Morreu Peter Fonda, ícone da contracultura e artífice de Easy Rider

Filho de Henry Fonda e irmão de Jane Fonda, produziu, protagonizou e ajudou a escrever Easy Rider, o filme que há 50 anos ajudou a desencadear todo um movimento cinematográfico — a Nova Hollywood. “Foi um cineasta revolucionário numa altura revolucionária”, sublinha Rob Reiner.

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O actor norte-americano Peter Fonda, ícone da contracultura dos anos 1960, estrela e autor de Easy Rider, que se estreou precisamente há 50 anos, morreu na manhã de sexta-feira em Los Angeles, aos 79 anos. A notícia foi divulgada pela família, uma dinastia de Hollywood que começou com o pai, Henry Fonda, e se estendeu aos filhos Peter e Jane Fonda e à neta Bridget Fonda. Ficará para sempre associado ao filme que fixou uma geração e um movimento social e cultural que já tinha a sua banda-sonora, os seus livros e a sua imagem: Easy Rider “era o filme deles”, disse sobre os seus contemporâneos, os jovens dos anos 1960.

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O actor norte-americano Peter Fonda, ícone da contracultura dos anos 1960, estrela e autor de Easy Rider, que se estreou precisamente há 50 anos, morreu na manhã de sexta-feira em Los Angeles, aos 79 anos. A notícia foi divulgada pela família, uma dinastia de Hollywood que começou com o pai, Henry Fonda, e se estendeu aos filhos Peter e Jane Fonda e à neta Bridget Fonda. Ficará para sempre associado ao filme que fixou uma geração e um movimento social e cultural que já tinha a sua banda-sonora, os seus livros e a sua imagem: Easy Rider “era o filme deles”, disse sobre os seus contemporâneos, os jovens dos anos 1960.

“Num dos momentos mais tristes das nossas vidas, não conseguimos encontrar as palavras adequadas para expressar a dor nos nossos corações. No nosso luto pela perda deste homem doce e gracioso, desejamos que todos celebrem o seu espírito indomável e o seu amor pela vida. Em honra de Peter, por favor ergam um copo pela liberdade”, lê-se numa nota citada pela Reuters e divulgada após a morte do actor, na sequência de complicações causadas pelo cancro do pulmão.

Jane Fonda, cuja fama a certa altura ultrapassou largamente a do irmão, confidenciou também, numa nota enviada à revista Hollywood Reporter, ter estado com ele até ao final: “Estou muito triste. Era o meu irmão bebé e tinha um grande coração. O falador da família. Tivemos bonitos períodos a sós nestes últimos dias. Ele foi-se embora a rir.” 

Já na manhã deste sábado, os tributos foram-se sucedendo no Twitter. O guionista e realizador Edgar Wright (Baby Driver) lembra-o como “um herói na vida real”. O realizador Rob Reiner não tem dúvidas: “Peter Fonda foi um cineasta revolucionário numa altura revolucionária.” A actriz e autora Illeana Douglas postula: “Easy Rider retratou a ascensão da cultura hippie, condenou o establishment e celebrou a liberdade. Peter Fonda personificava esses valores e instilou-os numa geração. O cinema independente começa com Easy Rider. Ponto final.” “Levarás o meu coração contigo para onde fores”, promete Nancy Sinatra no Instagram. 

A história de Peter Fonda começou em 23 de Fevereiro de 1940, quando nasceu em Nova Iorque, mas tem de começar a ser contada a partir de Easy Rider, filme que produziu, de que foi um dos autores e que protagonizou memoravelmente, legando à história do cinema uma das suas imagens indeléveis: a de Wyatt, o motociclista livre de espírito e sem medo que conduzia a sua chopper através dos Estados Unidos. Com eles viajava a canção Born to be wild (1968), que à sua boleia acoplou o som de motos em fundo e viria a tornar-se o maior êxito dos Steppenwolf — e um símbolo em si, ultrapassando as fronteiras da contracultura anti-establishment dos sixties para se converter num hino de bares e cabedal e numa raiz do heavy metal.

Easy Rider valeu-lhe a primeira das suas duas nomeações para um Óscar, por ter assinado o guião com Dennis Hopper (1936-2010) e Terry Southern — a segunda surgiria em 1997, na categoria de actuação, pelo seu apicultor em Laços de Amor (Ulee's Gold). Peter Fonda foi essencial para a existência do filme protagonizado por ele próprio e por Hopper, e estreado no Verão de 1969 nos EUA já quando as brisas do final dos anos 1960 começavam a soprar na Califórnia. Dois motoqueiros contrabandeiam droga do México para os Estados Unidos e depois atravessam o país, camisas às flores e blusões de franjas a soprar ao vento, encontrando a história de um momento cultural no caminho: uma comuna hippie, o amor livre, a polícia desconfiada e uma turba de aldeões violentos, LSD, a América na sua diversidade e complexidade. 

O filme foi produzido por Fonda, cuja relação com o pai e ícone em nome próprio, um dos maiores do cinema clássico americano  era diminuta (a mãe, Frances Ford Seymour, cometeu suicídio quando o actor tinha dez anos), e realizado por Hopper; tornou-se um clássico instantâneo, cuja rentabilidade nas bilheteiras seria superada pela influência que exerceu sobre uma geração subsequente de cineastas e para os grupos de jovens que navegavam à vista na contracultura dos anos 60. Estava-se em 1969, a Guerra do Vietname ainda duraria mais seis anos; os protestos contra esse sacrifício de toda uma geração, e a mudança cultural em curso, à medida que o studio system colapsava e dava novos poderes aos jovens realizadores, serviam de pano de fundo a uma dinâmica, social e cinematográfica, que alargaria as portas que Bonnie e Clyde, de Arthur Penn, já tinha escancarado em 1967. Por aí entrariam Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Brian de Palma, William Friedkin ou Steven Spielberg e George Lucas.

Um cowboy para os anos 60

Com Easy Rider, considerado a Melhor Primeira Obra no Festival de Cannes de 1969, Fonda e Hopper tornavam-se rostos de uma nova forma de estar em Hollywood — Peter Fonda era consumidor de ácidos e marijuana, era amigo dos Byrds e tripou com três Beatles (só Paul McCartney não estava presente). 

A sua primeira vez numa mota no cinema não foi com Easy Rider, contudo. Já fora o líder de um gangue em The Wild Angels (1966), de Roger Corman, dividindo o ecrã com Bruce Dern e Nancy Sinatra; aí começou a desenhar-se como figura da contracultura no grande ecrã. O actor que se estreara na Broadway e que teve fugazes presenças televisivas continuou a trabalhar com Corman nas temáticas da contracultura sixties em The Trip, que como o próprio nome indica é um filme sobre o consumo de LSD, e em que também Dennis Hopper participa. O guião foi escrito por Jack Nicholson. Anos mais tarde, os Primal Scream samplavam o seu diálogo com Frank Maxwell em The Wild Angels para o início do seu single Loaded (1990). “Just what is it that you want to do?/ We wanna get loaded/ And we wanna have a good time.”

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Jack Nicholson e Peter Fonda nos Globos de Ouro em 1999 reuters

Chegados a Easy Rider, os amigos Hopper, Fonda e Nicholson chegavam a outro patamar de êxito e, como disse Peter Fonda há dois anos ao Los Angeles Times, um público: “Era um mercado para o qual nunca se tinha tocado. Nunca ninguém lhes tinha tocado a sua canção. Tinham a sua poesia. Tinham a sua música. Tinham a sua maneira de vestir. Não tinham o seu filme.” Passaram a tê-lo e fizeram-no chegar ao quarto lugar dos filmes mais rentáveis de 1969. Em Portugal, estreou-se em Abril de 1970.

No filme que ficará para sempre associado ao seu nome, Fonda era Wyatt, ou "Capitão América”. Hopper era o seu comparsa Billy. Como relata o historiador de cinema Peter Biskind em Easy Riders, Raging Bulls, Fonda teve a ideia para o filme quando observava um cartaz de The Wild Angels em que ele e Bruce Dern figuravam nas suas montadas motorizadas, desafiadores. Um western actualizado para os anos 1960, Wyatt como o xerife Wyatt Earp e Billy como o fora-da-lei Billy the Kid. 

Peter Fonda descrevia-se como “circunspecto”, como explicou ao New York Times numa entrevista sobre a sua experiência com as drogas psicadélicas naquelas décadas. Foi casado três vezes e teve dois filhos, Bridget e Justin Fonda. Realizou três filmes, entre os quais o western O Regresso (1971), que também protagonizou, e continuou a actuar profusamente nos últimos anos, tendo mais notoriamente participado no remake de O Comboio das 3 e 10 (2017). Entre os muitos filmes em que participou nas suas seis décadas de carreira estão Lilith (1964), de Robert Rossen, Amor sem Promessa (1973), de Robert Wise, Fuga de Los Angeles (1996), de John Carpenter, ou The Limey (1999), de Steven Soderbergh. Na televisão o seu trabalho também continuava, do telefilme The Passion of Ayn Rand (1999) a aparições em séries como The Alfred Hitchock Hour, CSI: Nova Iorque ou Serviço de Urgência.

Deixa por estrear três projectos: The Magic Hours, Skate God, um filme sobre uma distopia e skaters, e o filme de guerra de Todd Robinson The Last Full Measure (com estreia prevista para Novembro em Portugal).