Diplomatas frustrados com salários, vida familiar, falta de meios e de instruções

Mais de 60% dos portugueses atribuem eleição de Barroso e Guterres para cargos internacionais de topo a mérito próprio, e não à “diplomacia portuguesa”, revela sondagem.

Ministério dos Negócios Estrangeiros
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Palácio das Necessidades, sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros Daniel Rocha

O primeiro inquérito feito aos diplomatas portugueses mostra uma classe insatisfeita com o salário, as dificuldades que a carreira causa à vida familiar e a falta de meios e de instruções claras para fazer o seu trabalho.

Dos 400 diplomatas dos quadros do Ministério dos Negócios Estrangeiros, 109 responderam. A classe está “frustrada” — é a palavra usada nas perguntas — por várias razões. Das hipóteses colocadas para valorizar numa escala de 1 (mínimo) a cinco (máximo), o salário é o factor de frustração mais relevante para 59% dos diplomatas, seguido das dificuldades com a vida familiar (35,2%) e as condições de trabalho (33,3%).

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Uma minoria identifica como principal frustração “o relacionamento com os colegas” (4,7%) e a inexistência de instruções (8,4%). Mas ao somar as respostas dos níveis 4 e 5, fica exposto um quarto critério relevante: 38% dos diplomatas sentem-se frustrados com a falta de instruções. Do mesmo modo, ao juntar as respostas dos níveis 4 e 5, 84% dos diplomatas estão frustrados com a remuneração, 74% com as condições de trabalho e 61% com as dificuldades familiares.

À pergunta sobre falta de “instruções claras e oportunas” sobre as posições a assumir, 83% dos diplomatas dizem que esse é “um problema da carreira”. Para 9%, é um problema que acontece “quase sempre”; para 38% acontece “frequentemente” e para 36% “ocasionalmente”. A comentar os dados, os investigadores do estudo dizem que, “embora possa parecer compreensível, há que reconhecer que [a falta de instruções] é um problema, na medida em que pode proporcionar atitudes negativas como improvisação por falta de domínio dos dossiers ou seguidismo em relação às posições de outros países”.

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No nível mais alto da carreira, os diplomatas ganham menos do que professores do ensino superior, os militares e os magistrados.

O inquérito faz parte do Estudo da Estrutura Diplomática Portuguesa, coordenado por Luís Moita, Luís Valença Pinto e Paula Pereira e feito pelo Observatório de Relações Externas (Observare) da Universidade Autónoma de Lisboa. Vai ser apresentado por Eduardo Paz Ferreira esta quarta-feira, às 19h, na Sala dos Actos, na Autónoma. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, fará uma intervenção.

O trabalho inclui vários ensaios e três estudos de opinião: o inquérito aos diplomatas feito em Junho de 2018 com a ajuda do Instituto Diplomático, uma sondagem de opinião feita pela Aximage e um inquérito de Outubro de 2018 a empresas do sector exportador de bens e serviços, incluindo o turismo, ao qual responderam 132 empresas (46 grandes, 52 médias e 34 pequenas). Quase 40% do total teve volumes de exportações entre os dois e os dez milhões de euros em 2017.

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“Que saibamos, nunca tinha sido feito um inquérito aos diplomatas”, disse ao PÚBLICO Luís Moita, director do departamento de Relações Internacionais da Autónoma. “Não tivemos nenhuma grande surpresa. Os resultados confirmam o retrato e as intuições que tínhamos. Mas também quisemos questionar se a rede diplomática portuguesa bate certo com as transições do mundo de hoje.”

A diplomacia económica é abordada nos três inquéritos de opinião. Quase 95% dos diplomatas dizem que a diplomacia económica faz parte do seu trabalho e só 5,6% diz que “é uma dimensão autónoma” da profissão. No mesmo sentido, 84% dizem que a integração da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (Aicep Portugal Global) no MNE, em 2011, pelo então ministro Paulo Portas, foi uma decisão positiva (e só 3,7% diz que foi negativa). Já no inquérito feito às exportadoras, 59% das empresas concordam com a integração e apenas 10% discordam.

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O apoio cai muito quando a pergunta é “os embaixadores e os diplomatas portugueses estão preparados para dar apoio aos agentes económicos?” — só 19% dizem que sim (47,3% respondem não. Quando a pergunta é se os diplomatas “são eficazes no apoio aos agentes económicos”, 44% dizem que não, 42% “não sabem” e só 14% respondem que sim. Isto embora, mais à frente, se perceba que pouco menos de metade dos inquiridos (47%) já procuraram o apoio da estrutura diplomática, incluindo a AICEP, “com vista à sua expansão económica externa” e que, desses, 44% dizem que esse apoio deu “resultados positivos”.

Na sondagem de opinião pública, à pergunta “qual a razão que melhor justifica a escolha de portugueses para a liderança de organizações internacionais, como José Manuel Durão Barroso na União Europeia e António Guterres na ONU”, 61,2% dos portugueses dizem que foi “mais pelo seu próprio mérito” e 27% que foram escolhidos por “mérito da diplomacia portuguesa”.

Sobre as formas de diplomacia “mais importantes”, os portugueses respondem que são a diplomacia económica (50,7%), a diplomacia cultural (21,5%) e a diplomacia política (20%). Pouco mais de 18% sentem uma “grande” confiança na diplomacia portuguesa e 56,2% tem um grau de confiança médio, revela a sondagem.

A sondagem foi feita a indivíduos inscritos nos cadernos eleitorais em Portugal com telefone fixo no lar ou possuidor de telemóvel, numa amostra aleatória e estratificada (região, habitat, sexo, idade, escolaridade, actividade e voto legislativo) e representativa do universo e foi extraída de um sub-universo obtido de forma idêntica. A amostra teve 600 entrevistas efectivas: 281 a homens e 319 a mulheres; 58 no Interior Norte Centro, 83 no Litoral Norte, 107 na Área Metropolitana do Porto, 112 no Litoral Centro, 160 na Área Metropolitana de Lisboa e 80 no Sul e Ilhas; 99 em aldeias, 164 em vilas e 337 em cidades. A proporcionalidade pelas variáveis de estratificação é obtida após reequilibragem amostral. A técnica foi a entrevista telefónica por C.A.T.I., tendo o trabalho de campo decorrido nos dias 22 a 26 de Outubro de 2018, com uma taxa de resposta de 76,9%. Análise e relatório por Hugo Mouro. O desvio padrão máximo de uma proporção é 0,020 (ou seja, uma “margem de erro” – a 95% – de 4,00%. O estudo é da Aximage Comunicação e Imagem Lda., sob a direcção técnica de Jorge de Sá e de João Queiroz.