Opinião

A crise climática é uma crise política

Entre acreditar em alterações climáticas e defender acções concretas que permitam resolvê-las há ainda muita diferença. A crise climática é uma crise política e não estamos todos do mesmo lado.

Existe uma linha que vai ganhando espaço ao mesmo tempo que o movimento pela justiça climática ganha força: a de que a resolução da crise climática não é política, que é técnica e até mesmo “anti”-política. No entanto, as linhas políticas que hoje dividem as sociedades coincidem com as que dividem os campos de acção no que diz respeito às alterações climáticas: o nosso posicionamento político é o factor mais determinante no que diz respeito à nossa posição no combate pelo futuro.

Desde acreditar em alterações climáticas até defender políticas que as possam resolver há um enorme hiato acompanhado em todos os momentos pela visão do mundo. Segundo o artigo “Meta-análise dos determinantes e desfechos da crença em alterações climáticas”, de Matthew Hornsey, o factor demográfico mais importante para acreditar em alterações climáticas é a filiação partidária. Depois deste factor, a ligação entre acreditar em alterações climáticas e ser-se mais progressista e entre negá-las e ser-se conservador é também forte. Outros factores como idade, educação, rendimento, etnia e género têm efeitos mais residuais para explicar esta crença. Se este factor explica tudo? Não. Apesar de tudo, o mundo não é linear e determinista e, portanto, temos pessoas de esquerda que não acreditam em alterações climáticas e pessoas de direita que acreditam.

A teoria da Cognição Cultural sugere que as percepções que as pessoas têm acerca dos riscos que existem é muito influenciada pela sua visão acerca de como a sociedade funciona e como devia funcionar. Pessoas com valores mais hierárquicos, que defendem o status quo e a estratificação da sociedade, tendem a desprezar e a ignorar riscos associados a indústrias ou actividades económicas, e mais ainda a um sistema de produção global como é o capitalismo, enquanto pessoas que propõem valores igualitários tendem a aceitar a existência destes riscos. Crenças acerca da ciência, intuições e variáveis baseadas em factos medidos são moldadas ou pervertidas por factores ideológicos e pela própria mundivisão, buscando sempre o conforto de confirmar ou refutar aquilo que colide com a maneira como pensávamos antes de processarmos nova informação ou sermos confrontados com novos riscos. Segundo Hornsey, as três correlações mais significativas para o negacionismo das alterações climáticas são “ideologias de mercado livre”, “valores culturais hierárquicos” e “valores culturais individualistas”.

No entanto, entre acreditar em alterações climáticas e defender acções concretas que permitam resolvê-las há ainda muita diferença: é mais fácil declarar uma intenção do que agir de acordo com essa intenção. De acordo com o artigo de 2015 “Tendências internacionais em percepções públicas sobre alterações climáticas ao longo do último quarto de século”, há enorme relutância política em aprovar legislação climática que possa ser recebida desfavoravelmente por parte dos eleitorados e, em particular, pelos poderosos interesses económicos que dependem da economia dos fósseis. Há uma crescente polarização política à volta do tema, nos Estados Unidos com o Partido Republicano e, depois do Acordo de Paris, em boa parte da Europa e na Austrália o negacionismo político organizado subiu à volta da direita conservadora e da extrema-direita, alimentadas por petroestados como a Rússia, cuja elite tem muito a perder com uma transição energética e económica não planificada a nível internacional.

Ultrapassada (teoricamente) a questão de acreditar em alterações climáticas e de apoiar políticas públicas climáticas, põe-se a questão de “que políticas climáticas adoptar”, sendo que a maioria daquelas que hoje são apresentadas como resposta à mobilização social são ineficazes ou provocam mesmo um agravamento das emissões. Uma vez mais a visão do mundo, a ideologia e a política colocam-se no meio do problema. A incerteza sobre onde se deve colocar o foco, nos governos ou nas empresas, na sociedade como um todo ou no indivíduo são altamente condicionantes de políticas eficazes: boas práticas ambientais individuais como a reciclagem são percepcionadas como importantes no combate às alterações climáticas e, no entanto, têm um impacto muito reduzido nas mesmas. O apoio às políticas climáticas depende daquilo que as pessoas entendem como eficaz, que por sua vez depende da sua visão política: indivíduos ou grupos que se foquem mais em mudanças pessoais em termos de opções de comportamento, consumo ou investimento tendem a apoiar muito menos políticas climáticas de âmbito sistémico, enquanto as pessoas que apoiam mudanças colectivas tendem a apoiar políticas climáticas que mudem o sistema. 

Sofrer os impactos das alterações climáticas leva a um aumento acentuado do apoio a políticas climáticas drásticas, mas esta realidade acrescenta ainda outro problema de injustiça a uma realidade já de si complexa: há um desfasamento temporal entre os impactos das alterações climáticas e as emissões de gases com efeito de estufa que as originam e há um desfasamento geográfico e social entre os locais e países responsáveis pelo problema e aqueles responsáveis pelas emissões. Os países mais pobres estão muito mais expostos no curto prazo aos efeitos das alterações climáticas, enquanto os países mais ricos, cujas economias estão muito mais ligadas aos combustíveis fósseis e que beneficiam das receitas dos mesmos, estão muito mais protegidos (em particular as elites desses países, cujo peso político nos processos decisórios e direcção política das forças mais conservadoras e centristas é determinante).

Sobre todos estes problemas, existe finalmente a realidade da integração de toda a política global: o capitalismo é uma ideologia orgânica, com hegemonia física garantida por um aparelho institucional e legal que defende o status quo e um aparelho coercivo e violento para garanti-lo, e um aparelho cultural avassalador sobre a educação, a comunicação, a ciência e o conhecimento. A divisão histórica entre esquerda e direita, do campo social contra o campo do capital, foi empurrada drasticamente para a direita. Dentro da maior parte dos espaços políticos do mundo, a hegemonia capitalista torna particularmente difícil resolver um problema que tem solução, porque o espaço das ideias alternativas e das políticas climáticas eficazes está em grande medida ocupado pelo capitalismo e pelo seu status quo, não só enquanto sistema produtivo, mas enquanto forma de pensar e viver. 

No entanto, enquanto as visões do mundo vão travando a acção eficaz que implica mudar drasticamente o sistema produtivo e cortar 50% das emissões na próxima década, a crise climática vai-se tornando a crise orgânica do capitalismo e a força bruta do aparelho coercivo deste é ridícula quando comparada com a força bruta do colapso ambiental. A crise climática é uma crise política e não estamos todos do mesmo lado.

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