Patti Smith invocou os seus companheiros de armas para reclamar liberdade

Num concerto estratosférico, a autora de Just Kids levou até Paredes de Coura Jimi Hendrix, Neil Young, Lou Reed, Rolling Stones e Midnight Oil. A fechar o festival, os Suede, igualmente bons, tiveram de lidar com o fantasma da lenda do punk.

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Foi com a sua banda, e invocando muitos dos seus companheiros de armas (das que emitem sons para servir a palavra, não das que matam), que Patti Smith chegou na noite de sábado a Paredes de Coura para tocar no encerramento da 27.ª edição do festival que por esta altura do ano ocupa a praia fluvial do Taboão. Trouxe Jimi Hendrix, Neil Young, Rolling Stones, Lou Reed e Midnight Oil e trouxe também uma mensagem de esperança: cantou a paz e a união, reclamou a liberdade.

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Foi com a sua banda, e invocando muitos dos seus companheiros de armas (das que emitem sons para servir a palavra, não das que matam), que Patti Smith chegou na noite de sábado a Paredes de Coura para tocar no encerramento da 27.ª edição do festival que por esta altura do ano ocupa a praia fluvial do Taboão. Trouxe Jimi Hendrix, Neil Young, Rolling Stones, Lou Reed e Midnight Oil e trouxe também uma mensagem de esperança: cantou a paz e a união, reclamou a liberdade.

Fê-lo por vezes de forma ácida, com alguma raiva até, mas sem paternalismos bacocos ou discursos vazios – para um público que, surpreendentemente, cruza todas as gerações​. O passado punk ainda está impregnado na atitude de Patti Smith e na forma como continua a usar a música como veículo para tocar os outros com a palavra. Em Paredes de Coura, onde nos dias anteriores já tinham actuado New Order, The National ou Father John Misty, a cantora norte-americana selou o seu regresso a Portugal (tocou em Julho de 2015 no Nos Primavera Sound e meses depois no Coliseu dos Recreios) com um concerto mais do que à altura do estatuto de maior nome do cartaz que à partida lhe pertencia.

Azar dos Suede, tocarem na mesma noite que ela: a banda de Brett Anderson esteve igualmente a um nível superior, mas foi forçada a lidar com o fantasma de Patti Smith, que horas depois de se ter despedido de Paredes de Coura continuava a pairar sobre o palco principal. O mesmo onde, logo a seguir a ela, se passeou o bling-bling de Freddie Gibbs, acompanhado por Madlib e apoiado na ilusória convicção de que chega gritar “Fuck the police” durante todo o concerto para cumprir o serviço a nível da mensagem. Roçou o embaraçoso vê-lo actuar depois da simplicidade estética e de abordagem ao espectáculo que ali se tinha manifestado meia hora antes: Patti Smith não recorre a artifícios desnecessários para que as atenções se virem para ela.

Que não haja dúvidas: a edição 2019 do Vodafone Paredes de Coura foi de Patti Smith, que conduziu o público por um alinhamento composto na sua maioria por covers. Vem sendo assim desde que pegou em Gloria, dos Them, quando a sua segunda casa ainda era o CBGB – qualquer tema que lhe passa pela garganta passa a ser dela. Tinha acabado de passar no sistema de som Polices and thieves, o original de 1976 de Junior Murvin, que um ano mais tarde o emprestou aos The Clash para o incluírem no álbum de estreia, e entrava Patti Smith com a sua banda. Gorro, jeans e casaco preto, foi assim que a autora de Just Kids partiu para uma entrada inesperada: atacou imediatamente People have the power, que costuma guardar mais para o final, e dali foi directamente para o seu primeiro álbum, Horses, editado em 1975, com Redondo beach, souvenir de um período em que o punk andava de mãos dadas com o reggae.

À terceira música, encarnou Jimi Hendrix em Are you experienced?, findo o qual arrancou a sua primeira intervenção política endereçada a Donald Trump: “Precisamos de união e não de nacionalismos”. O solo de Lenny Kaye não deixou Hendrix ficar mal. Em Ghost dance, linha de voz dividida a meias com Kaye, atacou o refrão com raiva, ou apenas com convicção: “We shall live again”, repetiu até à exaustão. No final do tema, Coura parou para ovação, retribuída por Smith com vénias.

Antes de “chamar” os Midnight Oil, fez uma espécie de interlúdio, já com guitarra negra a soar, numa cadência hipnotizante, e, num registo quase gutural, alertou para o uso excessivo do plástico. Do rock activista dos australianos escolheu Beds are burning: “How can we dance when our earth is turning?/ How do we sleep while our beds are burning?”, questiona o refrão.

Na guitarra acústica, a vocalista abordou a sua Beneath the southern cross; a melodia redentora saída da guitarra de Kaye foi catapultada para o infinito quando Smith soltou a sua voz em direcção à estratosfera para pedir mudança e convencer quem ali estava de que todos somos capazes de a fazer para atingirmos a liberdade. Foi então que pareceu dar-se uma catarse colectiva entre público e banda.

Fora do palco, Patti Smith deu espaço às vozes de Lenny Kaye e Tony Shanahan, que recordaram os 50 anos do Festival de Woodstock, e voltaram às versões, num medley dividido entre Rolling Stones e Lou Reed, com I’m free e Walk on the wild side, este usado como ponte para After the gold rush, de Neil Young, já com a vocalista em palco. Ao antigo companheiro Fred “Sonic” Smith, dedica Because the night, tema oferecido por Bruce Springsteen, que o compôs. Quando fechou o concerto, com Gloria, já tinha inscrito definitivamente o seu nome no quadro de honra de Paredes de Coura, ao lado de Nick Cave ou dos Arcade Fire.

Aos 72 anos, Patti Smith continua jovial e com a mesma vontade de marcar a diferença. Tem o carisma de uma lenda rock sem os maneirismos de estrela. Em palco é contagiante sem ser eufórica e doce sem ser frágil. Nua, crua, presenteou quem ali esteve, sem esforço, com um concerto memorável.

Bling-bling e anos 1990

A frente do palco toda para ele, com Madlib na maquinaria mais atrás, Freddie Gibbs chegou ao palco principal pouco depois de Patti Smith ter entregado ao público uma mensagem com consistência. “Fuck the Police” é a bandeira do rapper, que, na verdade, não chega para aguentar um set de hip-hop, género que, quando surgiu na América dos anos 1970, muito se assemelhava ao punk em termos de conteúdo. Vazio de mensagem, Gibbs passeou-se pelo palco dando voz aos beats graves e densos do colega. Fê-lo com copo de vinho branco na mão, em tronco nu, com uns calções de andar por casa, ostentando um medalhão que numa loja de penhores talvez rendesse o suficiente para pôr mais uma banda a tocar no palco secundário.

Sonoramente, a música que trouxeram não é desinteressante, muito por força do trabalho de Madlib. Porém, algo nos estará certamente a escapar quando um discurso entre o “bitches”, o “motherfuckers” e o “fuck the police” põe toda uma geração de raparigas e rapazes que provavelmente encontraríamos numa marcha gay ou numa parada feminista a saltar como se a vida dependesse disso.

Coube aos Suede, que se lhes seguiram, apagar da memória o que ali se tinha passado antes. Brett Anderson e companhia, que traziam na bagagem o novo The Blue Hour, lançado no ano passado, foram a todos os temas que se aguentaram na parte de cima da peneira deste colectivo britpop: tocaram So young, Metal Mickey, The drowners, Animal nitrate, Killing of a flashboy, Beautiful ones ou, já no encore, She's in fashion e New generation. Longe vão os anos 1990, mas para os londrinos pareceram não estar assim tão distantes. O vocalista conserva a energia que tinha há algumas décadas e não deixou esmorecer o nível de entrega em palco. Nalguns momentos notou-se na voz algum cansaço, mas a experiência deu-lhe ferramentas para contornar a questão de forma a não prejudicar a performance: simples, o público que cante. E o público cantou com os Suede, que garantiram um concerto acima do competente.

Noutra liga, Mitski revelou argumentos suficientes para estar no palco principal de Coura. Lá em cima tinha uma mesa e uma cadeira que, mais do que para adornar, estavam lá para servir a coreografia desta norte-americana de origem japonesa. Durante quase toda a actuação, enquanto espalhava o seu indie rock sedutor pela plateia, usou os adereços que tinha consigo para conferir ao seu som outros motivos de interesse, em movimentos lânguidos de interacção.

Mais simples a nível visual, a sul-africana Alice Phoebe Lou, no segundo palco, lançou o isco para o seu indie folk, algumas vezes a roçar o blues e o jazz  com algum sucesso, ainda que o horário, ao início da tarde, não a tenha beneficiado.

Os problemas de posição no alinhamento também prejudicaram Kaamal Williams, que começou a tocar ainda Patti Smith estava a actuar. Porém, o jazz intricado que apresentou chegou para chamar público suficiente: tornou-se impossível furar para perto do palco.

A 27.ª edição de Paredes de Coura, pela qual segundo a organização passaram diariamente 26 mil pessoas, terminou na madrugada deste domingo. Durante quatro dias, o sol manteve-se de pedra e cal, quebrando o jejum a que parecia ter-se votado neste Agosto. Quando a chuva chegou, já era de madrugada. No próximo ano, faça chuva ou faça sol, o festival volta entre 19 e 22 de Agosto.