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O (fim do) racismo latente no bailado?

Existe uma cultura latente de racismo no ballet. Não é óbvia, por ser restrita, para não dizer cara e, por tal, pouco acessível ao grande público. Não só pelas sapatilhas, mas também nos corpos negros cobertos a pó de talco por não ser suposto haver bailarinos negros na Cinderela ou no Quebra-Nozes.

O (fim do) racismo latente no bailado? Talvez, quem sabe. Mas as notícias são boas e é preciso olhar para o copo meio cheio. Manda a tradição que as sapatilhas de ballet devem ser em tons de rosa, ou salmão, de modo a prolongar a perna e proporcionar elegância ao bailado, ao movimento e à dança.

Ora, tudo isto é muito bonito quando o bailarino ou bailarina são caucasianos, o mesmo não podendo dizer-se quando quem dança e interpreta em palco é negro, mestiço ou de outro grupo que não o caucasiano ocidental.

O ballet, como estilo de dança, existe há volta de 500 anos, meio milénio durante o qual, talvez por ser uma arte erudita, intelectual e, portanto, elitista, se criou a ideia, errada, de ser exclusivamente interpretada por brancos e para brancos. 

E as sapatilhas de pontas, fabricadas em tons de rosa e salmão há 200 anos, têm acompanhado este movimento em concordância. Como se o resto do mundo não existisse. Como se o gosto pela dança dependesse da cor da pele. Como se, afinal, não vivêssemos no século XXI e os direitos cívicos e o sangue derramado não tivessem qualquer valor.

No mundo elitista e exclusivo do ballet, os direitos cívicos não têm tido, de facto, grande valor. Porque se já é norma termos bailarinos negros e mestiços em palco, por outro, e até há bem pouco tempo, os ditos bailarinos não tinham outra opção senão a de cobrir com base as tais sapatilhas rosa ou salmão de acordo com o tom cutâneo, três vezes por semana, antes dos espectáculos, no intervalo e depois, como se ter nascido noutra pele fosse um castigo do qual ninguém se pode redimir.

Pois bem, tais tempos chegam agora ao fim graças a uma nova linha de sapatilhas de pontas, lançada recentemente pela Freed of London, marca de renome mundial na dança clássica, sapatilhas essas em tons de castanho e bronze, um verdadeiro ovo de Colombo no meio da dança. 

Mas a surpresa maior passa pelo choque de quem neste meio trabalha, surpreendidos pela ausência deste ovo até agora, como se não soubessem, como se todos os dias, todas as semanas, não vissem os seus bailarinos tingir as sapatilhas brancas para bailarinos brancos, só para bailarinos brancos. Dançar é um crime e as sapatilhas a prova do roubo.

Existe uma cultura latente de racismo no ballet. Não é óbvia, por ser restrita, para não dizer cara e, por tal, pouco acessível ao grande público. Não só pelas sapatilhas, mas também nos corpos negros cobertos a pó de talco por não ser suposto haver bailarinos negros na Cinderela ou no Quebra-Nozes...

Mas as mentalidades mudam, mesmo as mais empedernidas e bafientas, e consigo o mundo, e as mudanças fazem-se de pequenos passos em pontas, para não cair, um passo de cada vez, ontem cor-de-rosa, hoje em tons de castanho e bronze, amanhã de todas as cores.