Um pouco mais de ficção, se faz favor

É caso para dizer “engana-me, que eu gosto”. Na exposição Ficção e Fabricação – Fotografia de Arquitectura após a Revolução Digital, no MAAT, em Lisboa, quem marca pontos é a efabulação. Um caminho alternativo para olhar objectos e espaços arquitectónicos, a realidade.

Foto
Isabel Brison

A proposta de partida pode soar provocatória. Isto até se perceber que a provocação (mais ou menos subtil; mais ou menos explícita; mais ou menos intencional) é justamente um dos principais combustíveis das obras dos quase 50 artistas que dão corpo à exposição Ficção e Fabricação – Fotografia de Arquitectura após a Revolução Digital, que o MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, em Lisboa, mostra até 19 de Agosto. Como se fosse um intruso esbracejante numa catedral silenciosa e autocentrada, a imagem fotográfica da era pós-Photoshop parece boicotar o desenrolar inexorável do edificado arquitectónico (seja autoral ou vernacular) através de recursos vários, que vão do corta-e-cola à abstracção pixelizada, da manipulação visual à ilusão de óptica. Tudo para afirmar a ficção (a efabulação, a ilusão, a manipulação…), como estratégia (e tentativa) de compreensão do intrincado mundo da arquitectura e de interpretação crítica das suas manifestações enquanto projecto cultural.

Para além da provocação (ao convocar a mentira em detrimento de faculdades como a objectividade, o realismo ou a neutralidade comummente ligadas à “fotografia arquitectónica”), a exposição comissariada por Pedro Gadanho (director do MAAT), e Sérgio Fazenda Rodrigues (curador independente) galvaniza pelo menos um paradoxo, que consiste no uso de todo o tipo de derivas ficcionais ligadas à imagem fotográfica na arte contemporânea para “reabilitar as potencialidades do pensamento crítico sobre o ambiente construído” (Gadanho). Ou seja, usa-se a ficção para tentar uma aproximação à realidade, no caso, àquela que diz respeito ao objecto e espaço arquitectónicos. “Se ainda quisermos considerar a arquitectura como expressão do zeitgeist devemos considerar as visões subjectivas que, para lá das superfícies formais dos objectos construídos, revelam as narrativas escondidas da arquitectura, os seus conflitos estéticos e mesmo as suas implicações políticas”, escreve o director do MAAT na introdução do catálogo que acompanha a exposição, que, para além de um ensaio da sua autoria, inclui textos de Sérgio Fazenda Rodrigues e de Gloria Moure. Em 2000, esta curadora espanhola assinou uma mostra em Barcelona que já problematizava alguns dos tópicos agora abordados e/ou aprofundados no MAAT, que reúne quase 80 obras, boa parte das quais vindas da Colecção de Fotografia Contemporânea do Novo Banco. Um desses tópicos reflecte sobre a contaminação recíproca entre fotografia e arquitectura, ao ponto de, a partir dela, se forjarem novos paradigmas de produção e se moldarem novos campos imagéticos, numa dinâmica que permite interrogar e ampliar a concepção e o universo da arquitectura.

Sem ser central na proposta curatorial, a afirmação da fotografia como objecto estético per se na sua relação com cultura visual da arquitectura é outra das linhas de força que atravessa a exposição. A mostra foi dividida em três partes: Campo Expandido; Ficção/Narrativas Sociais; e Fabricação/Reconstruções Digitais. O conjunto inclui autores de vários campos artísticos potenciando múltiplas afinidades estéticas. Obras seminais de Andreas Gurski, Jeff Wall, Hiroshi Sugimoto e Thomas Demand relacionam-se com trabalhos de artistas portugueses como André Cepeda, Rodrigo Oliveira, Isabel Brison ou Rita Sobral Campos.

Hannah Starkey (The Dentist) Cortesia Colecção de Fotografia Novo Banco
James Welling (0462) Cortesia Colecção de Fotografia Contemporânea Novo Banco
André Cepeda (Untitled, Porto)
Edgar Martins (Pocinho Power Station: Equipment unloading dock (view from the machine hall) Cortesia EDP Foundation Art Collection
Thomas Ruff (jpeg hdem03) Cortesia Colecção de Fotografia Contemporânea Novo Banco
Tatiana Macedo (Orientalism and Reverse) Cortesia Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Lisboa
Fotogaleria
Cortesia Colecção de Fotografia Novo Banco
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