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Para a NASA, o céu nunca é o limite — excepto quando os astronautas são LGBTQI+

Premiado na última edição do World Press Photo, The Gay Space Agency chama a atenção para o facto de nunca um astronauta abertamente LGBTQI+ ter estado no espaço, pela NASA. A História pode explicar.

Local onde decorrerá a conferência de imprensa da Gay Space Agency (GSA), que imagina um futuro onde as pessoas queer são seleccionadas para serem astronautas. Os pequenos retratos são da primeira equipa da GSA, Dr Brandy Nunez e Isaac Charles Anderson, cuja primeira missão é ir à Lua. Cada um dos 64 retratos representa um ano de ausência LGBTQI+ das equipas da NASA. Dr. Nunez e Anderson são, na vida real, aspirantes a astronautas LGBTQI+ que participam num treino civil com a ONG Out Astronaut. ©Mackenzie Calle
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Local onde decorrerá a conferência de imprensa da Gay Space Agency (GSA), que imagina um futuro onde as pessoas queer são seleccionadas para serem astronautas. Os pequenos retratos são da primeira equipa da GSA, Dr Brandy Nunez e Isaac Charles Anderson, cuja primeira missão é ir à Lua. Cada um dos 64 retratos representa um ano de ausência LGBTQI+ das equipas da NASA. Dr. Nunez e Anderson são, na vida real, aspirantes a astronautas LGBTQI+ que participam num treino civil com a ONG Out Astronaut. ©Mackenzie Calle

“Os homossexuais não devem manusear materiais ultra-secretos”, declarou publicamente, no início dos anos 1950, o senador republicano Joseph McCarthy. “O pervertido é uma presa fácil para chantagistas”, tentava justificar. Viviam-se tempos muito particulares, nos EUA, naquela década. A Guerra Fria, que surgia no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, gerava um movimento institucional de perseguição aos alegados militantes e simpatizantes do comunismo. Esse acosso conduziu, ao longo das décadas seguintes, ao saneamento e criminalização de milhares de cidadãos do país.

Os comunistas não foram, à época, as únicas vítimas do macarthismo. As mesmas ferramentas de repressão utilizadas para fazer frente à “ameaça vermelha” viriam a ser usadas sobre outra franja da população. Sustentado na formalização da posição da Associação Americana de Psicologia, que passou, a partir de 1952, a classificar de “doença mental” a homossexualidade, o presidente Eisenhower assinava, no ano seguinte, uma lei que permitia às autoridades norte-americanas “investigar, interrogar e afastar de forma sistemática homens gays e lésbicas do governo federal”. Neste período, conhecido nos EUA por Lavander Scare, foram afastados dos cargos públicos que ocupavam milhares de pessoas “suspeitas de homossexualidade” até 1975, altura em que a lei de Eisenhower é declarada inconstitucional.

Mantiveram regime de excepção as organizações federais NSA e FBI, que continuaram a discriminar oficialmente com base na orientação sexual até 1998, ano em que Bill Clinton assina uma ordem executiva que conduz à extinção desse factor de exclusão no processo de recrutamento.

“A NASA nunca enviou para o espaço um astronauta que fosse abertamente queer”, observa a fotógrafa Mackenzie Calle, autora do projecto vencedor do prémio da categoria Open do World Press Photo de 2024The Gay Space Agency. Em entrevista ao P3, a partir de Brooklyn, Nova Iorque, a norte-americana reforça que embora não exista, no presente, nenhum critério explícito que force à exclusão dos membros à comunidade LGBTQI+ das equipas de astronautas da NASA, a sua ausência pode suscitar algumas dúvidas.

A ideia para o projecto surgiu quando, em 2021, Mackenzie Calle tomou consciência de que a astronauta Sally Ride, a primeira mulher norte-americana a ir ao espaço (em 1983), era lésbica. “Ela revelou a sua homossexualidade no seu obituário, em 2012. Viveu com a companheira durante 25 anos, mas só o revelou publicamente após a morte.” Esse facto marcou-a. “Enquanto pessoa queer que sempre se interessou por astronomia, e que nutria um respeito especial por Ride, comecei a investigar sobre este tema e descobri que os astronautas da NASA tinham, no passado, de se submeter a testes de heterossexualidade durante o recrutamento.”

Um dos testes era o de Rorschach”, explica. “Tinham de olhar para formas abstractas e, supostamente, associar algumas delas à anatomia feminina. O outro era The Edwards Personal Preference Schedule (EPPS). Nos 15 critérios de personalidade que eram testados, um deles dizia respeito à orientação sexual.” Os testes foram aplicados aos astronautas que integraram as missões Mercury, Gemini e Apollo, que decorreram em anos em que era ilegal recrutar pessoas gays ou lésbicas.”

Abriu-se, para Mackenzie, uma caixa de Pandora. “A partir daí, comecei a investigar mais a fundo.” Mergulhou nos arquivos fotográficos da NASA, que estão disponíveis para consulta pública, e começou por manipular algumas das imagens antigas. “Comecei a trabalhar sobre essas fotos e a manipulá-las e a acrescentar elementos de forma a contar uma história”, explica. “Queria questionar a identidade dos astronautas, colocar questões sobre quem eles seriam.”

A direcção do projecto mudou quando tomou conhecimento da existência do projecto Out Astronaut, que tem como missão aumentar a visibilidade e representação de pessoas da comunidade LGBTQI+ nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Em 2021, o grande vencedor foi Brian Murphy, um estudante de Astronomia gay e não binário. “Contactei a organização e, felizmente, aceitaram receber-me e fotografar o Brian enquanto fazia treinos de gravidade. Essas foram as primeiras fotografias que fiz, propriamente, para o projecto.”

Desta forma, o projecto está dividido em duas partes: a primeira, que toca a história espacial norte-americana – em que explora os arquivos da NASA, as reportagens publicadas em revistas e jornais do século XX sobre as vidas os astronautas que reflectem, de forma gritante, a heteronormatividade – e a segunda, em que Mackenzie Calle tenta dar forma, através das imagens que cria ou manipula, a uma agência espacial gay imaginária, ficcional.

“O que realmente me inspirou foi imaginar uma agência espacial queer, poder sugerir a presença de pessoas queer no espaço, esperando que haja alguma mudança no futuro.” De acordo com a sinopse do projecto, ainda prevalece, na NASA, uma política de silêncio e exclusão no que diz respeito à comunidade LGBTQI+. “Um estudo de 2022 revelou que os astronautas da NASA que pertencem à comunidade têm a percepção de que serem abertos relativamente à sua identidade poderá colocar em risco as suas chances de serem seleccionados para missões espaciais”.

A agência espacial norte-americana tem, desde 2016, um programa destinado aos membros desta comunidade, a que chamou LGBTQ Special Emphasis Program, que tem como objectivo “abraçar outra comunidade dentro da nossa força de trabalho, sem qualquer obrigação legal a fazê-lo”, lê-se no site oficial. “Acreditamos que estamos a criar um ambiente inclusivo que é condutivo ao reconhecimento, desenvolvimento, compreensão e utilização das valências, aptidões e conhecimentos de cada empregado, de forma a alcançar a máxima produtividade.”

O projecto, que foi financiado através de uma bolsa da Magnum Foundation, pretende ligar o passado ao presente da NASA, tentando promover a consciencialização para o tema e a mudança. “Acho que a história LGBTQI+ está pouco estudada e que se deveria dedicar-lhe muito mais atenção”, conclui. “A história queer tem sido suprimida, silenciada, apagada. Um dos meus objectivos com o projecto é criar algo de natureza visual que possa interessar às pessoas, de forma a fomentar o seu interesse pela história da comunidade LGBTQI+.” Apesar da exposição mundial que o prémio World Press Photo conferiu ao projecto, a NASA não se pronunciou sobre o mesmo. 

"Out In Space". Fotografia encenada de um astronauta <i>queer</i> ficcional.
"Out In Space". Fotografia encenada de um astronauta queer ficcional. ©Mackenzie Calle
Brian Murphy, gay e não binário, durante uma simulação de vôo espacial. Murphy venceu o concurso lançado pela ONG Out Astronaut, que promove o desenvolvimento das carreiras de cientistas LGBTQI+.
Brian Murphy, gay e não binário, durante uma simulação de vôo espacial. Murphy venceu o concurso lançado pela ONG Out Astronaut, que promove o desenvolvimento das carreiras de cientistas LGBTQI+. ©Mackenzie Calle
Imagem manipulada do arquivo da NASA de uma projecção do Museu Nacional do Ar e do Espaço. Na tela foi substituída a imagem original por uma que descreve o beijo entre duas mulheres.
Imagem manipulada do arquivo da NASA de uma projecção do Museu Nacional do Ar e do Espaço. Na tela foi substituída a imagem original por uma que descreve o beijo entre duas mulheres. ©Mackenzie Calle
Os candidatos a astronautas da NASA tinham de fazer testes para aferir a sua orientação sexual e seriam excluídos se os resultados apontassem para a homossexualidade. Um dos testes que faziam era o Rorschach. “Tinham de olhar para formas abstractas e, supostamente, associar algumas delas à anatomia feminina", explica Mackenzie Calle
Os candidatos a astronautas da NASA tinham de fazer testes para aferir a sua orientação sexual e seriam excluídos se os resultados apontassem para a homossexualidade. Um dos testes que faziam era o Rorschach. “Tinham de olhar para formas abstractas e, supostamente, associar algumas delas à anatomia feminina", explica Mackenzie Calle ©Mackenzie Calle
O aspirante a astronauta LGBTQI+ Dr. Brandy Nunez (ela) durante testes de fato espacial com a Gay Space Agency (GSA). A imagem está sobreposta por imagens de Nunez e de Isaac Charles Anderson (ele) realizando testes de isolamento, que são imperativos para assegurar que a equipa consegue trabalhar em conjunto em situações de stress que podem surgir no contexto espacial.
O aspirante a astronauta LGBTQI+ Dr. Brandy Nunez (ela) durante testes de fato espacial com a Gay Space Agency (GSA). A imagem está sobreposta por imagens de Nunez e de Isaac Charles Anderson (ele) realizando testes de isolamento, que são imperativos para assegurar que a equipa consegue trabalhar em conjunto em situações de stress que podem surgir no contexto espacial. ©Mackenzie Calle
Do projecto The Gay Space Agency, vencedor do prémio Open do concurso World Press Photo, em 2024
Do projecto The Gay Space Agency, vencedor do prémio Open do concurso World Press Photo, em 2024 ©Mackenzie Calle
Uma bandeira americana foi transportada até à Lua pela Gay Space Agency. (Na realidade, esta é a bandeira que Buzz Aldrin levou para a Lua na missão Apollo 11, que foi fotografada em Sotheby antes de ir a leilão. Eu substituí o texto na bandeira. Por baixo da bandeira está uma imagem do parque de Obsidian Dome, em Inyo County, Califórnia, EUA
Uma bandeira americana foi transportada até à Lua pela Gay Space Agency. (Na realidade, esta é a bandeira que Buzz Aldrin levou para a Lua na missão Apollo 11, que foi fotografada em Sotheby antes de ir a leilão. Eu substituí o texto na bandeira. Por baixo da bandeira está uma imagem do parque de Obsidian Dome, em Inyo County, Califórnia, EUA ©Mackenzie Calle
Encenação da fotografia original do grupo de sete astronautas que participou no programa Mercury. Nesta versão, os astronautas são retratados são sete pessoas queer. O retrato colectivo está sobre uma fotografia da NASA que foi tirada em 1969 num cortejo em Nova-Iorque.
Encenação da fotografia original do grupo de sete astronautas que participou no programa Mercury. Nesta versão, os astronautas são retratados são sete pessoas queer. O retrato colectivo está sobre uma fotografia da NASA que foi tirada em 1969 num cortejo em Nova-Iorque. ©Mackenzie Calle
As casas dos astronautas, em El Lago, em Houston, Texas, EUA. Na segunda fila, no meio, a de Neil Armstrong. A maioria dos astronautas que participaram nos programas Mercury, Gemini e Apollo viviam, com as suas famílias, na área em torno do Centro Espacial da NASA Johnson. As esposas juntavam-se em casa umas das outras durante os lançamentos, para se apoiarem mutualmente, enquanto a comunicação social esperava em frente a casa.
As casas dos astronautas, em El Lago, em Houston, Texas, EUA. Na segunda fila, no meio, a de Neil Armstrong. A maioria dos astronautas que participaram nos programas Mercury, Gemini e Apollo viviam, com as suas famílias, na área em torno do Centro Espacial da NASA Johnson. As esposas juntavam-se em casa umas das outras durante os lançamentos, para se apoiarem mutualmente, enquanto a comunicação social esperava em frente a casa. ©Mackenzie Calle