OMS decide esta quinta-feira se novo vírus é emergência global de saúde pública

A Organização Mundial da Saúde diz que, até agora, só há provas de que a transmissão de pessoa para pessoa ocorre em contactos próximos, como familiares ou em ambientes de cuidados de saúde.

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Numa rua em Pequim, na China WU HONG/EPA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) adiou para esta quinta-feira a decisão sobre se o novo vírus da pneumonia é ou não uma emergência global de saúde pública. Durante esta quarta-feira, o comité de emergência da OMS esteve reunido em Genebra, na Suíça, mas Tedros Adhanom Ghebreyesus​ – director-geral da OMS – anunciou ao início da noite que ainda era preciso uma maior deliberação sobre os dados existentes. Se for declarada emergência global de saúde pública, será a quinta vez que isso acontece nos últimos anos. Já estão confirmados mais de 540 casos desta pneumonia viral com origem na China – um novo coronavírus (designado por 2019-nCoV) – e 17 mortes.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) adiou para esta quinta-feira a decisão sobre se o novo vírus da pneumonia é ou não uma emergência global de saúde pública. Durante esta quarta-feira, o comité de emergência da OMS esteve reunido em Genebra, na Suíça, mas Tedros Adhanom Ghebreyesus​ – director-geral da OMS – anunciou ao início da noite que ainda era preciso uma maior deliberação sobre os dados existentes. Se for declarada emergência global de saúde pública, será a quinta vez que isso acontece nos últimos anos. Já estão confirmados mais de 540 casos desta pneumonia viral com origem na China – um novo coronavírus (designado por 2019-nCoV) – e 17 mortes.

Na conferência de imprensa esta quarta-feira ao início da noite, Tedros Adhanom Ghebreyesus​ começou por dizer que esta é uma situação “emergente e complexa” e elogiou a apresentação detalhada dos dados feita pela China. Apesar de afirmar que houve “uma excelente discussão” durante a reunião desta quarta-feira, referiu que é “preciso mais informação”. “Decidi pedir ao comité de emergência para se reunir outra vez amanhã à tarde [esta quinta-feira] para continuar a discussão”, disse.

Para o justificar, o director da OMS assinalou: “A decisão sobre se é ou não declarada uma emergência global de saúde pública é algo que levo extremamente a sério e que só estou preparado para fazer com uma consideração apropriada de todas as provas.”

Por sua vez, Mike Ryan (director do programa de emergência da OMS) frisou que as acções de saúde públicas não precisam de começar com a declaração de emergência global de saúde pública. “Essas acções já estão bem encaminhadas.” Alertou ainda que a prioridade é encontrar a origem de como o vírus está a ser transmitido entre as pessoas. “A questão principal é limitar a transmissão de humano para humano.”

Já Maria Van Kerkhove, chefe interina da Unidade de Doenças Emergentes da OMS, informou ainda que há provas de que ocorre a transmissão de pessoa para pessoa durante contactos próximos, como entre familiares ou em ambientes de cuidados de saúde. “Isto não é algo inesperado numa doença respiratória. Mas não temos qualquer prova de que ocorra uma transmissão posterior como de terceira ou quarta geração”, indicou, acrescentando que também não se observou um nível secundário de transmissão em países para onde o vírus foi exportado. Ou seja, de uma pessoa infectada que viajou da China para outro país e aí tenha ocorrido uma nova infecção.

De acordo com a OMS, uma emergência global de saúde pública define-se como “uma situação excepcional que é determinada por constituir um risco público de saúde para outros Estados devido à transmissão internacional da doença e por, potencialmente, necessitar de uma resposta coordenada a nível internacional”. Tudo isto significa que, nesse caso, a situação é considerada grave, repentina, inesperada e requer uma acção imediata a nível global.

A investigação oficial desta pneumonia viral começou a 31 de Dezembro de 2019, quando a representação da OMS na China foi informada de casos de uma pneumonia de causa desconhecida. Esses casos tinham sido detectados na cidade de Wuhan, na província chinesa de Hubei.

Logo no dia seguinte foi encerrado um mercado de peixe e animais vivos em Wuhan, onde o surto começou por ser detectado, segundo a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan. As investigações preliminares tinham revelado que alguns casos foram diagnosticados em trabalhadores ou visitantes que frequentaram o mercado, “onde se vendem ilegalmente animais selvagens”, assinala a agência Reuters. A OMS refere mesmo que é provável que a fonte deste surto seja animal. A comercialização de aves vivas e animais selvagens na cidade foi proibida.

A 9 de Janeiro foi registada a primeira morte relacionada com o surto: um homem de 61 anos com outros problemas de saúde associados. E a 10 de Janeiro as autoridades anunciaram que o vírus era um novo coronavírus, um grupo de vírus que causa infecções respiratórias em seres humanos e animais e é transmitido por via aérea (através de tosse ou espirros) ou por contacto físico. Se alguns coronavírus resultam só numa constipação, outros podem causar doenças respiratórias mais graves como a síndrome respiratória aguda grave (SARS).

Andrew Rambaut, biólogo evolutivo da Universidade de Edimburgo (Escócia), citado numa notícia na revista Science, publicou no seu Twitter que este novo coronavírus tem uma semelhança com a SARS em cerca de 89%. O último surto de SARS começou também na China e, entre 2002 e 2003, registaram-se mais de 8000 casos e 800 mortes em todo o mundo.

As autoridades sanitárias chinesas também confirmaram que o novo coronavírus é transmissível entre humanos. Os sintomas desta pneumonia incluem febre, tosse, falta de ar ou dificuldades em respirar. Citado pela BBC, Li Bin – vice-ministro da Comissão Nacional de Saúde da China – disse em conferência de imprensa que há provas de que a doença foi “principalmente transmitida através do tracto respiratório”, mas que ainda não se conseguiu saber qual é a sua origem exacta. O jornal britânico The Guardian também destaca que são as pessoas mais pobres que correm um maior risco de serem infectadas.

Uma estimativa: mais de 4000 casos

Na China, já há casos em grandes centros populacionais como Xangai, Macau, Hong Kong e Pequim. A 13 de Janeiro, anunciou-se o primeiro caso fora do país: foi detectado na Tailândia. Entretanto, foram identificadas pessoas infectadas na Tailândia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan e nos Estados Unidos. A passagem do vírus para os Estados Unidos foi identificada num homem com 30 anos residente no estado de Washington após ter regressado de uma viagem a Wuhan, de acordo com os Centros para o Controlo e Prevenção das Doenças dos EUA.

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Já há mais de 540 casos de pessoas infectadas (incluindo profissionais de saúde) e foram registadas 17 mortes. Com base nas viagens para Wuhan, um grupo de cientistas do Imperial College de Londres estimou que haja já 4000 casos de pessoas infectadas com o novo coronavírus em Wuhan.

Há também algum receio de que esta pneumonia viral se possa espalhar ainda mais durante as festividades do Ano Novo Lunar chinês, que começa na próxima sexta-feira (24 de Janeiro). Esta é uma altura em que milhões de chineses viajam devido às celebrações. As autoridades do país já apelaram para as pessoas não viajarem para e a partir de Wuhan. “Basicamente, não vão para Wuhan. Já os que estão em Wuhan não saiam da cidade, por favor”, pediu Li Bin. As autoridades chinesas também já assumiram que o país está agora “no seu estado mais crítico” de prevenção e controlo do vírus.

A última vez que a OMS declarou uma emergência global de saúde pública foi em 2019 para o surto do vírus do ébola, que ainda está em curso na República Democrática do Congo e já matou mais de 2000 pessoas. A OMS também considerou ainda como emergências de saúde pública de nível internacional as seguintes epidemias: em 2016, o vírus Zika; em 2014, o anterior surto de ébola na África Ocidental e que matou mais de 11.000 pessoas entre 2014 e 2016; em 2014, a poliomielite; em 2009, a gripe suína (o vírus H1N1).