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Eu quero ser feliz, e tu?

Éramos tão pequenos, mas lembro-me de justificarmos frequentemente as nossas escolhas com “quero ser bombeiro para ajudar as pessoas e apagar fogos”, “quero ser professor para ensinar os meninos”. Para onde foi esse altruísmo, essa vontade de estar presente para o outro de forma desinteressada?

Quando éramos pequenos, à pergunta “o que queres ser quando fores grande?” era comum respondermos “quero ser feliz!”. Tantas possibilidades diferentes, carreiras, profissões, destinos. Mas nós — as crianças, com pouco mais do que uma mão cheia de anos de vida — só queríamos ser felizes! Os professores, provavelmente, teriam de nos corrigir, porque o que se queria era saber o que gostaríamos de fazer no futuro. Não bastava “ser”; o “fazer” era tão ou mais importante. Ser feliz era para outras aventuras, outros temas que não a aula de Estudo do Meio ou da feira das profissões.

Claro que quisemos ser bombeiros, polícias, veterinários, astronautas, secretárias, professores. Sonhámos com o dia em que acabaríamos a escola e em que nos tornaríamos “alguém”. E o engraçado é que éramos tão pequenos e pouco conhecedores do mundo, mas lembro-me de justificarmos frequentemente as nossas escolhas com “quero ser bombeiro para ajudar as pessoas e apagar fogos”, “quero ser professor para ensinar os meninos”, “quero ser veterinária para curar os animais e dar-lhes festinhas”, “quero ser polícia para proteger as pessoas”. Perguntem aos vossos filhos, netos, sobrinhos mais novos que profissão gostariam de ter e façam o teste.

Então, agora é a minha vez de perguntar: para onde foi esse altruísmo, essa vontade de estar presente para o outro de forma desinteressada? Que tipo de profissões ou ambições pessoais procuramos apenas uma década depois? E como explicamos essas escolhas? Será esta uma manifestação clara do “gene egoísta”?

Lyubomirsky e Seligman são dois dos teóricos sobre felicidade e bem-estar do nosso tempo que estudam, entre tantos outros assuntos, a centralidade do altruísmo na criação de uma boa vida. Veja-se: fazer o bem aos outros também contribui para o nosso próprio florescimento. Ambos advogam pela amabilidade e pela gratidão como pilares que, por exemplo, alimentam a emoção e relações positivas e o significado que damos à nossa existência.

Desta forma, deveremos repensar o que significa ser-se pessoal ou profissionalmente bem-sucedido no século XXI? Serão o curso, o cargo ou o salário pedaços de identidade futura tão inegociáveis quanto somos levados a pensar, finda a infância serena? Que objectivos de vida e valores orientadores devemos cultivar como modelo para as gerações mais novas? Veremos o reencontro com o outro assumir uma nova relevância, ou continuaremos a fechar-nos dentro de nós mesmos?

Em busca do que significa tornar-se adulta e tentando consolidar os seus próprios princípios, a autora deste texto interroga-se — muito e frequentemente. Que escolhas podemos privilegiar, se queremos ser felizes? E, aliás, o que é “ser feliz”? Num século que se anuncia preocupado com a degradação da saúde mental na sociedade líquida, em que muitos dos laços que antes nos uniam aos outros (família alargada, vizinhança, igreja, local de trabalho para a vida) se desfazem com uma volatilidade crescente, talvez possamos repensar as nossas respostas à pergunta “o que queres ser quando fores grande"? Eu quero ser feliz, e tu?