Estado desconhece localização de 170 obras de arte

Estado não sabe onde estão dezenas de pinturas, fotografias e desenhos de uma das suas colecções de arte contemporânea. O espólio, com mais de 1300 peças e desde 2017 à guarda da Direcção-Geral do Património Cultural, está a ser sujeito a uma actualização de inventário. Há obras de Vieira da Silva, Júlio Pomar e Helena Almeida em parte incerta.

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Mural de Júlio Pomar no Cinema Batalha, no Porto, nos anos 1940 Direitos Reservados

Criações de Helena Almeida, Júlio Pomar, Maria Helena Vieira da Silva e Gérard Castello-Lopes estão entre as 170 obras de arte às quais o Estado português perdeu o rastro nas últimas décadas, noticia este sábado o Expresso. As obras, inventariadas com “localização desconhecida”, fazem parte da Colecção de Arte Contemporânea do Ministério da Cultura, conhecida por “Colecção SEC” (Secretaria de Estado da Cultura), que começou a ser reunida há 43 anos.

Iniciada por iniciativa do poeta e então secretário de Estado David Mourão-Ferreira, a colecção é composta por 1367 obras de arte que se encontram dispersas por diversas instituições, na sequência da celebração de protocolos de depósito, de comodato ou de cedência, de museus — o de Serralves, no Porto, que guarda mais de metade deste acervo, ou o Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado — a embaixadas e gabinetes ministeriais​. 

O inventário das obras da chamada Colecção SEC começou a ser feito em 2017 pela Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC), por ordem do gabinete do então ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes. Contactada pelo PÚBLICO esta manhã, a direcção deste organismo optou por não responder a quaisquer perguntas sobre a Colecção SEC ou sobre as próximas diligências a tomar para identificar o paradeiro das peças em falta, remetendo para uma declaração escrita. Nela afirma que, “pela primeira vez em décadas, o Estado procedeu a uma inventariação detalhada e exaustiva da [sua] colecção de obras de arte”, um trabalho já “concluído” que está neste momento a ser actualizado de forma a permitir “identificar a exacta localização de algumas obras de arte”.

Em Julho de 2015, a Direcção-Geral das Artes (​DGArtes) informou a agência Lusa de que em 1992 havia 1115 obras registadas da Colecção SEC; em 2007 os registos oficiais mencionavam 1271. Agora, em resposta ao Expresso, a DGPC fala em 1367 “fichas de inventário” — segundo um levantamento de 2011 do Instituto de Museus e Conservação —, “170 das quais registam a localização das obras a que se reportam como sendo desconhecida”.

Fonte próxima do processo de inventariação avança ao Expresso que estão desaparecidos trabalhos como Entrada Negra, de Helena Almeida, ou Estudo para o Cinema Batalha, de Júlio Pomar, entre obras de artistas como Maria Helena Vieira da Silva, Graça Morais, António Dacosta, João Cutileiro, Sonia Delaunay, José de Guimarães, Cristina Iglésias, Rosa Ramalho, Malangatana, Fernando Lanhas, Pedro Proença, Abel Manta, Francisco Franco, Martins Correia, Manuel Baptista, António Costa Pinheiro e Francisco Rocha. O núcleo de fotografia, garante o semanário, foi o que mais peças perdeu, como a histórica fotografia da norte-americana Dorothea Lange, Migrant Mother, e Penedo de Guadalupe, de Gérard Castello-Lopes.

“No início dos anos 2000, quando se tentou recuperar muitas dessas peças, grande parte das embaixadas não sabia onde as tinha”, afirma ao Expresso um funcionário do Estado que esteve em contacto com a colecção. “Perdeu-se o controlo da situação. Só quando Manuel Maria Carrilho chegou a ministro da Cultura é que se pôs fim a essa debandada de obras”, explica por sua vez Pedro Lapa, antigo director artístico do Museu Berardo. O também ex-director do Museu Nacional de Arte Contemporânea — Museu do Chiado conta ainda ao semanário que a lista de peças perdidas pelo Estado chegou a ser superior a 200. Ao longo da última década, contudo, foi feito um grande esforço para encontrar obras, como uma escultura de Pedro Cabrita Reis que estava “encostada a uma parede no Palácio da Ajuda” e que se pensava ser um arquivador.

Na sua totalidade, o espólio público inclui obras de nomes incontornáveis das artes plásticas portuguesas como é o caso de Almada Negreiros, Júlio Pomar, Paula Rego, René Bertholo, Lourdes Castro, Helena Almeida, Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis, José Pedro Croft ou Vieira da Silva e Mário Cesariny.

Nasce sob a alçada da então Direcção-Geral de Acção Cultural (DGAC) e foi-se expandindo através de aquisições feitas nas exposições mais importantes do país. Inclui também obras de artistas estrangeiros, da fotografia à pintura, com nomes que vão de Cecil Beaton a David Hockney, passando por Robert Mapplethorpe, Donald Judd, Sol LeWitt ou Keith Haring.