Crónica

Sara não pertence a Tires

Não sabemos as dores que Sara teve no parto feito com as suas mãos e a sua força. Sozinha num passeio. Não sabemos a dor que Sara teve na despedida ao Salvador. Não sabemos. Não sabemos nada dos outros, os que estão na outra margem. Mas devíamos saber.

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daniel rocha

Era um vaivém. Batas brancas, batas verdes. Camas, macas, botijas, seringas, portas a abrir, portas a fechar. No patamar das escadas a cor era cinzenta. Estava frio. Os bancos de madeira rija estariam ali desde o corta-fitas dos anos 50. Duas portas. Pediatria e bloco de partos. A porta da pediatria abre de rompante e uma enfermeira voa pelas escadas. Lá dentro, um grito agudo de mulher que suplica ao médico que lhe salve o filho. Fico atónito. A transpirar. Branco, talvez.

Ali, sozinho naquele espaço frio. Olho as paredes e não há uma cruz de Cristo, uma fotografia de uma criança a rir, um altar improvisado. Só um relógio que conta o tempo. O tempo da espera longa. Comecei a falar com o meu pai. Sempre fui fraco a pedir ao Senhor. Não sei como se faz. Nem a acreditar em milagres. Habituei-me a falar com o meu pai depois de ele partir.
Em vida poderíamos ter falado mais. Devíamos. Mas falámos o suficiente para percebermos que nos amávamos. Nasci no dia do seu aniversário. A minha mãe deu-lhe esse presente.

Eu também gostava de lhe ter dado um presente. Um neto ou uma neta. Mas o amor para se fazer amor sentido, aquele que planeia uma vida de felicidade, chegou tarde. A Paula estaria agora deitada com o seu barrigão para cima. Médico, anestesista e enfermeiras fariam o seu melhor. Luzes, bisturi, tubos, sangue e finalmente aquele choro. Eu não podia assistir. Mas o meu pai talvez lá estivesse para que nada falhasse. Falei muito com ele sempre de olhos postos no relógio. Da porta da pediatria, o silêncio imperava. Nem gritos, nem choros. Acreditei que o médico tinha salvado o filho da mulher desesperada.

O cérebro não registou a hora a que a porta do bloco de partos se abriu e o meu nome entoou pelo espaço. Levantei-me com vigor, mas com as pernas a tremer. Que notícia viria. Está aqui o seu filho. Uma enfermeira alta e negra, trazia o enrugado de olhos fechados para a cerimónia das apresentações. Fiz-lhe uma festa a medo. Era tão tenro. Chamei-lhe João, o nome do meu pai, e pedi à enfermeira que o levasse de volta por causa da corrente de ar que vinha das escadas. Tinha acabado de nascer o meu instinto paternal. Para toda a vida.

O João foi crescendo num berço digno. Sabíamos que o amor não se esgotaria. E porque não trazer ao mundo o Filipe ou a Carlota. Veio o Filipe. Cresceu no berço do irmão. Os anos foram passando e hoje cada um procura o seu caminho. Eu e a mãe vamos envelhecendo. Não olhamos para trás. Olhamos para a frente. Os filhos estão sempre connosco. Até ao fechar dos olhos.

Sara tem vinte e dois anos. Não tem casa. Não tem emprego. Não tem amor. Tem a rua. Tem a assistente social. Tem as esmolas. Sara tem saudades da morna, da cachupa, das amigas, do mar. Sara é mais uma numa cidade estranha. Num país estranho. Para o mundo, Sara é menos uma. Marginal. Pobre. Condenada. Brevemente, duplamente condenada. Não sabemos as vezes que Sara acariciou a sua barriga. Quantas vezes falou ao Salvador. No interior da sua tenda, cravada na pedra, não sabemos quantas vezes Sara chorou. Desesperada.

Não sabemos as dores que Sara teve no parto feito com as suas mãos e a sua força. Sozinha num passeio. Não sabemos a dor que Sara teve na despedida ao Salvador. Não sabemos. Não sabemos nada dos outros, os que estão na outra margem. Mas devíamos saber. Só para os compreender e trazê-los para a margem de cá. A única margem que devia de existir. A margem da dignidade. A margem da humanidade.

No frenesi egoísta em que o ser humano se tornou, não nos importamos com o cartão estendido na soleira da porta. Não nos importamos com a sopa dos pobres. Não nos importamos com o desempregado. Não nos importamos com a fome da criança ou do velho. Não nos importamos com o casal despejado contra a sua vontade. Aliviamos a consciência num saco de plástico com um quilo de arroz e uma lata de atum à porta das catedrais do consumo. Duas vezes por ano talvez. E no Natal todos são muito solidários. Fica bem. A caridade. Fazem-se festas. Montam-se tendas. Ligam-se aquecedores. Oferecem-se couves fumegantes com bacalhau de segunda. Faz-se negócio. Os pobres dão jeito para muita coisa. Até para selfies.

Sara. Não me esquecerei dela. Tires não deve ser a sua nova morada. As prisões não foram construídas para vítimas. Sara é vítima da sociedade que temos. Salvador também. Sara sempre esteve presa à pobreza. Existe pior pena do que esta? Sara precisa de todo o apoio. Sara precisa de olhar para o Salvador. E o Salvador de olhar para Sara.

Os filhos estão sempre dentro de nós.