Teresa Pacheco Miranda

Ficou conhecido por carregar o colega até à meta. “Não surpreende”: assim é Braima Dabó

Veio para Portugal estudar. A corrida apareceu-lhe no caminho e levou-o aos Mundiais de Atletismo, onde ajudou outro atleta a terminar a prova de 5000 metros. Braima Dabó tornou-se o “herói do fair play” para o mundo, mas sempre foi assim: “Há uma vida antes do Braima e uma vida com o Braima.”

Para percorrer os cerca de 300 quilómetros que separam Bissau de Tombali são precisas oito horas. Os últimos 58, que apenas podem ser feitos se não houver chuva, demoram seis. Foi nessa região, concretamente em Catió, que Braima Dabó nasceu e cresceu — e foi essa cidade que deixou aos 18 anos, para vir estudar para Portugal.

Para trás ficaram “a casa, os amigos, o colo da mãe, o pai, os irmãos”. Não foi o único: consigo vieram 14 jovens da mesma região, num intercâmbio proporcionado pela Na Rota dos Povos, organização não governamental (ONG) que tinha já equipado 210 escolas de Tombali com o material que estava a ser substituído nas escolas do Norte de Portugal. O objectivo de todos os que chegaram era o mesmo: cumprir o lema da Na Rota dos Povos — “A educação é o único caminho” — e adquirir formação nas escolas portuguesas.

Nesta altura, em 2011, Braima, agora com 26 anos, ainda não sabia que viria a ser atleta, nem imaginava que viria a participar nos Mundiais de Atletismo ou a ter os holofotes do planeta apontados a si por “carregar” um colega e ajudá-lo a terminar a prova de 5000 metros. Até porque, antes de chegar a Portugal, não conhecia o gosto de correr: em Catió, era dispensado de Educação Física por não ter tempo de “ir para as aulas e regressar a casa para mudar de roupa” — por isso, “ficava a fazer outras coisas”, recorda, entre sorrisos, à conversa com o P3 em Bragança, acabadinho de chegar da prova que o pôs nas televisões de todo o mundo.

Lembra-se perfeitamente “daquele dia fantástico”, 26 de Setembro de 2011, em que embarcou para Portugal. Vinha preparado para uma jornada de três anos, o tempo de concluir o ensino secundário na Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Carvalhais, em Mirandela. Acabou por ficar até hoje. Ao ensino secundário seguiu-se um ano zero no Instituto Politécnico de Bragança (IPB), com ajuda de uma bolsa de estudo, alimentação e alojamento. No final, alguns dos alunos guineenses foram convidados pelo IPB a ingressar na licenciatura em Gestão, com a duração de três anos. Braima foi um deles.

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A cada um dos jovens foi atribuído, à chegada a Portugal, um “padrinho” e uma “madrinha”, encarregados de dar apoio, quer na adaptação a uma realidade muito distinta da que até então tinham vivido quer “em termos de mesada — cerca de 20 euros por mês para os rebuçados”, brinca Susana Antunes, dirigente da ONG e tutora de Braima. E foi em sua casa, em Matosinhos, que ele passou a viver.

É precisamente aí que Eduardo Ramos, pai de Susana e “padrinho” do guineense, nos recebe: “Não reparem na desarrumação”, pede. O apartamento mostra o movimento que lá há: as paredes da sala cobertas de livros e fotografias, a mesa repleta de papéis; ao fundo, um saco cheio de embalagens de leite em pó para enviar para Catió; numa prateleira, uma caixa cheia de medalhas de Braima. Além de esta ser a residência de Susana, do marido (Tito Baião, presidente da Na Rota dos Povos e tutor de Braima) e dos dois filhos do casal, acabou por se tornar também a “casa” dos restantes jovens guineenses, que acabam por lá ficar quando se deslocam ao Porto. 

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Eduardo Ramos, "padrinho" de Braima Teresa Pacheco Miranda

“A nós calhou-nos o Braima, foi mesmo assim”, ri-se Eduardo. “A partir daí, quase de uma maneira instantânea, criámos uma ligação muito especial que tem durado e que se tem tornado mais intensa, mais próxima e afectiva.” Nem tudo foi fácil, contudo: “O facto de eles terem saído de uma região da Guiné-Bissau onde nem sequer há energia durante o dia inteiro, é um isolamento completo, e em menos de 24 horas estarem num mundo radicalmente diferente… eles tiveram muitas dificuldades”, recorda o “padrinho”.

A adaptação ao ensino ofereceu também alguns desafios. Em primeiro lugar, pela dificuldade de compreensão da língua: “Estamos a falar de uma região onde a língua oficial é o português, mas onde, desde que nascem, falam crioulo e, em algumas regiões, como a de Tombali, falam frequentemente dialectos”, explica Susana, que viaja com frequência para Catió para missões humanitárias. Mais ainda, as bases de ensino eram insuficientes: “Foi complicado, mas com muita capacidade de esforço e vontade de conseguir todos eles fizeram o 12.º ano em três anos, sem favores”, refere a tutora.

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Braima diz não ter estudado “muito”, mas “o normal”. Frequentava as aulas de apoio e dedicou-se “ao que era preciso”. Garante que só conseguiu ter bom aproveitamento graças aos professores que “ralharam” com ele. Em casa dos tutores aprendeu, por exemplo, a cozinhar (“o que significa que queimei muitas panelas”). E foi lá que manifestou o interesse em começar a correr.

“Quando cheguei à escola profissional de Mirandela, havia aula de Educação Física e eu tinha de a fazer porque morava na residência da escola e não tinha motivos para não ir”, confessa. Foram essas aulas e a participação em corta-matos escolares que fizeram com que o gosto por correr “se fosse intensificando”: “Lembro-me de que, dia sim, dia não, saía de casa e ia correr por aí aos bocadinhos”, conta o jovem, sentado nas muralhas do Castelo de Bragança, sempre sob fiel vigilância de Alfa Umaro, “irmão” catioense, companheiro de quarto na residência académica, amigo desde sempre, e Edvaldo Afonso, o amigo-feito-assessor que durante a conversa lhe vai dando recomendações sobre como reagir em frente das câmaras. Até que, no final do 12.º ano, decidiu participar numa meia maratona.

“Agradeço por partilhar a meta com ele”

“Meia maratona? Mas isso são 21 quilómetros a correr.” A surpresa dos tutores foi substituída pela necessidade de agilizar o processo, dada a escassez de tempo até à data. Trataram de inscrever Braima num grupo de corridas e, logo após o primeiro treino, o jovem “já tinha um grupo de fãs”: “Tinha corrido mais do que eles todos, tinha posto toda a gente com a língua de fora. Depois, com aquele sorriso, aquela simpatia, tinha conquistado toda a gente”, conta Susana.

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Susana Antunes, tutora de Braima Teresa Pacheco Miranda

No treino seguinte, o grupo tinha reunido dinheiro para oferecer umas sapatilhas e um conjunto de equipamentos ao jovem. “Nos treinos com os amigos acabei por conhecer o Vítor Carvalho [que viria a ser o seu mentor] e outros que começaram a incentivar-me, a dizer que se me dedicasse ia conseguir, que se arranjasse um treinador podia vir a fazer algo bonito”, conta o atleta. Participou na tal maratona e fez “um tempo que chamou a atenção”. A partir daí, nunca mais parou.

Passou a integrar o Ginásio Clube de Bragança, sob orientação de José Bragada, para depois ser orientado por Jorge Teixeira, o seu “padrinho de atletismo”, antes de mudar para o Maia Atlético Clube e ser treinado por José Regalo. “A partir daí, e até à data de hoje, tive sempre o apoio destas pessoas, que me ajudaram a atingir os meus objectivos”, conta.

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Arminda Fernandes, "madrinha" de Braima Teresa Pacheco Miranda

A família passou a “ser um apoio também no atletismo”. Eduardo e a sua companheira, Arminda, a “madrinha” do atleta, relembram as provas que já acompanharam, as terras por onde já passaram, a chuva que já apanharam — tudo para o ver correr. Antes da ida de Braima ao Qatar, tinham acompanhado o atleta à Guiné-Bissau para participar nos Jogos Africanos, a convite da Federação de Atletismo da Guiné-Bissau. Foi depois desta prova que a Federação Internacional de Atletismo convidou e assegurou a ida do atleta — que não tinha atingido os mínimos necessários para participar — aos Mundiais de Atletismo. Partiu sozinho para o Qatar, onde se conseguiu “desenrascar” com o pouco inglês que fala e esperou que o grande dia chegasse. E o dia chegou.

“É simples: eu estava a pensar em cortar a meta.” O atleta relembra como cerrou os dentes depois de ouvir a campainha que anunciava a sua última volta e se concentrou no final da prova. Até que viu Jonathan Busby, da ilha caribenha de Aruba, com dificuldades em manter-se de pé. Amparou-o e “carregou-o” até cortarem a meta juntos. “Vamos embora, vamos embora”, disse-lhe.

“O amigo Jonathan precisava de ajuda, portanto eu dei-lha. Foi isso.” A explicação parece simples quando se fala de um gesto que impressionou o mundo, mas é assim mesmo que Braima o descreve. “Assim conseguimos atingir o objectivo que tínhamos em comum. Eu tinha a minha ambição, assim como ele, mas tudo correu muito bem e agradeço por partilhar a meta com ele”, afirma.

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REUTERS/Kai Pfaffenbach

Do lado de cá, a família assistia ao momento colada ao sofá. “Ninguém estava à espera que um atleta caísse na frente dele, dando-lhe a oportunidade de fazer ou não o que fez. Aí, obviamente, ficámos surpreendidos. Mas que, perante a oportunidade, o Braima o fizesse não surpreendeu absolutamente nada”, atira Susana. No primeiro telefonema depois da prova, Eduardo disse-lhe que “ia morrendo do coração”: “Foi uma mistura de grande emoção, grande surpresa — justamente pelo inesperado —, mas ao mesmo tempo nós pensámos ‘isto é o Braima!’.”

O gesto valeu-lhe a nomeação como embaixador da Boa Vontade de Aruba, a indicação para o prémio fair play e recepções calorosas em cada sítio por onde passa: primeiro no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, no dia em regressou do Qatar; depois, no dia 7 de Outubro, no IPB, onde os colegas lhe colocaram a capa negra aos ombros — cumprindo todas as formalidades académicas — e lhe dedicaram uma serenata. Das mãos de Orlando Rodrigues, presidente da instituição, recebeu um voto de louvor.

“Um ser humano especial, muito teimoso, muito determinado, um catioense de gema, um guineense a sério, que defende muito aquilo em que acredita”, descreve Susana. Arminda garante tê-lo visto sempre “alegre e bem-disposto” e Eduardo elogia-lhe a capacidade de “resistir a dificuldades” e superá-las. “Há uma vida antes do Braima e uma vida com o Braima.”

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Mas a sua jornada em Portugal está perto de terminar. Faltam-lhe três exames para concluir a licenciatura em Gestão e deverá voltar a Catió quando finalizar os estudos. Já não vê a família há oito anos e, apesar de a Internet ter melhorado a comunicação entre os países, as saudades começam a apertar. Em conversa com Alfa, após a recepção no IPB, o conterrâneo perguntava-lhe: “E o que vais para lá fazer? Passas lá um mês, e depois?” Braima sorria.

A ideia é que seja enquadrado “num dos muitos projectos que a Na Rota dos Povos tem para a região de Tombali”; que utilize as competências adquiridas para contribuir para o desenvolvimento da região. Susana, Tito, Eduarda e Arminda sabem disso. O que não torna a despedida fácil: “Estou convencido de que o Braima vai fazer alguma coisa de positivo em prol do povo dele. E isso também é uma grande compensação para aquilo que certamente nos vai custar ao vê-lo ir embora.”

De Portugal, Braima leva “boas recordações, uma família, uma casa”. “Tenho pessoas a quem chamo avó, tenho pessoas a quem chamo tia, mãe, pai, amigos a que chamo irmão. E isso para mim é uma casa.” Por isso, garante com toda a certeza, mesmo voltando para Catió, “nunca vai virar as costas” a Portugal. As corridas? “Espero correr até ao último dos meus dias.”