Roger Corman em Lisboa

sta vida de cinematequeiro não anda a dar cabo de mim. Pelo contrário, mais ossos menos ossos (mas esses são do ofício ou são oficiais) vão-me dando surpresas que nunca esperei e eu até sou do género de ter mais olhos do que barriga, embora barriga, feliz ou infelizmente, me não falte. Dois exemplos apenas para não parecer presumido.Quem me diria a mim, aos 30, aos 40 ou mesmo aos 50 anos, depois de contar mil vezes a toda a espécie de peregrinos a história da aparição da Nossa Senhora ao marcador Hildebrando na Arrábida, no Monte das Capelinhas, que um dia a havia de narrar a Catherine Deneuve em pessoa, frente à ermida da Boa Memória? Com essa idade, era uma boa história para um sonho mais ou menos canónico. "Sabem o que eu sonhei esta noite? Que estava nas Capelinhas com a Catherine Deneuve e lhe contava a história de Hildebrando e da Virgem Loura. "Loura?" - perguntava-me ela, sem controlar a "coquetterie" - "loura como eu?". Eu olhei-a longamente nos olhos tão azuis e, fingindo-me profissional, respondi-lhe: "Disso não sei, que a Virgem a mim nunca me apareceu"". Quem me ouvisse, podia achar piada ao sonho, mas também podia responder-me que dessa estava eu bem livre na vida dita real. Pois aos 60 anos bem contados, em 1995, foi tal qual isso que se passou e quem não acredita que vá ver O Convento de Manoel de Oliveira, onde essas e outras histórias arrabidenses estão lá, sem tirar nem pôr, com lourezas e azulices dela e a roufenha voz que Deus me deu.
Quem me diria a mim, aos 20 anos, quando andava a espreitar no Éden o que os códigos deixavam ver sob o generoso decote de "the two and one Miss Russell", como Bob Hope apresentou um dia essa Jane com que Tarzan nunca sonhou, que um dia, é verdade que menos esplendorosas (o tempo é imperdoável) essas two ditas coisas, que eu tinha contado aos 40 num catálogo da Gulbenkian, usando vernáculo que tanto chocou pudibundos cavalheiros, se haviam de comprimir contra o meu liso peito lusitano, em plena Cinemateca, e à vista de uma centena de mirones? Pois aconteceu exactamente assim, tinha eu cinquenta e tal e Jane Russell visitou a Cinemateca. Quem não acredita que veja um retrato, que tenho sempre à beirinha de mim, onde a intimidade até parece maior.
Guardados estão os bocados e ai se estas paredes falassem... E estou só a falar das paredes da Cinemateca.

oje, dia de S. João, aproxima-se o momento em que outro desses sonhos por haver se vai tornar realidade, em Deus não se distraindo.Não se trata, desta feita, de nenhuma beldade, ou de nenhuma ex-beldade, nem sequer de alguém do sexo feminino. Quem hoje chega a Lisboa, onde ficará até ao dia 28, é uma das mais míticas personagens da história de Hollywood, pelo menos para mim e para alguns mais que há 40 anos o elegeram como cineasta de cabeceira. Chama-se Roger Corman, conta 82 anos, e embora ande nisto do cinema ainda os anos 50 eram pequeninos, foi em 1970 que começou o seu mito, quando o Festival de Edimburgo, andava eu a dar os primeiros passos na Gulbenkian, lhe consagrou a primeira de uma boa centena de retrospectivas, como aquela que a Cinemateca Portuguesa lhe vai dedicar entre 25 de Junho e 20 de Setembro deste ano de várias graças, que aliás vão continuar já em Julho, com a Monika de Bergman e de Truffaut, Harriet Andersson chamada.
Roger Corman, que começou a filmar pouco depois de Nicholas Ray ou de Samuel Fuller, não é um cineasta para comparar com esses, nem com os mestres mais antigos que ele acima de tudo venerou: Ford, Hawks ou Hitchcock. Não é um "autor", no sentido que, nesses mesmos anos 50, os Cahiers du Cinema de capa amarela deram ao termo que tanta tinta fez correr. Mas quem gostar dos chamados géneros menores: filmes de horror, westerns de meia bola e força, "peplums" american style (género The Saga of the Viking Woman and their Voyage to the Water of the Great Sea Serpent, ver título de um filme dele de 1957), filmes negros, muito negros, filmes de ficção científica com décors a estremecer, "hells angels" motards, tem, na ímpar obra de Corman, um manancial nunca visto e dos mais alucinantes imaginários que o cinema, arte moribunda mas arte que não vira a cara à morte, alguma vez nos deu.
Já ouviram falar de Proteu, o profético senhor dos mares, que podia assumir todas as formas e ser ele mesmo sob qualquer aparência? Se ouviram, Corman merece bem o aposto ou continuado que tantas vezes lhe deram de Proteu do cinema americano. Imaginem um género, ou um filme, por mais bizarro que imaginar o possam. Se percorrerem a imensa filmografia de Corman - mais de 50 filmes realizados, mais de 150 produzidos, e sendo que nele tantas vezes as duas categorias se mesclam - esse filme está lá e, agora, nesta versão de 2007 estará por cá, aqui na Cinemateca, passe a auto-publicidade, que não procuro mas a que também não fujo.
Por isso, sempre foi meu sonho encontrar Corman em carne e osso. Ninguém sabe tanto como ele, ninguém viu tanto como ele e ninguém foi, como ele, gigante e rato ao mesmo tempo, em nos apanhando distraídos ou muito concentrados. As vezes, como o Feiticeiro de Oz (outra metáfora que particularmente lhe convém) duvidei até da existência real do homem, que me parecia tantos ser para caber num só. Hoje e nos próximos dias vou desfazer essa dúvida, como também o boato que corre segundo o qual, depois de percorrer Seca e Meca e de filmar em quase todo o mundo, Corman quer filmar em Portugal. Mandou-me dizer que gostava de conhecer lugares arcanos do país. Vou levá-lo a Évora. Nada original? Talvez não seja. Mas, se eu puder figurar, ao lado dele, na Capela dos Ossos, terei tornado real - mais um - outro sonho da minha vida que nunca pensei realizável.

ir-vos-ão - se não vo-lo disseram já - que são mais resplandecentes os filhos de Corman do que o próprio Corman. Não concordo, mas a numerosa prole tem necessariamente que vir à baila. Corman foi o pai de Coppola e de Scorsese, de Joe Dante e de Bogdanovich, de Monte Hellmann e de Alan Arkush, de Curtis Harrington e de Jonathan Demme e de cem outros, dos chamados "movie brats". Todos começaram as suas gloriosas carreiras pela mão de Corman ou na "Corman factory" e nenhum teria sido o que foi se Corman não lhes tivesse dado o empurrão inicial. Por isso, John Davison, o produtor de Airplane, disse um dia: "Se o céu existe, e se Roger Corman aspira a chegar lá, o que lhe abrirá tais portas foi a oportunidade que deu a centenas e centenas de pessoas de filmar". E nem sequer falei de Jack Nicholson, que, pela primeira vez, apareceu nas telas em The Little Shop of Horrors (1960), o filme que inaugurará a retrospectiva e que é uma das mais absolutas obras-primas do senhor de tantos anéis. E Jack Nicholson foi quem disse que, não fora Corman, seria nobody.

m 1990, finda já a carreira de realizador (o ultimo filme que dirigiu: Roger Corman"s Frankenstein Unbound é desse ano) publicou ele as memorias sob o título How I Made a Hundred Movies in Hollywood and Never Lost a Dime. Não é verdade a 100%, pois houve um - The Intruder - de 1962, que, aliás nunca vi, em que perdeu dinheiro, mas é verdade global. Como? Na América, da mais estranha maneira possível. Conseguindo umas patacas (regra geral pouquíssimas) filmando numa semana o que os outros levam meses a filmar e enfiando o "produto" não nas grandes companhias mas nos circuitos ditos marginais, desde os "drive-ins" a cinemas de tuta e meia. Quem via ficava "fan" ou pelo menos não dava o dinheiro por mal gasto. Assim, ao fim de uma semana de exibição, o filme estava pago e actores e técnicos, que tinham aceite nada receber à cabeça, eram todos pagos pelo preço ajustado e ainda sobejavam uns dólares para começar logo o filme seguinte. Às vezes, para aproveitar um cenário, quando ia filmar para as Caraíbas ou para as Bermudas, em vez de um filme fazias dois, ou produzia um e realizava outro. Parece uma história da carochinha? Parecer parece, mas foi assim que Corman fez, pelo menos durante os anos 50, quando ninguém lhe ligava nenhuma, mas ele fazia o que queria e, se não lhe sobrava tempo, sobrava-lhe gozo.Mais tarde, começaram a chamar-lhe (ainda lhe chamam) o "Rei dos filmes da série B". Nada mais falso, como Corman explica nas ditas memórias. Passo-lhe a palavra, tentando respeitar o estilo dele, tão rápido como os seus filmes ("fast paced, and it tells a great story", como escreveu, sobre o livro, o Los Angeles Times).
"Chamarem-me "rei dos B"s" só por piada, porque nunca fiz um filme "B" na minha vida. Os filmes da série "B" são típicos dos tempos da Depressão e foram fenómenos só até ao princípio dos anos 50. Nos anos 30, quando as audiências começaram a aumentar, os estúdios procuraram atrair mais gente servindo dois filmes numa só sessão. Os filmes chamados "A" eram filmes com estrelas, como Clark Gable; os chamados "B" eram feitos à pressa e com pouquíssimo dinheiro, usando actores desconhecidos que esperavam cair no goto ou velhos actores já esquecidos. Serviam também para testar escritores, realizadores e produtores. Não era vergonha nenhuma nem estigma nenhum trabalhar para filmes "B"".
"Toda a gente sabia quem era quem e a publicidade separava muito bem as aguas. Mas, nos anos 50, por causa da televisão, do fim das exclusividades e das preferências do público pelos filmes a cores, os "B"s" acabaram e acabaram exactamente quando eu comecei a realizar (...). Da primeira vez que li um artigo que falava dos "B"s" que eu