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O futuro é investir no autoconsumo energético e não perdoar milhões

Não deixa de ser irónico, nesta era em que se discute a emergência climática, vermos a nossa privilegiada linha de terra virada para o mar com condições únicas de Sol e vento não ser devidamente aproveitada para proteger o planeta e o bolso dos cidadãos.

As eleições estão à porta e as razões para não transportarmos o nosso corpo do sofá para uma mesa de voto são mais do que muitas — mas, ainda assim, são muito menores face às razões para irmos todos votar.

A corrupção política vergonhosa instalada no nosso sistema democrático, o derrame de familiares em sistema de rede por tudo o que é organismo do Estado, os concursos públicos que sabemos na conversa de café que acabam por ser tantas vezes inacessíveis ao cidadão comum, as avenças organizadas e os múltiplos perdões dos milhões que pertencem aos outros 11 milhões, mas de portugueses, são motivos fortíssimos para batermos o pé contra a abstenção, não permitindo que uma minoria de pessoas decida pelo todo.

Mas, se pensarmos a fundo, existem motivos superiores a estes, ainda que intrinsecamente conectados com os mesmos, uma vez que em causa está o futuro do país e a qualidade de vida dos nossos 11 milhões de seres humanos. E falar em futuro é falar de esperança. Não deixa de ser irónico, nesta era em que se discute a emergência climática, vermos a nossa privilegiada linha de terra virada para o mar com condições únicas de Sol e vento não ser devidamente aproveitada para proteger o planeta e o bolso dos cidadãos. A nossa dependência em combustíveis fósseis e a sua consequente importação ronda os 75%.

Por sua vez, as nossas centrais de energia renovável produzem, anualmente e em média, 54% das necessidades eléctricas nacionais, reduzindo-se assim cerca de 750 milhões de euros em importações, valor que claramente não é satisfatório para o potencial que o país tem.

Para nosso bem, o novo plano de energia “roteiro para a neutralidade carbónica”, ainda que seja altamente ambicioso, prevê que em 2030 o país produza através das “energias limpas” cerca de 80% das suas necessidades.

Proteger o planeta é interessante porque, de facto, não existe Portugal B para vivermos; mas proteger o bolso dos cidadãos é ainda mais importante. Afinal de contas, de que nos serve o Portugal A se não tivermos qualidade de vida para o habitar?

De repente, aproveitando a febre climática e uma vez que “andamos todos apanhados do clima”, seria interessante pensarmos no bem comum em contexto energético. É uma prioridade o país investir no autoconsumo energético partilhado, com as nossas condições climáticas únicas e privilegiadas.

De Norte a Sul, aldeias poderiam “alimentar energeticamente” aldeias vizinhas, cidadãos poderiam produzir a própria energia e a dos seus vizinhos, blocos de prédios poderiam gerar a energia suficiente para os seus habitantes. É extremamente difícil calcular o nível de dióxido de carbono exacto que uma casa pode evitar utilizando o autoconsumo solar fotovoltaico, mas a previsão estima que em apenas um ano evitar-se-ia a emissão para a atmosfera de cerca de 984 quilogramas.

Em Portugal, a obrigatoriedade de venda à rede energética da energia obtida por autoconsumo deixou de existir a partir do Decreto Lei 153/2014. No entanto, a legislação não é abrangente nem eficiente porque não se lembrou de regulamentar a energia que não é consumida, sendo muitas vezes desperdiçada quando, na realidade, poderia até ser partilhada.

Gosto de imaginar um país repleto de painéis fotovoltaicos que rasgam os céus e aquecem os dias das nossas aldeias e das nossas cidades. O caminho da cidadania é longo, mas possível, quando em sociedade começarmos de uma vez por todas a pensar no todo e não apenas no umbigo de cada um ou de cada família.