Opinião

Património: lições da Notre-Dame...

Cuidar do Património Cultural significa considerar o acervo recebido das gerações que nos antecederam como responsabilidade de todos.

Manuel Alegre resumiu de um modo lapidar o que está em causa: “A Notre-Dame é a metáfora de uma certa desatenção.” De facto, é preciso deixar claro que o rigor económico obriga a não gastar mais do que se pode nem menos do que se deve – e o domínio cultural corresponde ao não menos do que se deve. Falando de cultura, abrangemos naturalmente a educação e a ciência. Há pouco terminou o Ano Europeu do Património Cultural – 2018, mas não os seus objetivos, como sempre se afirmou, há que tirar consequências, o que obriga a dar especial atenção aos alertas e à prevenção.

O desastre da Notre-Dame determina consequências globais. A ideia de sustentabilidade tem de abranger as políticas culturais – envolvendo o património, material e imaterial, natureza, paisagem, mundo digital e criação contemporânea. Não se esqueça que o objetivo do Ano Europeu foi sensibilizar para a história e os valores europeus e reforçar o sentimento da identidade comum europeia. Mas, mais do que isso, foi considerar esses valores e essa identidade como realidades abertas a outras identidades e diferenças – sabendo-se os desafios que o património cultural enfrenta e que têm impacto, desde a transição para a era digital até à pressão ambiental e física, sem esquecer a prevenção e o combate do tráfico ilícito de bens culturais. Daí a necessidade de promover a diversidade cultural, o diálogo entre culturas e a coesão social, de realçar o contributo económico do património cultural para os setores criativos e para o desenvolvimento e de salientar o papel do património cultural no mundo global, desde a prevenção de conflitos à reconciliação e à recuperação de património destruído. Di-lo com clareza meridiana a Convenção de Faro do Conselho da Europa de 2005.

O caso da Notre-Dame de Paris é particularmente interessante, uma vez que a ele está ligada uma campanha emblemática, empreendida por Victor Hugo, quando publicou em 1832 o romance que leva por título e por personagem principal a própria Catedral. O enredo romântico de Esmeralda, Quasimodo, Claudio Frollo e Phoebus serve para chamar a atenção para a Notre-Dame, num apelo veemente contra o vandalismo, “perante a degradação e as mutilações de todo o tipo que os homens e a passagem do tempo infligiram a este venerável monumento”. A publicação do romance constituiu o detonador de uma grande campanha, que culminaria em julho de 1845, com a decisão do restauro e conservação da catedral, cuja concretização se deveu ao arquiteto Eugène Viollet-Le Duc.

Se lermos a literatura desse tempo, fácil é de verificar como Victor Hugo se tornou o grande defensor da Catedral, como coração da cidade de Paris. Michelet disse mesmo que tinha de reconhecer que Victor Hugo definiu uma “marca de leão” para o monumento, a ponto de ninguém mais poder tocar-lhe, já que construiu ao lado da velha catedral uma verdadeira catedral de poesia, “tão firme como os fundamentos da outra, tão alta como as suas torres”. Na sequência da campanha do jovem Hugo, Prosper Merimée (1803-1870), o inspirador da Carmen de Bizet, foi nomeado Inspetor-geral dos Monumentos Históricos e o arquiteto Viollet-le-Duc dirigiu as obras de restauro e reconstrução da Notre-Dame, durante a monarquia de julho. As orientações do arquiteto não foram isentas de crítica, mas assentam num pensamento baseado na necessidade de valorizar o Património Cultural (que entre nós foi assumida por Garrett e Herculano).

Se a Catedral de Notre-Dame é caso exemplar de um monumento que se manteve graças à cooperação entre Estado e sociedade no sentido da sua preservação, já que a sua existência física chegou a estar ameaçada, devemos saber tirar lições para o futuro, para além do estado de choque do momento, que depressa será esquecido. A reconstrução é importante, a noção dinâmica de património tem de ser defendida, mas há que adotar orientações claras e globais no sentido da prevenção e da preservação do património cultural – e falo dos mais diversos riscos, desde os incêndios aos terramotos, cheias ou vandalismo e terrorismo... Por isso, uma das preocupações fundamentais do Ano Europeu tem a ver com a necessidade de dar ouvidos aos persistentes apelos dos especialistas, designadamente no sentido da existência de inventários atualizados, planos de emergência testados periodicamente, instalação de alarmes eficazes contra incêndios, furtos e intrusões, uso de meios de prevenção e controlo de segurança, fiscalização e renovação dos sistemas elétricos e redução da carga térmica nos edifícios... Estas medidas muitas vezes são relativamente simples e tornam-se económicas, sobretudo se comparadas com os prejuízos incalculáveis e irreparáveis na sequência de desastres e catástrofes (lembre-se o sucesso do projeto SOS Azulejo).

Note-se que, ao falar da salvaguarda do património cultural, estamos sempre a cuidar simultaneamente de pessoas e coisas. Salvamos o património, a herança e a memória, mas também a humanidade, as pessoas concretas que não podem ter uma vida digna e justa sem a salvaguarda da cultura, da aprendizagem e de identidades abertas, disponíveis e respeitadoras da riqueza da diversidade. Por outro lado, reportando-nos ainda às lições do Ano Europeu, temos de insistir na importância da participação maciça das escolas, designadamente no nosso caso, através da Rede das Bibliotecas Escolares – na sensibilização dos mais jovens relativamente à importância do património cultural, como riqueza comum e elemento criador de valor, de desenvolvimento, de liberdade e de paz.

Cuidar do Património Cultural, assumir uma autêntica cidadania cultural, significa considerar o acervo recebido das gerações que nos antecederam como responsabilidade de todos. Se Manuel Alegre refere justamente a metáfora de uma certa “desatenção”, que conduz à destruição e à perda, é essencial que compreendamos que se exige atenção e cuidado redobrados – as políticas públicas de cultura têm de saber ligar a criação e a defesa da memória. Como disse Sophia de Mello Breyner: “A cultura é cara. A incultura acaba por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo.”

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico