Crítica

O amor, o Estado e o pesadelo

O encenador montou uma peça carregada de poesia para ilustrar a sua reflexão a propósito do amor e da justiça e do papel do poder.

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Quando a lenda é mais curiosa e interessante, mais apaixonante do que a realidade… imprime-se a lenda. O amor desgraçado de Pedro e Inês é uma dessas efabulações nas quais o contexto e as realidades histórica e política, a bem dizer, são, não um facto, mas um manto conspirativo e opressivo que paira sobre os protagonistas antes de os cobrir e abafar a sua paixão em intriga e morte. Paixão que porém resiste como assombração e vingança e paranóia e — porque não? — boa dose de maluquice descabelada e carnificina. Ora, existe algo mais romântico?

Talvez tenha sido isto que passou pela cabeça de Luis Vélez de Guevara (1579-1644) quando, algures na década de 1630, era Portugal uma parte de Espanha, deitou mãos a esta história, então com quase 300 anos, e acrescentou a sua versão, tornada descaradamente mística, apesar de alguma insinuação política, na encenação de Ignacio García para a Companhia de Teatro de Almada (para a qual já criara, em 2017, a sua versão de História do Cerco de Lisboa, de José Saramago). Se me permitem um parênteses, embora desconhecido por cá, o dramaturgo espanhol é uma vítima do que mais tarde veio a ser conhecido como a síndroma Salieri, pois García, apesar das suas mais de 400 obras, teve a sina de conviver em cena com Calderón de la Barca, Tirso de Molina e, principalmente, Lope de Vega — concorrência que não lhe tirando o lugar bem se pode dizer o atirou às cordas do ringue da posteridade. E, no entanto, o seu trabalho persiste. Pois, na verdade, conflitos entre poder e amor, apimentados pelo chamado “interesse geral” contra a decisão individual, mesmo correndo geralmente mal para os amantes, continuam cativantes — mais não seja para amenizar uma realidade tomada pelo interesse e alimentar o idealismo sentimental como mecanismo de defesa. Isto compreendeu o encenador, conduzindo a sua leitura da dramaturgia de José Gabriel Antuñano entre o sonho e a morte, assim criando uma ilusão mística, com o seu quê de sobrenatural e pesadelo, muita ampliada pelo imaginativo e eficaz cenário em “half-pipe” de José Manuel Castanheira, que exige quase tanto aos actores como a complexidade do texto.

Para quem a tragédia de Pedro e Inês é uma vaga memória escolar, recordam-se as linhas gerais: o infante dom Pedro, filho do rei Afonso IV, era casado por combinação familiar e interesse de Estado, com D. Constança Manuel quando lhe apareceu pela frente uma aia da rainha, Inês de Castro, rapariga da nobreza galega. De pronto se tomaram de amores e com o tempo geraram quatro filhos, o que seria um acontecimento feliz não fora o tal “interesse geral”, o qual, na versão do poder, é uma chatice ao impedir o casamento do herdeiro de Portugal com outra nobre de Espanha, Blanca de Navarra. Vai daí, por ordem de Afonso IV, Inês de Castro é assassinada. Dois anos depois, Pedro era rei e, depois de ser verdadeiramente medieval no ajuste de contas com os executores da amada, recuperou-lhe o corpo e dela fez rainha.

Com todos estes condimentos (não admira que, como diz a folha de sala, existam “mais de 300 realidades artísticas” sobre a lenda ao longo de uns 700 anos), o encenador montou uma peça carregada de poesia para ilustrar a sua reflexão a propósito do amor e da justiça e do papel do poder. Poder aqui tratado com uma espécie de desprezo na sua perversão, atitude cénica que permite a peça entrar, logo após as primeiras cenas, em modo de dramalhão, tornado convincente pelas interpretações de Margarida Vila-Nova, Ana Cris e a correcção discretamente eficaz de José Neves (em elenco que inclui João Lagarto, David Pereira Bastos, Leonor Alecrim, Maria Frade e Pedro Walter), como pelo desenho de luz de Guilherme Frazão.

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