar Trump numa armadilha constitucional. No fim dessas conversas, ele irá prevalecer, porque os conflitos da sociedade são reais, não são retórica.

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Diário 6

Só ficou o mundo digital e Meghan Markle. Todo aquele minucioso edifício terá de se desfazer para se tornar a fazer. Não se volta atrás a história.

7 de Dezembro

Peço aos meus colegas do jornalismo escrito e falado, mas sobretudo falado, que não se esqueçam sistematicamente de que “melhor” não é igual a “mais bem”.

10 de Dezembro

Qualquer pessoa gostava de ter os salários dos alemães, o serviço de saúde dos ingleses, as reformas dos franceses e os impostos dos suíços. Infelizmente, estas coincidências não são possíveis, mas António Costa anda a esforçar-se por tirar uma do chapéu. É claro que nunca vai conseguir e que a tentativa só vai assanhar os protestos e dar ao governo um arzinho de falsário e trapalhão.

Isto é ao mesmo tempo triste e inevitável. A miséria nacional vem em grande parte da comparação saloia que a propósito de tudo toda a gente faz entre Portugal e a Europa. Infelizmente, como dizia Salazar, o país é pobre e pobremente será obrigado a ir vivendo.

Quem se indigna com este diagnóstico severo vive nas nuvens e abre a porta a muita agitação desnecessária. É extraordinário o tom com que as “massas” falam dos seus direitos; parece que antes vieram da Ilha do Tesouro e que uma fortuna lhes foi roubada na véspera por um tirano sanguinário. Sucede que não há ilha nem fortuna.

11 de Dezembro

Por esta época a ministra da Cultura ou quem faz a sua vez cai sempre numa armadilha. Se não se quer tornar um árbitro das elegâncias tem por força de distribuir o dinheiro para o teatro por critérios de autoridade e, lamentavelmente, deixar de fora uma boa parte dos fregueses. Costa deu este ano mais 18 milhões para o peditório, mas não há milhões capazes de satisfazer aquela fome.

Este ano, como de costume, apareceram algumas pindéricas manifestações de indignação a propósito de uns miríficos “cortes” na cultura. O problema do teatro é este: arranjado um espaço qualquer que se denomina “o palco” ou “a cena”, tudo o que se passe lá em cima é “arte” ou “cultura”. Quem dirá que não? Um político, acidentalmente promovido ao governo? Era só o que faltava.

Agora, o estrondo da indignação artística até chegou ao parlamento via BE. Não façamos caso.

12 de Dezembro

Boris Johnson ganhou. Porquê? Porque sustentou uma convicção até ao fim e fez tudo o que era necessário para ganhar. Votou contra May. Votou com May. Tomou o partido por cem mil votos. E, quando as “notabilidades” se revoltaram, pôs na rua as “notabilidades”. Perdeu várias vezes no parlamento até poder desembaraçar-se daquele parlamento e convocar eleições. E chegou ao fim com uma direcção e um objectivo – “Brexit”. Mereceu o seu lugar na história do Reino Unido. Daqui em diante, é preciso perceber uma coisa: o “Reino Unido” não é uma velha tradição dos ingleses, dos galeses, dos irlandeses ou dos escoceses. É uma entidade decretada pelo poder imperial no princípio do século XIX. Até aí, só existia a justaposição das coroas na cabeça de sua majestade britânica. Mas com o colapso do prestígio dessa majestade e as mudanças do mundo, só ficou o mundo digital e Meghan Markle. Todo aquele minucioso edifício terá de se desfazer para se tornar a fazer. Não se volta atrás a história.


Diário 7

A menina Greta veio agora à vela de Nova Iorque. E como tinha de fazer escala em Lisboa, provocou, naturalmente, uma crise de nervos nacional.

30 de Novembro

A menina Greta veio agora à vela de Nova Iorque, para não sujar o planeta e para convencer os milhões de pessoas que todos os dias atravessam o Atlântico que esse é o método mais prático e seguro de viajar. A propósito, o destino da menina Greta é Madrid.

E como tinha de fazer escala em Lisboa, provocou, naturalmente, uma crise de nervos nacional. O senhor Presidente da República explicou em pormenor por que razão não tencionava recebê-la com muitas selfies e um discurso no Cais de Alcântara. O senhor presidente da Câmara de Lisboa já prometeu oratória e beijinhos. O senhor ministro do Ambiente teve um espasmo de alegria e virtude. E não há quem os agarre.

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1 de Dezembro

O 1.º de Dezembro é uma data curiosa. Começou por ser o emblema da casa de Bragança: um emblema dinástico e não um emblema nacional. Foi também, depois, o hino do constitucionalismo monárquico, escrito por D. Pedro IV num acesso de lirismo imperial. Durante a República tornou-se numa festa da resistência monárquica. Hoje em dia, não se sabe porquê, o Estado democrático resolveu juntar-lhe o hino da Patuleia, que 35 bandas tocaram misteriosamente nos Restauradores.

Claro que Marcelo não se meteu nesta trapalhada: ajuizadamente entrou mudo e saiu calado nas cerimónias oficiais. Deixou a idiotia retórica a Siza Vieira e Fernando Medina.

2 de Dezembro

A NATO perdeu todo o sentido, desde que Trump foi eleito para a presidência dos Estados Unidos e declarou que o seu principal interesse estava no Pacífico. E está: a Rússia ainda tem uma máquina de guerra capaz de intimidar qualquer um, mas tem uma economia frágil, atrasada e muito pequena – por esse lado, não inquieta ninguém. Quando caiu o muro de Berlim, caíram também os argumentos que justificavam uma aliança da América com a Europa. Para a América, essa aliança era só uma despesa; para a Europa acabou por ser a condição da sua prosperidade. Durante o império soviético a Europa viveu tranquila sob o guarda-chuva americano e hoje nem sequer gasta 2% do PIB em sua defesa.

Não admira que Trump ande por aí a fazer desacatos. Os problemas que ele tem com a Ucrânia são outros. E não passa pela cabeça de Putin arrasar o mundo pelo prazer de mandar na Bulgária ou na Letónia; nem sequer pelo prazer de mandar num bocado da Ucrânia. A arrogância da América e da Rússia face à Europa assenta nesta verdade primária: a Europa é uma personagem gratuitamente acrescentada ao quadro.

4 de Dezembro

Os candidatos à “liderança” do PSD insultaram-se entusiasticamente mostrando a mediocridade de todos eles – o que se previa. O que não se previa é que, discutindo o partido com um ar sabedor, nenhum deles se tivesse referido à Igreja Católica Apostólica Romana. É como se ela nunca tivesse existido, nunca se tivesse importado com as peripécias do casamento de Sá Carneiro e não fosse, nos primeiros anos do regime, uma força decisiva em qualquer eleição.


Diário 8

16 de Novembro

À velocidade com que fala, é impossível que Catarina Martins pense no que diz.

17 de Novembro

Num país onde 20 por cento da população está abaixo do limiar de pobreza, o Presidente da República preocupa-se com os 500 homeless (ómelésses, como lhes chamava uma amiga minha) de Lisboa. Fica-lhe bem. Quando me lembro de um inverno em Washington, em que havia criaturas congeladas pelas valetas, não tenho coração para o criticar. Mas não consigo deixar de pensar que estes desventurados são “os pobrezinhos do senhor Presidente”.

Não me repugna a caridade como ao militante médio do PCP. Mas neste caso, em que se junta o pitoresco de que os media gostam ao sentimentalismo de telenovela, não consigo evitar um ligeiro arrepio. A mobilização das instituições da República para os sem-abrigo não me parece uma grande causa.

18 de Novembro

A urgência de pediatria do hospital Garcia de Orta, em Almada, fechou porque não tem pediatras. É inevitável que alguém com 20 e poucos anos e uma especialização não queira viver em Almada e trabalhar para o Garcia de Orta. O mercado livre da União Europeia também é um mercado livre de trabalho.

19 de Novembro

O senhor Pinto Luz da Câmara de Cascais, que pretende ser o próximo presidente do PSD, prometeu “ganhar”. Esta mania de “ganhar” instalou-se no partido com o adorável Cavaco Silva em meados dos anos 80. Mas não passa de uma gabarolice. Quanto mais se diz que o PSD quer ganhar, mais ele perde.

20 de Novembro

Lamento não acompanhar o Presidente da República e a “esquerda” indígena na uníssona homenagem a José Mário Branco. Ainda me lembro vividamente do PREC, de que esta personagem foi um dos rostos mais militantes e visíveis. A gente que hoje se abriga à sombra da social-democracia e do Estado de Direito não imagina o que lhe teria sucedido em 1975, a título de ser “fascista” e membro da “reacção” para a qual existia “uma só solução”: o fuzilamento. “Uma só solução, fuzilar a reacção”, uma palavra de ordem que se ouvia incessantemente na rádio entre baladas deste benemérito.

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21 de Novembro

A única resposta possível deste governo à manifestação de hoje, em frente à Assembleia da República, é despedir o ministro Eduardo Cabrita. O governo de António Costa é responsável por ter dado às forças de segurança motivos plausíveis para descer à rua. E também é responsável por ter permitido que um aventureiro político se tivesse apropriado de um compreensível descontentamento para fins obscuros. O PS e o PSD, ou seja, os partidos constitucionais, foram os únicos que não estiveram no sítio onde deviam estar: cá fora, na escadaria.

21 de Novembro, à noite

Os peritos parecem concordar que o último grande investimento nas forças de segurança foi em homenagem ao Campeonato Europeu de futebol de 2004, que, se bem me lembro, excitou particularmente o doutor Marcelo Rebelo de Sousa. O que isto diz sobre a saloiice portuguesa é aflitivo.

22 de Novembro

O CDS não resistiu a ir atrás do Chega, na forma do deputado e comentador desportivo Telmo Correia. Deus Nosso Senhor os salve, que mais ninguém pode.


Diário 9

Vão ser admiráveis as discussões parlamentares sobre os princípios teóricos da “progressão” e da “retenção”. Tenho pena de não assistir e mais pena ainda de não participar. Ia ser muito divertido.

10 de Novembro

“Eu, Luís Montenegro, católico, português, resolvi dedicar os próximos doze anos da minha vida a salvar a Pátria e prometo, pela alma da minha mãezinha, ganhar as próximas eleições, o governo de Portugal, as eleições seguintes, mais quatro anos de governo, o restabelecimento do monopólio da pimenta, a tomada de Ormuz, a descoberta da relatividade, e a minha entrada triunfal na lista da Forbes como a maior fortuna do mundo”.

Graças a Deus pelo PSD.

11 de Novembro

Desde o I Governo constitucional que os grandes partidos, interpretando erroneamente a morte da I República, se preocuparam em pôr uma rolha regimental aos pequenos. Isto foi mais visível à esquerda do que à direita por duas razões. Primeiro, por causa das excitações revolucionárias de Abril. E, segundo, por causa do carácter doutrinário da esquerda: lembremos que o Partido Socialista só renunciou ao marxismo programático nos anos 80 e que sofreu de facto uma cisão, a dos saudosos Aires Rodrigues e Carmelinda Pereira; e que também o PC teve de se haver com vários “autênticos partidos do proletariado”.

Claro que, em boa doutrina, os pequenos partidos parlamentares deviam ter o tempo que quisessem. Mas não se trata disso. Nem do imaginário perigo da extrema-direita. Do que se trata é de anular dois deputados do PS ou do PSD que amanhã resolvam constituir-se num partido. Nenhum dos partidos do regime – e conto o Bloco entre os partidos do regime – poderia viver sob tal ameaça.

Desta perspectiva, o que sucedeu agora foi uma aberração. Ferro Rodrigues lá sabe.

13 de Novembro

O senhor primeiro-ministro decidiu por sua alta recreação que não haveria “chumbos” até ao 9º ano de escolaridade. A isto se chama, no idioma “eduquês”, evitar a “retenção”. Não me pronuncio sobre o assunto, quanto mais não seja porque neste ponto já errei várias vezes e não há certezas absolutas. Noto apenas que os argumentos que valem para o 9º ano também valem para o 12º, a licenciatura, o mestrado e o doutoramento. Mas António Costa também remeteu Rui Rio para a bibliografia. Parece que o Conselho de Ministros, como José Sócrates, foi a Paris estudar sociologia da educação. E quer transformar a Assembleia da República num seminário.

Vão ser admiráveis as discussões parlamentares sobre os princípios teóricos da “progressão” e da “retenção”. Tenho pena de não assistir e mais pena ainda de não participar. Ia ser muito divertido.

14 de Novembro

A ortodoxia política pegou com pinças no episódio da mãe que abandonou o filho num ecoponto. Nos dias que vão correndo, toda a gente sabe que este género de histórias só são aproveitadas pelo Correio da Manhã e pela televisão de cabo. E que as pessoas sérias não gostam de “explorações mediáticas”.

Mas, no meio do barulho, lembrei-me d’Os Miseráveis e de como esse panfleto foi politicamente importante para o movimento republicano francês. E de como depois foi copiado em abundância por Eugène Sue (Les Mystères de Paris), por Ponson du Terrail (Les Drames de Paris) e até pelo nosso Camilo (Os Mistérios de Lisboa). Para bem ou para mal, o género ficou: a burguesia gostava de saber o que se passava nesse escuro mundo que existia ao lado dela. E ainda hoje o fenómeno se replica com o jornalismo popular. A direita percebeu isto, e a esquerda não.


Diário 10

Bem sei que a cultura republicana está a desaparecer perante a cultura identitária mas, para a minha idade, um cidadão continua a ser uma entidade abstracta, sem saias, sem cor e sem gaguez. Todo este espectáculo me repugna e me enfurece.

2 de Novembro

O programa do governo desapareceu sob as saias do assessor de Joacine e a política desapareceu sob a pessoa de Joacine ela própria. Bem sei que a cultura republicana está a desaparecer perante a cultura identitária mas, para a minha idade, um cidadão continua a ser uma entidade abstracta, sem saias, sem cor e sem gaguez. Todo este espectáculo me repugna e me enfurece.

Quem leu as dezenas de artigos de propaganda que Rui Tavares escreveu tentando convencer as pessoas que o partido, absurdamente chamado Livre, era a esquerda europeia não pode deixar de ficar embasbacado. O submundo das querelas radicais continua a fervilhar como uma infecção, mesmo quando nós não damos por isso.

3 de Novembro

O debate entre os chefes dos partidos espanhóis foi surpreendentemente calmo e bem-educado. Deu muito a pensar à direita. E muitíssimo mais à esquerda. O Podemos atacou constantemente o PSOE pela simples razão de que quer ir para o governo com ele e o PSOE não quer (e não só por causa das divergências a respeito da Catalunha).

Em Portugal acontece exactamente a mesma coisa: o Bloco quer uma aliança, como eles dizem, “estável” e “a prazo” com o PS, isto é, para a legislatura, e o PS não quer.

O que Pedro Sánchez e António Costa temem acima de tudo é que a social-democracia europeia, vigente nos seus partidos, seja invadida e substituída pelos radicais à sua esquerda. Não sei bem o que se passa em Espanha. Em Portugal é óbvio que não há nenhuma diferença entre a direcção do Bloco e a esquerda do PS. Por isso Costa promoveu a direita do partido e a gente da sua confiança, e deixou Pedro Nuno Santos dependente da sua graça pessoal. Infelizmente, com o tempo, suspeito que o Podemos e o Bloco vão ganhar: o radicalismo urbano tendeu sempre a chegar às últimas consequências.

6 de Novembro

Duas técnicas da Segurança Social, seja isso o que for, estão acusadas de tirar duas filhas à mãe. Essa mãe era vítima de violência doméstica e fez, em protesto, vinte e seis dias de greve de fome (vinte e cinco chegam para matar o adulto médio) e ainda hoje só pode ver as filhas duas vezes por semana: aparentemente, o grande crime dela, que não se provou, foi ter abandonado a criança mais velha, de quatro anos, num café.

Uma pessoa pasma que dois funcionários administrativos – é isso que em última análise as duas “técnicas” são – possam separar uma família ao seu arbítrio pelo simples exercício de um poder que o Estado lhes conferiu. Mas podem. O jornalismo que por aí se esfalfa a examinar a justiça portuguesa nunca deu por esta barbaridade, que se instalou calada e burocraticamente. Quando a descobri, num noticiário da SIC, tremi de medo. Um dia destes aparece-me um “técnico” em casa, com um papel na mão, declara-me incapaz e mete-me num asilo; nenhum dos nossos políticos vai achar que se tratou de uma violação dos direitos do homem. A Constituição que se lixe.

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