Opinião

Caríssimo Manuel Graça Dias

No momento em que o Manuel nos deixa, é natural, além de inteiramente justo, que se sublinhem as obras marcantes que conseguiu construir. Mas a obra construída é infelizmente pouca face ao brilho da sua intervenção na vida arquitectónica portuguesa.

Conheci-o em 1987 numa conferência na Escola de Belas Artes do Porto, em que me impressionou, confesso, a sua boa disposição.

Era uma boa disposição contagiante, um discurso irrequieto, um pouco desorganizado, que arrancou aplausos numa plateia cheia de miúdos cheios de dúvidas e ilusões. Eu, entre eles. E, nesse período, muitos de nós, de diferentes maneiras, como o Manuel gostava, experimentavam já o encanto da sua superlativa personalidade.

Em 1988, começou O Independente e, com ele, as crónicas da vida moderna no caderno 3 que eu lia com infante prazer todas as semanas. Foi também nesse ano que o visitei em Lisboa, no seu atelier da Calçada Marquês de Abrantes, para uma entrevista que simpaticamente deu à revista estudantil da escola de arquitectura do Porto. Lembro-me bem da dificuldade que sentimos para fixar o texto dessa entrevista, por causa do discurso formidavelmente rico de hipóteses e explicações sobrepostas, mas cuja resistência à crítica era evidente, mesmo para jovens estudantes.

Era um discurso sólido e contundente com o adversário. Mas o adversário não eram pessoas nem clubes nem pátrias, apenas as ideias erradas e chatas que compõem o metadiscurso da moralidade visual em que vivíamos, e ainda vivemos.

Recordo as suas palavras sobre a arquitectura dos não arquitectos: “(...) há sempre qualquer coisa que é surpreendente na sua ‘anormalidade’, na sua divergência face ao sistema formal que temos. E isso encanta-me por contraposição ao bom gosto de pintar as coisas de branco ou de creme e de usar meias a condizer com o pullover.”

Como é óbvio, o Manuel Graça Dias não fazia a apologia da ignorância e do desenraizamento, mas encontrava uma candura dentro dessa ignorância que sinalizava os estereótipos de que se queria afastar, para acompanhar as mudanças do tempo e as ideias do próximo. Era livre e era essa liberdade que lhe permitia apaixonar-se por arquitecturas e práticas muito diferentes, e pelas cidades como elas são, nem visualmente, nem estatisticamente ordenadas, como eu viria a aprender mais tarde.

Em 1993, colaborei brevemente no seu atelier, já no Largo do Rato. O atelier era também uma pequena escola, onde encontrei amigos e fui feliz. Pude testemunhar a sua entrega aos projectos que fazia com a mesma intensidade, quer fossem grandes ou pequenos. Fazia “fitas”, encenava discussões deliberativas, de que saíam soluções inesperadas e fervescentes.

Mas era também omnipresente a sua paixão pela escrita e pelo trabalho editorial, área em que realizou muito do pouco que se faz em Portugal. Fez rádio, televisão e cassete pirata. Dirigiu durante anos a revista JA. Quando, por vezes, escrevi artigos a seu convite, tive sempre o prazer de lhe ouvir uma reacção espontânea, crítica atinada ou comentário trocista, de quem gosta de ler outros, muitos, quantos mais melhor.

No momento em que o Manuel nos deixa, é natural, além de inteiramente justo, que se sublinhem as obras marcantes que conseguiu construir. Mas a obra construída é infelizmente pouca, face ao brilho da sua intervenção na vida arquitectónica portuguesa.

Nunca fui seu confidente. Não adivinho o que sentia sobre isso. Sei, por experiência própria, que esta segunda década do século foi muito difícil para os ateliers portugueses. Mas também acho que as condições de produção da arquitectura em Portugal lhe foram sendo adversas por se ter instituído uma espécie de normatividade de gosto que o Manuel detestava e à qual nunca se rendeu.

Por isso é ainda mais importante continuar a lutar pela sua singela utopia de ver “muitas pessoas ao mesmo tempo fazerem muitas coisas diferentes”.

Um saudoso abraço, Nuno Lourenço