Gonçalo Dias

A rusga de Ramalde não é um ”show”. É uma prenda para a comunidade

A vertente social da rusga sanjoanina de Ramalde destaca-a das demais. Nela cabem todos os que queiram conviver, aprender e, sobretudo, divertirem-se. O resultado? Pouco importa.

Tatiana Sousa tem 22 anos e quem a quisesse encontrar na noite que antecedeu o feriado de 20 de Junho teria que se deslocar à sede da Associação Recreativa e Cultural 26 de Janeiro, em Ramalde. No espaço, decorriam os ensaios da rusga que vai representar a freguesia no tradicional desfile sanjoanino que acontece todos os anos na Avenida dos Aliados. Podia ter outros planos, como os grupos de jovens que durante a noite “andam pela rua a fazer asneiras”, segundo palavras da própria. No entanto, o gosto pela dança levou-a até ali e acabou por a fazer ficar. Não só pela dança, mas pelo convívio e ensinamentos que as pessoas mais velhas lhe transmitiram: “eu aprendo com eles e eles comigo!”, realça.

De todas as pessoas mais velhas que integram o grupo, a que mais lhe ensina é, sem dúvida, a mãe. Mónica Sousa sempre teve o sonho de integrar um rancho folclórico, mas problemas de saúde impedem-na de participar numa actividade “tão puxada”, daí a participação na rusga. O sonho, esse, não vai ficar por concretizar, pelo menos na totalidade. É com orgulho que Tatiana diz “vou entrar no rancho para realizar o sonho da minha mãe!”. As duas foram parar aos ensaios da através da Associação de Solidariedade e Acção Social (ASAS) de Ramalde, entidade da qual são utentes.

É aqui que a rusga de Ramalde se distingue das demais. A aposta na inclusão social, através da ponte estabelecida entre a Junta de Ramalde (organismo que a Porto Lazer encarrega da organização das rusgas, à semelhança do que acontece nas outras freguesias) e as associações locais de apoio social, é já uma marca que se tem vindo a perpetuar nos últimos cinco anos e que tem nas origens — a primeira edição estima-se que tenha ocorrido em 1957 — da própria rusga a principal inspiração. Não há lugar para carros alegóricos, fatos exuberantes e trabalhados, músicas encomendadas e, muito menos, participantes provenientes de outras freguesias (só para fazer número).

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Este sábado, quando Héber Machado subir a principal praça da invicta, vai carregar o estandarte que anuncia o nome da sua freguesia. Atrás dele desfilarão cerca de 120 pessoas com alho-porro, manjericos e vestes tão tradicionais que dificilmente poderiam ser vistas neste contexto. Mais do que director da Associação 26 de Janeiro, Héber é o ideólogo da iniciativa. Na sua opinião, as rusgas têm perdido a identidade ao longo dos anos, por isso, a aposta deve ser feita “na tradição” com inspiração directa no que era feito há 62 anos. Nessa altura, as freguesias faziam da rusga uma oportunidade para mostrar aquilo que as caracterizava. Também por aí passa a proposta do director. Para além das já tradicionais danças e músicas, uma demonstração de hóquei em campo —​ modalidade com grande tradição na freguesia —​ vai ser feita perante o júri pelas crianças que integram o Grupo Desportivo do Viso.

Perante esta descrição, a pergunta que se impõe parece ser que contributo tem este tipo de iniciativas para a população, nomeadamente a mais fragilizada socialmente. Segundo Ana Isabel Afonso, coordenadora e psicóloga no ASAS de Ramalde, o sentimento de “pertença a algo mais lato, mais abrangente que é uma tradição da cidade do Porto e que tem raízes profundas” é um dos aspectos mais destacado por miúdos e graúdos. Assim se justifica a adesão imediata por parte dos beneficiários da instituição quando questionados sobre a participação na marcha, ainda que não sejam os únicos a beneficiar com a experiência.

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O estreitar de relações entre técnicos e utentes é uma realidade que tem por base a confiança criada nos momentos de diversão e descontracção como os que são vividos nos ensaios — em oposição à rigidez do ar que muitas vezes se respira dentro das associações de apoio social. Tudo isto faz com que as pessoas se sintam “únicas e especiais”, algo que não tem preço. Afinal de contas, a carência de valores e sentimentos é uma das principais fragilidades da comunidade e só através de projectos educacionais — como acaba por ser este modelo de rusga — se podem quebrar ciclos geracionais, como os que se registam na freguesia

Quando na tarde de dia 23 os resultados das rusgas forem anunciados, o movimento nas instalações do colectivo 26 de Janeiro não vai parar. O que dali sair tem pouca importância quando comparado com o trabalho que nas últimas semanas foi desenvolvido naquele pátio. O “show” a que outras freguesias se deram ao trabalho de montar para garantir o primeiro lugar na lista de vencedores, como disse Héber, não lhe interessa. “Não faz nada pela comunidade”.