Crítica

Uma noite com Patti Smith para começar a mudar o mundo

Três meses depois de ter apresentado Horses no Primavera Sound, Patti Smith tocou o álbum de 1975 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, numa noite perfeita de poesia, política e rock’n’roll. É difícil imaginar que um concerto possa ser mais do que isto.

Patti Smith no Coliseu de Lisboa: isto é religioso, isto é poético e isto é político
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Patti Smith no Coliseu de Lisboa: isto é religioso, isto é poético e isto é político Enric Vives-Rubio
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Falta pouco para Patti Smith terminar a sua interpretação integral de Horses, disco seminal de um punk que vinha a caminho, lançado há 40 anos, quando a meio do penúltimo tema, o febril Land, avisa o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, que a música vai desacelerar um pouco para depois voltar a encaminhar-se para o clímax. A cantora entregou-se já, possuída, aos versos de um poema em delírio, numa fúria que, por vezes, lhe empresta uma voz de pirata, e aproveita, agora que os instrumentos tentam recuperar o fôlego para não perderem de vista o inesgotável ímpeto desta mulher de 68 anos, para dizer ao público que “estamos nisto juntos — uma mente, um coração e tudo está ao nosso alcance”.

Quando Patti Smith, em recente entrevista ao PÚBLICO, confessava a sua admiração pelo Papa Francisco e anunciava ver nele um verdadeiro revolucionário movido por um instinto humanista, talvez aquilo a que assistimos nesta segunda-feira no Coliseu (e antes no Nos Primavera Sound, em Junho, no Porto) lhe equivalha nessa busca por uma demanda colectiva, num gesto que pretende também unir todos diante de si sob o efeito de uma vigorosa comunhão de massas. Se no Primavera Sound, ao ar livre e para largos milhares de pessoas, poderíamos falar quase de uma bela missa campal, agora, no Coliseu, a energia estava mais concentrada e foi matéria quase inflamável.

Patti Smith sabe isso muito bem. E não é por acaso que escolhe os breves momentos de acalmia antes de dar corda de novo à intensidade desabrida de Land. Nos minutos finais, Gloria, tema de abertura de Horses e do espectáculo em Lisboa, irrompe novamente em palco, pegando-se a Land e ateando uma reacção de absoluto êxtase na sala. E a razão é simples: da primeira vez que Patti interpretou a canção esta noite, numa versão primorosa, havia ainda papéis clássicos diferenciados; ela estava lá em cima, no palco, e o público dedicava-se a um acto de profunda adoração de uma das criadoras musicais mais importantes dos últimos 50 anos. Da segunda vez, no entanto, o “G-L-O-R-I-A” de Gloria já não nos encontra em planos distintos, Smith já esbateu diferenças e nos convocou de uma forma tão inteira e arrebatadora para a sua música que estamos todos nisto juntos. É essa a mensagem que nos passa e que repete depois de um final demoníaco: “I am you” [eu sou vocês]. Isto não é apenas música. Isto é religioso, isto é poético e isto é político.

O guião perfeito
E é tão político e tão belo que após o término da apresentação de Horses, com a tocante Elegie, em que vai desfiando os nomes dos mortos que resgata — nem que seja por segundos — ao esquecimento e os coloca de novo num palco, a serem aplaudidos (de Jimi Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin e família Ramones, a Kurt Cobain, Amy Winehouse, Robert Mapplethorpe e Lou Reed), Patti Smith concentra os seus encores numa ideia de memória. Não apenas a sua, a dos seus anos 70, a do marco cultural que foi Horses e que é naturalmente celebrado num concerto que o toma por centro; mas também a da sua Nova Iorque que palmilhou com Mapplethorpe e a dos Velvet Underground são homenageados pela sua banda num medley que inclui Rock & Roll, Waiting for my man e White light/white heat, enquanto Smith se retira momentaneamente de cena.

Depois de um Horses que juraríamos investido da vitalidade original, atravessado por todos os seus fantasmas da poesia beat, intocado na sua pertinência artística, e após esse caminho que levaria Patti Smith até aos Velvet Underground, a cantora relatou a sua visita à Casa Fernando Pessoa, espantando-se por ver na colecção dos livros do poeta português os mesmos que hoje lemos — Rimbaud, Oscar Wilde, Walt Whitman —, imaginando ainda que Allen Ginsberg também estava por lá, porque Pessoa nunca deixaria de o ler se fosse seu contemporâneo. E logo em seguida fomos sugados para o vórtice imparável de Beneath the southern cross, tema indutor do transe perfeito para a estocada final.

Numa magnífica derradeira sequência, Patti Smith recuperou tudo aquilo de que foi feito um concerto perfeito, de emoções carregadas, longe de qualquer reprodução fria e maquinal de um disco com 40 anos, histórico na ligação de uma música de crueza punk e uma poesia de rasgo beat. Primeiro, ao falar da relação amorosa que marcou a sua vida, o casamento com o guitarrista dos MC5 Fred “Sonic” Smith, que volta a ser o seu namorado, disse, de cada vez que canta Because the night, canção-hino soberba escrita a meias com Bruce Springsteen. Depois, com um People have the power em que lembrou que o poder de sonhar, votar, ficar e amar pertence a cada um. E não às empresas e às multinacionais e aos “fucking governments” que rogou ao seu público para que não os deixasse mandar livremente no mundo.

Mais uma vez, o guião perfeito: Patti Smith termina com uma versão dos The Who, My generation. Já antes, Patti havia confessado o seu orgulho por saber que muitos naquela sala não eram ainda nascidos quando Horses foi editado em 1975, mas a forma como a cantora puxa todo o público para dentro das suas canções, como o convoca, inclui e inscreve, fica ainda mas sublinhado com My generation. Levanta a guitarra no ar, estica as cordas até as rebentar e declara que aquela é a arma da sua geração, que só o rock’n’roll é necessário para travar quaisquer lutas. E olhando para a plateia afirma: “vocês são o futuro e o futuro é agora”.

E repare-se então com pormenor no desenho: um concerto que começa com a cantora consciente da adoração de que é objecto em palco, que a meio estraçalha esta relação e elimina estratificações e termina dizendo ao seu público que a ele cabe transformar o mundo que existe fora do Coliseu dos Recreios. Sim, porque ali dentro, durante aquelas quase duas horas, viveu-se no interior de um mundo perfeito. O trabalho de quem ali esteve agora é esse: fazer com que estas canções e esta noite não se esgotem ao transpor as portas. Não foi para isso que Patti Smith nos juntou.