Soldados Invisíveis: eles recolhem o lixo das ruas, mas ninguém os vê

Miguel Jerónimo
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Chamam-se edjais e são “colectores informais que vagueiam pelas ruas à procura de plásticos, latas, vidros ou tudo o que consigam vender a um intermediário para posterior processamento em fábricas de reciclagem”. Miguel Jerónimo, a viver em Phnom Penh, no Camboja, sempre se interessou pela temática ambiental. Ali, fotografa os edjais e faz colagens digitais, onde as pessoas são substituídas por lixo “como forma de abordar criticamente a situação de desprezo que sofrem na sociedade”, explica. Muitas vezes são considerados “sujos” por trabalharem com lixo.

Phnom Penh produz cerca de 2000 a 3000 toneladas de lixo diariamente, das quais 600, em média, são plásticos, explica o fotógrafo, a trabalhar como freelancer. “A maioria acaba por não ser reciclada, indo parar à lixeira sem qualquer tratamento.” Aqui entra o papel destes Soldados Invisíveis — assim baptizados pelo fotógrafo. “Apesar da discriminação e das más condições de trabalho que têm de aguentar”, são os “poucos” que ainda mantêm as ruas da capital do Camboja “ligeiramente mais limpas”, diz, e contribuindo para o esquema informal de reciclagem.

Miguel chama-lhes Soldados Invisíveis tanto para focar “o aspecto de persistência e trabalho colectivo”, como se fossem “soldados a lutar pela grande batalha que é o ambiente”, mas também pela “invisibilidade” perante o resto da sociedade. “Eles vão passando pelas ruas a vasculhar os caixotes de lixo com as mãos, enquanto, mesmo ao lado, os ricos ou a classe média bebem um café na esplanada ou [vão de] fato e gravata para o escritório”, alerta Miguel, que pede respeito pelo trabalho que aquelas pessoas fazem. E acrescenta: “Merecem mais dignidade e atenção pela forma como ajudam a limpar as ruas e, porventura, começa a haver condições para o governo formalizar e profissionalizar esta actividade.”

Como forma de alertar para um “problema crescente no Sudoeste Asiático” — o “uso massivo do plástico, em especial o de utilização única” —, Miguel faz exposições das fotografias na cidade. “A minha missão é usar a fotografia como meio de consciencialização para o momento que se vive no Camboja”, conclui. “Seja o ambiente, os direitos humanos, a igualdade de género ou a quebra do ciclo da pobreza.”

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