David Bruno e o romantismo do empreiteiro honesto

Antes de tudo, um pormenor a realçar: o enquadramento. Estes tempos do vídeo digital, em que se permite esticar o retângulo cinematográfico ao máximo denominador possível, não se ajustam ao retrato de quem nunca viveu acima das suas possibilidades. Ou seja, onde muitos têm só aspiração à grandeza da tela, alguns têm justificação para a estreiteza da janela — a do 4:3, claro. Dizemos alguns porque, na semana anterior, também fizeram chegar à plataforma VIDEOCLIPE.PT o vídeo de lançamento do projeto a solo do antigo vocalista dos Capitães da Areia, o Pedro de Troia, no qual apresenta-se pouco iluminado ao interpretar o seu habitual pop luminoso, do eterno verão azul. Uma bela canção, atente-se, mas o tema é Embaraçado, logo, o enquadramento é apertado. Justo, mas com manha. Afinal, para quem ainda não se apercebeu, muita da música pop é consumida hoje no YouTube, mas na verticalidade dos telemóveis, nos quais o enquadramento quadrado ganha visionamento maior. Lá está, onde alguns só veem um insignificante pormenor, outros um astuto “pormaior”.

Quanto a este Mesa para dois no Carpa aqui destacado, é o primeiro videoclipe a sério de David Bruno sobre o seu espaço geográfico de inspiração e construção ficcional para as narrativas maviosas do seu hip-hop instrumental. Claro, o “a sério” é a qualidade pro da câmara do Francisco Lobo, porque de sério isto tem pouco. Além de mais, todos lançam um videoclipe para apresentar o álbum — aqui este é para se despedir dele. Ou seja, é o perfeito O Último Tango em Mafamude, porque apenas tinha havido um vídeo-álbum de imagens vernaculares e pilhagens VHS. De facto, faltava esta ode documental aos lugares incaraterísticos da portugalidade urbana e um retrato da solidão e da rotina do jantar ao balcão da churrasqueira, como qualquer trabalhador remediado, mas onde há sempre quem já teve coragem para se aventurar numas pequenas empreitadas e ter veleidades para lá levar alguém a jantar e, quiçá, depois na suite se esticar. Lá está, onde alguns só veem foleirice, outros uma peculiar beleza e romantismo. Um mimo, este videoclipe.

Texto escrito segundo o novo Acordo Ortográfico, a pedido do autor.

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