Opinião

Ser transdisciplinar: já não basta pensar fora da caixa

É preciso meter a cabeça noutras caixas (leia-se saberes), e tentar entender o que está lá dentro para propor diversas perspectivas e soluções. É preciso ser transdisciplinar.

É sabido que um dos expoentes máximos do Renascimento, Leonardo da Vinci, para além de ter pintado o provavelmente mais famoso quadro na história da arte, era também anatomista, arquiteto, engenheiro, músico, poeta, botânico (entre outras coisas). O renascentista entendia o conhecimento como um todo, sem fragmentação disciplinar, algo que lhe permitia fazer analogias e comparações tão variadas e distanciadas que estas se transformavam em profundas fontes criativas de suas invenções e pinturas. Embora a atitude de da Vinci tenha sido excepcional na história do conhecimento, a sua forma de pensar era, como a de seus pares, pré-disciplinar. Foi nos séculos XIX e XX que o conhecimento especializado  passou a ser privilegiado em detrimento do conhecimento transversal. Foi também durante este período que surgiram disciplinas das ciências sociais como antropologia, economia, ciência política, sociologia e psicologia. Estas novas disciplinas surgiram para integrar uma nova realidade social abordando novos problemas e questões geradas pela veloz industrialização e urbanização das sociedades.

Já no presente século XXI, temos novos problemas e questões desafiantes elevadas pelo contexto da 4ª revolução industrial ou da crescente automatização do emprego nos próximos 10 anos, que implica colaboração e um pensamento pós-disciplinar. As características do pensamento e atitude leonardiana são ditas como uma das mais importantes da contemporaneidade. O nome que se dá hoje às características de da Vinci é “transdisciplinaridade”, prática indicada no relatório Future Work Skills 2020, como uma das 10 competências mais importantes no local de trabalho do futuro.

Mas quais são as implicações ou desafios desta prática? Vejamos primeiro o que significa o prefixo ‘trans’ de transdisciplinaridade em relação a outros como ‘inter’ or ‘multi’. A transdisciplinaridade rejeita a separação estanque e distribuição do conhecimento em disciplinas ou “silos”. É uma forma de produção de conhecimento, aprendizagem e colaboração com pessoas de campos de saber diferentes. É também a capacidade de adotar conceitos e lições de fora do seu campo de experiência para desafiar princípios quase sedimentados na sua área. A prática deste transconhecimento está longe de ser pioneira, como demonstra o caso de da Vinci, mas não deixa de ser inovadora e transgressora das práticas vigentes das instituições de ensino superior atuais. E há, claro, outros exemplos históricos mais próximos de nós em tempo e espaço como a criação do Centro Universitário Experimental de Vincennes, ou aquilo que se tornou a Universidade de Paris VIII, como um fruto do Maio de 68. Ou ainda mais recente, o sistema finlandês de ensino que segue na vanguarda daquilo que se chama “aprendizagem baseada em fenómenos/projetos”, em que se preza a fluidez e cruzamento de disciplinas para se resolver um problema específico.

A transdisciplinaridade vai além da interdisciplinaridade. Enquanto esta última visa a colaboração de especialistas de áreas diferentes para a produção de algo específico, a transdisciplinaridade encoraja o treino e a colaboração de pessoas que dominam múltiplas disciplinas. Ao passo que a multidisciplinaridade pode ser o simples facto de haver indivíduos de formações diferentes a trabalhar debaixo do mesmo tecto sem a necessidade de colaboração. Esta parafernália terminológica poderia ter sido descartada neste artigo. No entanto, parafraseando Kimberlé Crenshaw, a investigadora que cunhou o termo “interseccionalidade”, quando um problema não tem um nome, uma pessoa é dominada pela cegueira, que por sua vez impede a visão do problema. E quando você não vê um problema, você não consegue resolvê-lo. O termo transdisciplinaridade é um artifício para pensarmos ou repensarmos o modelo atual de como o ensino ou a ciência é realizada atualmente nas universidades.

Sobre a transdisciplinaridade, tive duas conversas instigantes há tempos atrás. Uma foi com Don Norman, diretor do laboratório de Design na Universidade de Califórnia, San Diego, e autor do clássico The Design of Everyday Things. E a outra foi com Marcus Foth, diretor do laboratório de Design na Universidade de Queensland, Austrália, que tem em preparação um livro sobre a transdisciplinaridade. Tive a oportunidade de conversar com ambos no Funchal, quando estes visitavam, em ocasiões diferentes, o Instituto de Tecnologias Interativas da Madeira (M-ITI).

Ao primeiro deles perguntei que pistas ele daria a uma jovem investigadora. Ele respondeu: “Faz coisas que ninguém mais faz na tua área. Inova ao máximo”. Ao segundo perguntei que recomendações daria a uma instituição que pretende ser transdisciplinar. Antes de responder à esta pergunta, Foth salientou que há duas questões da transdisciplinaridade que merecem atenção. A primeira é de que a transdisciplinaridade é confundida continuamente com multidisciplinaridade. E a segunda é de que o nível de inovação da transdisciplinaridade é relativo. Para Marcus Foth, a transdisciplinaridade demanda sobretudo a criação de mentes “em forma de T”. Uma mente em forma de T abriga profundo conhecimento em um campo primário (a parte ereta do T, indicando profundidade), mas cultiva uma ampla curiosidade sobre outras áreas de especialização fora desse campo primário (a barra transversal do T, indicando expansão). Quanto ao factor relativo da inovação em transdisciplinaridade, Foth deu-me um exemplo. Uma colaboração entre um engenheiro mecânico e um engenheiro civil pode ser considerada inovadora para alguém que não tem uma mente T (e pode até ser, ele relativiza). No entanto, ele tenta ir mais além e encoraja colaborações aparentemente incomuns, como entre um designer industrial e um biólogo especializado em olfato de insetos, para criar novos sensores capazes de detectar feromonas numa colmeia de abelhas.

Foth partilhou finalmente diferentes estratégias que utiliza na sua instituição para cultivar a transdisciplinaridade: 1) recrutamento constante de académicos e estudantes de diferentes áreas do conhecimento, 2) incentivo aos investigadores para participarem de seminários, workshops, aulas sobre métodos e até mesmo conferências e cursos de verão que não sejam da sua disciplina de base, e 3) incentivo à colaboração e coautoria de artigos académicos entre pessoas de diferentes disciplinas.

A transdisciplinaridade da qual fala Foth é inspiradora e é o que permite alcançar a inovação proposta por Don Norman. No entanto, estou ciente de que esta vem embrulhada de sérios desafios e riscos para a sua execução ou prática genuína, pelo menos no contexto do ensino superior ou investigação académica. Que tipo de perfil devem ter os avaliadores de projetos transdisciplinares? Como avaliar sem valorizar uma disciplina em detrimento da outra? Dentro de uma instituição que se pretende transdisciplinar, como a produtividade poderá ser avaliada? Uma exposição artística deve valer o mesmo que um artigo científico publicado numa revista internacional de revisão cega por pares? Como investigadores transdisciplinares devem se posicionar dentro da universidade dividida por departamentos e disciplinas? E numa entrevista de trabalho? Estas são algumas das perguntas que tenho pensado, sobre as quais gostaria de ver mais debate. Afinal, as pessoas que conseguirem relacionar conceitos de diversas áreas do conhecimento e extrair resultados tangíveis, seja para uma questão na área dos negócios ou para questões globais, como a escassez de recursos naturais, ou ainda para questões sociais e políticas, como a imigração, a xenofobia ou o racismo, serão provavelmente mais valorizadas no futuro local de trabalho.

Se é verdade que este novo contexto laboral, impulsionado por novas tecnologias disruptivas, demanda de nós uma mentalidade transdisciplinar parecida com aquela de da Vinci, precisamos lembrar que já não basta pensar fora da caixa. É preciso meter a cabeça noutras caixas (leia-se saberes), e tentar entender o que está lá dentro para propor diversas perspectivas e soluções. É preciso ser transdisciplinar para saber inovar eticamente, dialogar e colaborar com a mente aberta, neste mundo cada vez mais complexo e interconectado.