Editorial

O “nim” do papa Francisco

Neste mundo em que se tem acentuado a visão bicolor talvez fosse melhor colocar alguma esperança no cinzento.

Quando se esperava que do Vaticano saísse fumo branco em relação a temas como o celibato obrigatório dos padres ou a abertura para o diaconado feminino, o que os sectores mais progressistas da Igreja viram foi fumo negro.

De facto, Francisco decidiu ignorar o apelo que lhe tinha sido feito pelos bispos sul-americanos de permitir a ordenação sacerdotal de homens casados como forma de responder à falta de padres em várias regiões do globo, nomeadamente na Amazónia. Os católicos dessas regiões continuarão afastados dos sacramentos essenciais para se ser um bom crente, porque o Vaticano não está disponível para revogar uma norma que não é um dogma de fé.

Para muitos crentes e também para muitos não crentes, a Igreja vai igualmente continuar a mostrar a sua face mais conservadora numa questão que se prende com direitos humanos, a menorização a que vota as mulheres. Mais uma vez, não lhes foi aberta a possibilidade de chegarem a diaconado.

Mas neste mundo em que se tem acentuado a visão bicolor, quando afinal, na maior parte das vezes, as coisas não são a preto e branco, talvez fosse melhor colocar alguma esperança no cinzento.

Já no passado a Igreja Católica nos deu exemplos que as mudanças podem acontecer mesmo quando parece que as portas se fecham. Veja-se a questão dos contraceptivos. Nos finais dos anos 60, em plena revolução sexual, muitos católicos esperaram que a encíclica Humanae vitae explanasse a vontade de Paulo VI de eliminar os obstáculos da Igreja em relação ao uso dos métodos artificiais de controlo da natalidade. Não aconteceu e ainda hoje os sectores mais conservadores continuam a servir-se desta encíclica para se reafirmar contra a pílula e contra a inseminação artificial.

Hoje muitos consideram que Paulo VI optou por não dividir a Igreja e deixar que a história seguisse o seu rumo. Talvez não estivesse a contar que depois dele viesse um papa tão conservador como João Paulo II, mas hoje é certo que um padre a pregar do altar contra a pílula ou católicos muitos preocupados com esse pecado se arrumam no capítulo das bizarrias.

Parece ser mais certo que como Lenine, e com o mesmo sentido de inexorável do avanço da história dos comunistas, Francisco tenha optado por dar um passo a atrás para poder dar dois passos à frente. Um “nim” que ainda não fecha nenhuma porta, embora ainda não tenha aberto aquelas que muitos esperavam ver abertas.

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