Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

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Olhar mas não ver: uma só Saúde para potenciar recursos

São necessárias políticas de promoção de integração entre a saúde pública humana, animal e ambiental. Os novos desafios e as novas ferramentas colocam a necessidade de verdadeiras equipas multidisciplinares de vigilância epidemiológica e resposta a surtos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) criou o conceito de One Health em 2004. Este conceito implica uma cooperação entre profissionais de saúde, engenheiros ambientais, médicos-veterinários e outros, criando sinergias que visam uma gestão integrada destes diferentes domínios, mas sobretudo a adequação dos sistemas de vigilância e incorporação de novos parâmetros e indicadores, climáticos e zoonóticos.

Assistimos a um processo multifactorial e complexo que, englobando alterações demográficas, sociais, económicas, paisagísticas e ambientais, bem como alterações de reservatórios, vectores e ciclos de vida de microorganismos patogénicos, faz com que cada epidemia seja, por si só, um caso único. Apesar de medidas sobejamente conhecidas, como a vacinação de humanos e animais, ou até de intervenções mais apertadas de segurança alimentar e saneamento, existem sempre novas ameaças ou velhos inimigos que ressurgem. Três a cinco novas doenças com potencial pandémico emergem anualmente, estando a maior parte do mundo a apenas um período de incubação de distância. Para destacar os riscos pandémicos de doenças que ainda não circulam entre humanos, a OMS criou, no ano passado, o conceito “Doença X”, a ameaça desconhecida.

No contexto desta ameaça particular, situámo-nos na orla da barreira de espécie e, de facto, o melhor exemplo da colaboração entre Saúde, Veterinária e Ambiente é, por definição, o campo das zoonoses. O queijo e produtos lácteos com potencial contaminação por brucelose, a carne animal desprovida de cuidados higiénicos e potencial contaminação com Campylobacter, salmoneloses, doenças transmitidas por carraças (ixodídeos), entre muitas outras.

Outro exemplo: resistências antimicrobianas. As estimativas de uso de antimicrobianos nos Estados Unidos indicam que 70 a 80% são vendidos para uso em animais. Com o aumento da população humana e expectável incremento do consumo de carne, a OCDE estima que, entre 2010 e 2030, se nada for feito, o uso de antimicrobianos em animais de produção aumentará 67% (a nível mundial). Na Noruega e nos Países Baixos já existem estratégias integradas (animal-humano-ambiente) para um uso mais responsável e reduzido de antimicrobianos, com uma recolha de dados bem definida, objectivos estabelecidos e prazos a cumprir, estipulação de quantidades ou percentagens a reduzir, e benchmarking de profissionais de saúde, tanto humana como animal. Cabe-nos aprender com estes exemplos, mantendo igualmente uma atitude crítica e pensar mais além: será o conceito One Health abrangente? Talvez em termos epidemiológicos, mas há quem comece a sugerir o termo One Welfare, particularmente numa altura em que já há um maior entendimento e consciencialização para os problemas de saúde mental e de bem-estar.

Não aludimos a estudos de custo-efectividade para as estratégias One Health, mas aproveitamos o mote para relançar a discussão necessária: são necessárias políticas de promoção de integração entre a saúde pública humana, animal e ambiental. Os novos desafios e as novas ferramentas colocam a necessidade de verdadeiras equipas multidisciplinares de vigilância epidemiológica e resposta a surtos. A fusão da vigilância epidemiológica não só permitiria abolir barreiras burocráticas, agregar competências diferentes, poupar em custos administrativos e aumentar a qualidade de trabalho científico produzido, como também acelerar respostas a emergências dependentes de articulações e sinalização entre os sectores do Ambiente, Saúde e Veterinária.

A complexidade da distribuição espacial e temporal das doenças, assim como a tentativa da sua compreensão e previsão, requer respostas cada vez mais sofisticadas, com conhecimento nas áreas da estatística e bioinformática. Existem ferramentas poderosas que ainda não fazem parte da rotina dos serviços de Saúde Pública mas que rapidamente passarão a fazer, desde que alicerçadas em equipas dedicadas, multidisciplinares e com colaboração permanente com outras regiões, instituições académicas e outros serviços públicos. No meio da rotina burocrática e exigências múltiplas a que os profissionais relacionados com estas áreas estão sujeitos, corremos o risco de estar a olhar para vários eventos mas não observar realmente o que se está a passar. Com um custo humano, animal e ambiental que poderíamos possivelmente evitar em conjunto. E com uma última vantagem habitualmente apreciada em política: poupança de custos no funcionamento, mas sobretudo no impacto económico das crises.

Se os microorganismos não respeitam fronteiras geográficas, certamente não respeitam as burocráticas. Estaremos sempre um pouco atrasados face a estas ameaças mas podemos tentar estar no encalço, com as melhores ferramentas ao nosso dispor.

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