Aitor Varea Oro
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Aitor Varea Oro

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A necessária gramática comum das cidades

Precisamos de uma nova gramática que permita que todos participem da conversa da cidade. Uma espécie de acordo para pôr toda a gente a falar em habitação a custo justo que, se não se aproximar da realidade, será mais ortopédico do que ortográfico.

Falo português mas não sou nativo. É normal, por isso, que às vezes fique baralhado. “Vou fazer-te a vida negra” ou “vou-te fazer a vida negra?”. Ou então “o nosso projecto vai ‘ao encontro das’ ou ‘de encontro às’ necessidades das pessoas"? Podem rir quanto quiserem, mas não é de todo fácil. Porque é que no Porto se vai à “igreija” e em Lisboa à “igraja”? Alguém me pode explicar por que razão o mesmo “x” não corresponde ao mesmo som em “próximo”, “exército”, “caixa” e “táxi”? Porque é que o “o”, sendo tão redondinho em “Porto” quanto em “porta”, é pronunciado de maneira diferente?

Diz a minha professora de português que muitas destas situações acontecem porque “a língua é sempre mudança”. Mudança produzida de cima para baixo (as instituições tentando tornar a língua harmónica e as regras inteligíveis) mas, também, de baixo para cima (as pessoas, com o uso, dando vida própria às palavras, criando resistência às regras ou autonomizando-se delas). Estes dois movimentos são, às vezes, complementares e graduais (algumas coisas que hoje são interpretadas como erros talvez venham a ser regra daqui a 100 anos) e, às vezes, opostos e abruptos (como os acordos que fazem dos acentos e hífenes uma confusão do caraças).

Uma das formas mais brutais de evolução da língua tem a ver com a substituição repentina de quem a utiliza ou dos âmbitos em que o faz. E isto muda o mundo. Não é preciso ir às invasões bárbaras para dar exemplos práticos. É sair à rua. Há poucos anos havia muitas casas com um “arrendasse” na placa. Hoje, a gramática veio ajeitar a placa e o “arrenda-se” aleijar o bolso. O que é bom para o dicionário é mau para a taxa de esforço e, apesar de a placa ser até mais bonita, o balanço é controverso. Talvez a sociolinguística venha um dia ajudar compreender as consequências dos sotaques envolvidos na promoção de habitação e no usufruto da cidade.

Com cada vez menos “moradores” e cada vez mais city-users, há quem se questione por que razão é que o crescente profissionalismo na construção traz, por vezes, tanto amadorismo no desempenho das cidades. Parte disto tem a ver com o facto de o urbanismo ser ciência, mas não matemática. Na cidade, a ordem dos factores gentrifica o produto. Em princípio, a cidadania garantiria a habitação (ou, pelo menos, é o que se depreende da leitura da Constituição). A introdução dos vistos gold veio alterar a lógica da coisa, sendo a compra da habitação o que permitia o acesso à cidadania. A habitação passa de direito a privilégio e o mercado a maestro de orquestra, num concerto desafinado ao qual assiste o Estado, espero que com alguma perplexidade.

Se nada se fizer, o estado da coisa terá mais efeitos na área da semântica do que na da governança, com o significado da palavra cidadão regredindo e as pessoas comuns continuando a praguejar contra as instituições (que algo devem fazer para salvaguardar a nossa famigerada democracia). Precisamos de uma nova gramática que permita que todos participem da conversa da cidade. Algo assim é o que se tenta fazer a partir da Nova Geração de Políticas de Habitação, que define princípios abstractos que cada um dos municípios terá de adaptar à sua realidade. Uma espécie de acordo para pôr toda a gente a falar em habitação a custo justo que, se não se aproximar da realidade, será mais ortopédico do que ortográfico.

Creio que um dos princípios básicos desta nova gramática será evitar que algumas coisas passem da conta bancária ao dicionário, trocando “arrendamento” e “arrendimento”. Mas este é o eterno problema do povo: quando a elite não o percebe, diz que não tem razões, tem é choros. Não tem argumentos, fala é calão. Mas a verdade é que a nossa fala abrange uma maioria e que um dialecto com exército pode um dia vir a ser uma língua. Uma língua onde “renda” e “rendimento” não sejam antónimas, que nos permita diversificar o leque de promotores e, portanto, de beneficiários da habitação. Que nos ajude a provar que talvez hoje sejamos “o desvio”, mas que num futuro decente seremos apenas “a norma”.

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